Eu e o meu masoquismo

"O Genocida é desequilibrado, é psicopata, é o que você quiser, mas é esperto. Passou longe de comentar qualquer coisa sobre Daniel Silveira, um dos mais radicais defensores do seu absurdo golpismo", escreve o colunista Eric Nepomuceno

Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução)
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Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia

Sim, sim: como diz um velho amigo isolado como eu aqui na serra de Petrópolis, tenho meus momentos do mais puro masoquismo. 

Ver, via youtube, os pronunciamentos não só de bolsonaristas, mas do próprio Jair Messias, é, talvez, o mais eloquente deles.

Vamos lá: nesta quinta-feira, 18 de fevereiro, ficamos sabendo que mais de dez milhões de brasileiros foram contaminados pela covid-19. E que na quarta-feira, ou seja, um dia antes, 1.432 pessoas morreram no Brasil por causa dessa doença. 

Ficamos sabendo também de outro fracasso do general da ativa Eduardo Pazuello, que com muita razão Vinícius Torres Freire, um dos poucos articulistas da Folha de S.Paulo que merecem ser lidos, chamou de “ministro Pesadello”: o calendário de vacinações anunciado, e já absurdo pela demora de o governo do Genocida adquirir vacinas, não poderá ser cumprido. E por uma simplíssima e óbvia razão: faltam vacinas. 

Na cidade do Rio de Janeiro, no estado da Bahia, num crescente número de capitais e municípios a vacinação está sendo suspensa, pela mesma razão: o energúmeno general da ativa que ocupa a poltrona de ministro de Saúde e a legião de fardados que ele espalhou ministério afora, além de autarquias ligadas ao assunto, não entende nada de nada. 

Trata-se de uma besta-fera tão prepotente como inútil. E, claro, cúmplice do Genocida. 

Mas será que não existem outros problemas, todos tremendos, além do genocídio cuidadosamente calculado e levado a cabo por Jair Messias e seu governo totalmente militarizado?

Claro que sim.

Leio que a censura voltou, e a todo vapor: a Lei Rouanet rejeitou não só doações para o Instituto Vladimir Herzog, como para um grupo de teatro, o BR116. E que os editais de comprar de livros para escolas vetam obras com determinadas expressões.

Mas será que a esta altura da tragédia vivida pelo país enforcado por Jair Messias não há outro assunto além do drama vivido pelas artes e pela cultura? Será que não há outro?

Ah, há. Apenas 71% dos indígenas que vivem em suas aldeias foram vacinados, embora fizessem – e fazem – parte dos primeiros da fila. 

E a devastação da Amazônia segue a passo firme, embora nem o Genocida, nem o reacionário vice-presidente Hamilton Mourão e muito menos o abjeto Ricardo Salles, reconheçam.

Pensando bem, claro que não reconhecem: incentivam.

Pois bem: assunto é o que não falta.

E o que vi e ouvi e pasmei ao longo de 56 minutos e 55 segundos, quase uma hora?

Jair Messias, cercado por dois dos quase onze mil milicos espalhados pelo seu governo, falando – como faz todas as quintas-feiras – ao país. 

Não numa entrevista coletiva, já que ele não é besta: numa entrevista coletiva, seria submetido a questionamentos.

Covarde como ele só, prefere falar e só receber perguntas de um programa de rádio conduzido por um traidor da classe jornalística e seus imbecis colaboradores.

Não mencionou nada sobre a tragédia: no dia anterior, repito, 1.432 pessoas morreram não só de covid-19, mas por causa do seu governo. Uma por minuto.

O Genocida falou do preço do óleo diesel, defendeu a liberação total – e descontrolada – da venda de armas e munições, fez com que um dos milicos falasse de estradas e o outro, do controle das bombas de gasolina, brincou, riu, mencionou sua estadia numa praia de Santa Catarina durante o Carnaval – tivesse um mínimo de humanidade, um mísero vestígio de decência, e teria visitado hospitais onde se amontoam as vítimas da sua crueldade  em vez de andar de lancha aquática e promover aglomerações de idiotas – e ponto final.

O Genocida é desequilibrado, é psicopata, é o que você quiser, mas é esperto. Passou longe de comentar qualquer coisa sobre Daniel Silveira, um dos mais radicais defensores do seu absurdo golpismo.

Pura covardia? Sim, mas não só dele.

Também dos entrevistadores comprados. Enquanto eu via aquele asco, pensei: tudo que eu queria, mas só naquele exato, estrito momento, era poder ter a chance de fazer uma, uma só pergunta:

“Presidente, o que vossa excelência tem a dizer sobre o deputado Daniel Silveira: vossa excelência admite que se trata de um puro e pleno discípulo da vossa soberba estupidez, do vosso asqueroso golpismo?”

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