Eu amo a minha bolha

Não sei como a luta armada dos anos 70 agiria tendo o WhatsApp para marcar encontros clandestinos. Seria realmente muito mais fácil, mas talvez nem seriam necessários os encontros presenciais, pois o zap resolveria muita coisa. Talvez, por conta desta facilidade cômoda, nem houvesse luta armada

Eu amo a minha bolha
Eu amo a minha bolha

Comecei minha militância política aos 15 anos, pois não coloco nesta conta ter sido representante de turma no 2º ano ginasial do Colégio Militar do Rio de Janeiro, o que equivaleria ao 7º ano do Ensino Fundamental de hoje. 

Meu curso científico, fiz em parte no Colégio Volta Redonda, do professor português João Rodrigues, que diziam ter siso exilado no Brasil por conta da ditadura de Salazar, mas era bem reacionário na direção da escola. Lá eu estudava Química, curso técnico cuja turma era misturada com a Metalurgia. E, junto com Marquinho Bochecha, Francisca, Sebastião e outros, refundamos o valoroso GRECEL – Grêmio Estudantil César Lattes. Lutávamos pelo fim da ditadura e por não ser considerado “falta” se o aluno do curso noturno chegasse atrasado na primeira aula por causa do horário do emprego.

 O GRECEL tinha um mimeógrafo à álcool e eu levei a minha Hermes Baby, máquina portátil de datilografia que havia ganho do meu avô. Datilografávamos o estêncil e rodávamos boletins semanais com reivindicações, textos políticos e poesias. Nossa primeira grande atividade foi organizar uma noite cultural no auditório do colégio, um sarau com música, poesia e teatro, que foi um sucesso. Eu mesmo fui ator num esquete piada que faço questão de esquecer de tão ruim que fui. Mas eu fui, e o ano era 1978. 

Naquela época, pouca gente tinha telefone, pois custava uma fortuna. A maioria era número de recado na casa de um vizinho, de uma tia e até mesmo da mercearia do bairro. Mas, mesmos precários, conseguíamos marcar reuniões, atos de protestos, panfletagens e até uma passeata da UMES quando um Ministro do Exército visitou a CSN. Neste dia levei minha primeira cacetada nas costas, e doeu pra caramba. 

Representando o GRECEL, fui ao 4º Encontro Nacional dos Estudantes, em outubro de 1978, na Faculdade de Arquitetura da USP. Foi durante o encontro que se decidiu pelo 31º Congresso da UNE em Salvador. Não os encontrei, mas é certo que lá estavam Aldo Rebelo e José Serra. 

A viagem para São Paulo foi de madrugada, no fusquinha do César, um estudante de Medicina, num clima de total clandestinidade. Cesinha nos orientou sobre a que roupa usar, o que levar na mochila, o que responder à Polícia Rodoviária caso fossemos parados, e outras dicas. Apesar do prédio com a luz cortada pela reitoria, o Congresso transcorreu sem repressões. Na UNE, me aproximei da Libelu. 

Bom, lá se foram 40 anos e tudo mudou meteoricamente. Não ousarei aqui escrever ou filosofar sobre a internet, pois isto faço exclusivamente na mesa do Pé Quente, meu boteco favorito. Mas muito me angustia ver que a trincheira de luta hoje está no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Cada qual na sua minha bolha, minha vida, os bravos e bravas militantes fazem seus discursos inflamados, recebem respostas desaforadas e acham que estão fazendo a revolução socialista. Enquanto isso, a massa trabalhadora e a massa desempregada dão bons dias e boas noites, feliz dia do amigo, compartilha vídeos engraçados e profundos pensamentos de traseira de caminhão, sem saber que já roubaram o pré-sal, que querem acabar com o SUS, que Lula não pode ser impedido de registrar sua candidatura em 15 de agosto, que o golpe é uma ação permanente das elites com o supremo com tudo, e que no próximo sábado, dia 28 de julho, acontecerá o Festival Lula Livre, nos Arcos da Lapa, do Rio de Janeiro. Disso, só nós da bolha sabemos. 

Não sei como a luta armada dos anos 70 agiria tendo o WhatsApp para marcar encontros clandestinos. Seria realmente muito mais fácil, mas talvez nem seriam necessários os encontros presenciais, pois o zap resolveria muita coisa. Talvez, por conta desta facilidade cômoda, nem houvesse luta armada. 

Minha vontade hoje é ir para a Central do Brasil, subir num caixote e gritar convocando para o Festival. Já faço isso nos meus trajetos de Metrô e recebo muito aplausos e muitas vaias. ”Vá pra Venezuela, comunista!”. Mas a quantidade de respostas que tenho de dar no Facebook e no WhatsApp não me deixam tempo. Ah, que saudades do GRECEL! 

 

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