Eu tenho um sonho

O Brasil já viveu diversos golpes, principalmente quando se refere a avanços sociais, e todos eles são impulsionados pela elite que não quer perder os seus privilégios. Não seria diferente com o governo Lula, estes que se beneficiaram a vida toda com a miséria do país não haveriam de deixar "barato" esta situação

Eu tenho um sonho
Eu tenho um sonho (Foto: Ricardo Stuckert)

"Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus". (Mateus 5:10)

Desde que estive em São Bernardo, nos dias 6 e 7 de abril em apoio ao Presidente Lula o texto das Bem-aventuranças não sai da minha cabeça, principalmente o versículo 10 de Mateus 5 que diz: "Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus" (Mateus 5:10). Pois costumo dizer que este texto é a constituição apresentada por Jesus deste Reino que Ele veio trazer. A expressão "bem-aventurado" no grego (μακάριος – Makários) tem alguns significados, dentre eles o que mais se aplica são "felizes e abençoados" e é neste contexto que me apego para escrever este texto.

Lula é um bem-aventurado, pois no seu governo combateu a fome e a exclusão que por muito tempo atrapalhou o desenvolvimento do povo brasileiro, formando um grande abismo social no país.

No Brasil, antes do Governo Lula, existiam mais de 40 milhões de pessoas ameaçadas pela fome que não tinham o que comer e viviam à margem da sociedade. Com o projeto Fome Zero, o país passou a dar mais dignidade para esses que sofrem, isso me faz lembrar de um outro texto bíblico que se encontra também no livro de Mateus no capítulo 25, versículo 35 no qual Jesus, apresentando a quem competia entrar no seu Reino, diz: "Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber, era estrangeiro, e hospedastes-me"[...], este texto é interessante porque os discípulos perguntam para o Mestre quando fizeram isso para ele e Jesus responde no versículo 40: [...] "Em verdade vos digo que quando o fizeste a algum destes meus irmãos a mim o fizeste", não tenho dúvida como pastor que a militância do cristão tem que ser estabelecida no campo social. Lula quando Presidente combateu nesta frente, preparando caminho para a erradicação da fome e combatendo as desigualdades sociais com políticas que efetivamente tiveram melhorias sobre a vida dos mais vulneráveis.

Com isso, entendo que o ex-Presidente, como Cristão que é, beneficiou muitos dos que Jesus denomina como "os pequeninos". O anseio dos que caminham ao lado de Jesus tem que ser por igualdade, não existe a possibilidade de o cristão ser conformado com a situação de um país com uma sociedade injusta, pois a Bíblia está cheia de exemplos que apontam em direção ao outro.

Em Atos 2:42-47, por exemplo, a Igreja do primeiro século vive de forma radical, após a conversão, muitos vendiam as suas propriedades e repartiam com a comunidade o dinheiro adquirido com a venda, isso é interessante, pois o texto diz que todos faziam as refeições diárias juntos, com alegria de coração e tinham tudo em COMUM, a palavra usada lá era koinonia (κοινωνία), que no seu significado mais amplo quer dizer "ter tudo em comum", ou seja, um cristão não pode estar bem enquanto existam desigualdades sociais, tão menos quando existem irmãos que passam fome. Por este e muitos motivos defendo os dois mandatos do Governo Lula, pois o mesmo combateu as desigualdades apresentando políticas públicas que se adequaram aos objetivos de desenvolvimento sustentável, as ODS's indicadas pela ONU, que têm como objetivo diminuir até 2030 as desigualdades sociais em muitos países.

Em 2014, o Brasil registrou um percentual de 3% de pessoas que ingeriam calorias abaixo do necessário para sobreviverem, isso é uma vitória e temos que dar a honra a quem merece, aos dois primeiros mandatos do governo Lula, pois este foi um dos principais focos do seu governo que tinha como promessa de campanha, erradicar a fome no país.

Além do combate à fome, este governo também combateu as desigualdades sociais, não só com o Bolsa Família, que deu a muitos brasileiros dignidade, tirando-os da margem da sociedade e reinserindo-os novamente na economia, assim como na educação. Parafraseando o Ex-Presidente, "Nunca antes na história deste país" vimos tantos jovens de escolas públicas conseguirem ter acesso a ensino superior de qualidade e público. O aumento das vagas nas universidades públicas e a sua entrada pelo ENEM trouxe pessoas que até então não viam neste um caminho possível, pois para quem vive por aqui sabe que, no Brasil, estudar em Universidade Pública era privilégio para ricos, invertendo-se a ordem, pois os filhos dos pobres tinham que ir para as Universidades privadas, alargando ainda mais o tal abismo social. O governo Lula mudou esta realidade ao abrir as portas das Universidades Públicas para estes jovens, e por um instante sentimos o que seria viver num país menos desigual, pois ao mesmo tempo em que o filho do rico passava na faculdade através do ENEM, o filho do pobre também tinha a mesma oportunidade e víamos que caminhávamos para a concretização de um sonho, em que pobres e ricos teriam a mesma oportunidade.

O GOLPE

O Brasil já viveu diversos golpes, principalmente quando se refere a avanços sociais, e todos eles são impulsionados pela elite que não quer perder os seus privilégios. Não seria diferente com o governo Lula, estes que se beneficiaram a vida toda com a miséria do país não haveriam de deixar "barato" esta situação.

A escalada do conservadorismo que, no meu entendimento, está ligada às manifestações de 2013, onde ali já havia um plano em curso para barrar este progresso que tivemos nos últimos 13 anos e que enfraqueceu o primeiro mandato do Governo Dilma, pegou carona nesse período para chegar com força em 2016, ano do fatídico Impeachment. Mas não bastava tirar só a Presidenta Dilma Rousseff, era necessário acabar com tudo, inclusive com o legado do Ex-presidente Lula. Vimos através da Lava-Jato uma caçada às bruxas, digna de ser representada em uma série, vários jornais achincalhando o mandato do Ex-presidente, teve até procurador fazendo apresentação de PowerPoint, dizendo que não precisava de provas para condenar Lula, mas apenas de convicção. O mesmo, há pouco tempo atrás, afirmou num púlpito de igreja que estava fazendo jejum para que ele fosse preso, ou seja, o processo jurídico que culminou na prisão do presidente Lula no dia 07 de abril é um tanto quanto duvidoso e não deixa dúvidas de que é um processo político para tirá-lo das eleições de 2018, pois se ele puder registrar sua candidatura certamente ganhará.

PERGUNTARAM-ME POR QUE FUI A SÃO BERNARDO

Muitos dos meus amigos pastores me perguntaram por que fui a São Bernardo dos Campos resistir com Lula. Estive lá porque entendo que o processo de Lula é um processo político e não jurídico, no qual foi utilizado a justiça como manobra para se alcançar o fim desejado que era a sua prisão. Não posso compactuar com a injustiça cometida contra um homem que demonstrou na prática que os anseios do Evangelho são possíveis, tirando mais de 40 milhões de pessoas da linha da pobreza e que deu dignidade para que estas se orgulhassem de ter nascido num país menos injusto. Ainda falta muito para se conquistar, e do jeito que as coisas andam, se não houver resistência voltaremos a retroceder.

O ato de ir a São Bernardo nestes dias foi um ato de resistência contra esse atraso, de mostrar para a elite que não há mais lugar para injustiças e que o que desejamos é um Brasil como o que Lula apresentou para nós.

Fui a São Bernardo pensando em exercer o meu papel como pastor: consolar, orar, cuidar, e ajudar de alguma forma nesta resistência e num momento tão difícil, mas ocorreu o contrário, saí consolado pelo que vi por lá, quando ouvi o Ex-presidente Lula e agora prisioneiro político desse "Brasil do atraso" falando sobre o porquê decidiu se entregar, aquelas palavras soaram como gasolina no meu coração que já arde por justiça social, e ver o povo disposto a resistir a este velho país que insiste em manter-se desigual foi renovador. Por este motivo, acredito que estar ali naquele momento e naquela hora era como estar participando de uma parte importante da história. Outra agradável surpresa foi participar do ato inter-religioso na sexta do dia 06, pois acredito que um mundo que dialoga estende a tenda da convivência, não há resistência dividida, estar com aqueles irmãos de outras religiões por uma causa nobre como esta é inspirador e dá segurança pois precisamos nos unir nas trincheiras.

O que observei é que o PT, apesar de não ter feito uma autocrítica séria sobre alguns fatos que precisam ser ajustados, ainda assim continua sendo um partido de massa. É inegável a conexão que o partido tem com os mais vulneráveis, encontrei diversos amigos de luta que lá também estiveram para engrossar essa resistência, agora o Partido dos Trabalhadores precisa se reorganizar e prosseguir, pois o próprio Lula após citar uma frase que é atribuída a Che-Guevara em que ele afirma que: "Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira", falou que ele é uma ideia, e é isso que devemos ter em mente. Não se trata só do Lula, mas da ideia que ele representa, que é a possibilidade de existir um país mais justo e menos desigual.

Assim concluo com uma profecia do Livro de Jeremias no Antigo Testamento que diz: "Eu, o Senhor, lhes digo: façam o que é justo e honesto. Protejam dos exploradores aqueles que estão sendo explorados. Não maltratem, nem explorem os estrangeiros, os órfãos e as viúvas, [...], que possamos seguir aquilo que o Eterno nos ordenou nessa profecia, e que a nossa fome e sede seja por justiça assim como fez o irmão Lula, hoje e sempre... Amém!

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