Eu voto a favor do Brasil

O que tenho visto nestas eleições é um discurso de ódio e rancor que parte de uma oposição raivosa - e que é rebatido à altura pelos defensores da atual política

Acredito que o futuro de mais de 200 milhões de pessoas que vivem no país que eu amo é assunto sério demais para ser tratado com a superficialidade da grande imprensa, que, tristemente, se vê refletida na trincheira maniqueísta das redes sociais.

Embora os mais de 15 anos vividos em redações e todo o encantamento que tenho pela história do Brasil - principalmente àquela que se passa às margens das convenções - venham urrando dentro de meu peito há algum tempo, tenho optado por colocar meu foco em uma revolução que hoje me parece mais sensata e palpável: a revolução do próprio ser humano, para então revolucionar o meio. De dentro para fora.

Porém, pelos amigos que levam em consideração a minha opinião em razão da vivência em meio aos meandros do sistema político e tudo que o cerca, resolvi escrever este texto.

Ressalto que não quero com ele inflamar ainda mais ódio e desentendimentos. Aos que têm uma posição definida, meu respeito. Como assim pretendo que minha opinião seja respeitada.

O objetivo é levar alguma fundamentação e informação que vão além da peneira seletiva da grande mídia e que passam longe dos debates televisivos e das piadinhas de mau gosto que poluem as redes sociais.

O que tenho visto nestas eleições é um discurso de ódio e rancor que parte de uma oposição raivosa - e que é rebatido à altura pelos defensores da atual política.

A maioria das pessoas que declara voto em Aécio Neves não vota a favor de Aécio ou de alguma proposta de governo, mas contra o PT, contra a Dilma, contra o Lula, contra a CORRUPÇÃO.

Porém, ignoram que essa mesma corrupção é sistêmica e que, ao longo da História, o discurso em cima dela serviu apenas para defender os propósitos de uma elite - financeira, política e midiática - para destituir do poder quem não se alia aos seus interesses, muitas vezes escusos. Como diria Darcy Ribeiro, na política aqueles que não são cooptados pelo sistema, são excluídos por ele.

CORRUPÇÃO
Não é de hoje que a "troca de favores" entre os setores privado e público faz parte de sistemas "democráticos" como o brasileiro. E, diferentemente do que dizem muitos por aí, não é apenas em nosso país que esse "toma lá, dá cá" se faz presente. Em nações ditas desenvolvidas, como os EUA, isso é ainda mais forte, com lobbies da saúde, da guerra, ente outros, financiando a eleição de políticos para defenderem seus interesses.

Nesse sistema não há apenas o corrupto, mas o corruptor e todos os que compactuam e levam vantagens com esta prática.

A raiz de toda a corrupção está no processo eleitoral, mais precisamente no financiamento privado de campanha. Empresas que têm interesse nas polpudas licitações do Estado ou que necessitam de algum tipo de favor de órgãos ou empresas públicas financiam políticos com valores que ultrapassam - e muito - os ganhos que eles terão durante o exercício do mandato.

Geralmente oriundos de sonegação fiscal, esses recursos são enviados por doleiros para paraísos fiscais e depositados em contas de empresas fantasmas, administradas por políticos e/ou partidos, em nome dos chamados 'laranjas'.

Quando, vez ou outra - e ultimamente bem mais do que em décadas passadas -, aparece um delegado ou promotor que insiste em investigar, o sistema corruptor lança suas garras em outros aparatos do Estado, comprando com a mesma metodologia agentes da Justiça e de outros órgãos, incluindo na alta esfera.

Fatalmente, o que acontece é: delegados, promotores ou juízes que estão à frente da investigação são afastados ou destituídos. O processo cai nas mãos de algum magistrado "amigo" dos corruptores, que trata de encontrar falhas na investigação ou algo parecido para que o processo seja arquivado ou esquecido em alguma gaveta.

Enquanto isso, é lançada a já conhecida "operação abafa" - ou cala boca - na mídia tradicional, que desvirtua manchetes, distorce os fatos e enterra a informação, que só será usada novamente quando houver intere$$e.

Em troca, mais propina, seja em espécie ou por meio de anúncios "publicitários". Essa mesma mídia, então, defende e apoia políticos que fazem parte desse sistema. Aqueles que não compactuam, podem virar manchete negativa e serem vítimas da "chantagem": um outro método usado para engordar caixas dessa mesma mídia. (Conto isso em uma reportagem feita sobre a Operação Castelo de Areia. Acesse aqui)

Portanto, na minha visão, votar contra a CORRUPÇÃO é votar a favor do financiamento público de campanha. E, embora tenha recorrido às práticas do sistema, o PT tem em seus quadros políticos que defendem esse posicionamento, enquanto o PSDB é totalmente contra, em razão, principalmente, do modelo econômico que defende.

Outro método de corrupção é o aparelhamento partidário de empresas públicas. Nesse caso, a meu ver, é uma questão de caráter, além de também estar atrelada ao processo eleitoral, com as já populares nomeações de cargos em troca de apoio. Acontece em todos os partidos e todas as esferas de governo - isso quando as empresas públicas não são privatizadas ou têm seu capital aberto em bolsas de valores, sendo direcionadas à administração privada do mesmo grupo político que está no poder.

Este dinheiro, geralmente, é usado como Caixa 2 das campanhas eleitorais, que, se misturam às doações privadas em prestações de contas fraudulentas.

Para mim, em uma reforma política - que se faz gritante -, o partido, e não só o indicado, deve ser responsabilizado criminalmente pela indicação. Além disso, o financiamento público vai determinar o valor exato a ser usado pelo partido, inibindo campanhas espetaculosas com gastos exorbitantes.

ECONOMIA
Focando mais em propostas e sistemas de governo - que é o que deveria ser melhor debatido durante a campanha -, digo que a principal diferença entre PT e PSDB está no direcionamento da política econômica. E isto implica diretamente na gestão de outros setores do governo.

A política econômica proposta pelo PT e levada ao governo durante às gestões Lula e Dilma defende uma intervenção direta do Estado, que serve de indutor do crescimento econômico, investindo no planejamento estrutural da nação, enquanto a iniciativa privada trabalha em parceria ou nos outros tantos setores econômicos, livremente.

Chamado academicamente de Keynesianismo, ou Estado de Bem Estar Social, este tipo de política econômica atribuiu ao Estado o dever de conceder benefícios sociais que garantam à população um padrão mínimo de vida. Daí vêm a base para programas como o Bolsa-Família, o Financiamento Estudantil (FIES), os subsídios e incentivos fiscais à política habitacional, entre outras medidas que foram adotadas - ou aprofundadas, como querem alguns - durante a gestão petista.

Por outro lado, Aécio Neves e o PSDB, como já vivido nos tempos do duplo governo de Fernando Henrique Cardoso e na maioria dos países da América Latina nos anos 90, defendem o que é chamado na academia de liberalismo monetarista.

Essa política econômica, estruturada pelo economista americano Milton Friedman após a Segunda Guerra Mundial e implantada a partir dos anos 1970 em países ditos periféricos (fiz um estudo de caso sobre o Chile aqui), é calcada em uma política de desregulamentação, desestatização e privatizações.

Para Friedman e seus seguidores, o "grande" tamanho do setor público nos países ocidentais causa distorções no funcionamento do mercado a partir da intervenção do estado. Desta forma, ele propôs um desmonte do Estado de Bem Estar Social recomendando que as leis da oferta e da procura agissem livremente nos mercados.

Já indicado por Aécio Neves como ministro da Fazenda, em um eventual governo tucano, Armínio Fraga é um dos principais defensores da teoria de Friedman no Brasil. Além disso, é representante direto de grandes grupos financistas internacionais, como o Grupo dos Trinta, criado em 1978 pela Fundação Rockefeller, que, junto a outros organismos como o Fundo Monetário Internacional, trabalha pela implantação de regras criadas pelo liberal Consenso de Washington nos países periféricos. Essas regras pregam, entre outras, as seguintes medidas:

- Privatização das estatais
- Redução dos investimentos públicos
- Juros definidos pelo mercado
- Abertura comercial
- Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições
- Desregulamentação do mercado financeiro

Portanto, em minha visão, a "mudança" proposta por Aécio e o PSDB na verdade é um retorno à política econômica subordinada aos interesses do sistema financeiro internacional, sem quaisquer intenções de melhorias no desenvolvimento social da população. Um modelo falido nos anos 90.

Este antagonismo de gestão econômica entre PT e PSDB impacta diretamente em outros setores do governo.

EDUCAÇÃO
Na gestão da educação, seguindo o modelo econômico de Keynnes, o Estado funciona como agente indutor, criando escolas e universidades públicas gratuitas, e financiador, através de bancos e órgãos públicos, do ensino àqueles que não têm condições de arcar com as despesas.

Embora muito longe do ideal, pelos anos de desinteresse dos governos no setor, os governos Lula e Dilma criaram centenas de novos campi de universidades públicas e milhares de vagas em cursos técnicos profissionalizantes e estimularam o financiamento estudantil, atingindo camadas da população cujas famílias nunca sonharam em ter filhos ou netos cursando faculdades.

Por outro lado, o liberalismo monetarista, proposto pelo PSDB, defende o ensino privado, com o fortalecimento dos financiamentos estudantis através de bancos privados, que terão autonomia para autorregulamentar os juros. Isso pode ser exemplificado na gestão FHC, que cortou investimentos das universidades públicas e conseguiu no Congresso a proibição de investimento federal em escolas técnicas.

SAÚDE
A saúde é atribuição do Estado, segundo a cartilha econômica seguida pelo PT. Diferente do liberalismo tucano, que prega a atuação forte dos atores privados no setor, como acontece nos EUA, onde Obama teve que abrir mão de uma de suas principais bandeiras de campanha, o seguro público da saúde, em razão do lobby imposto por seguradoras, médicos e hospitais privados (Relembre aqui)

Mesmo distante de uma saúde pública forte, algumas medidas tomadas pelo atual governo, incluindo o Programa Mais Médicos, permitiu que grande parte da população tivesse acesso à rede pública de saúde. Além disso, em valores, o orçamento destinado ao setor praticamente quadruplicou durante o governo de Lula e Dilma. Estamos longe do ideal, mas estamos no caminho.

Saúde e Educação são apenas dois exemplos de como funciona o Estado sob a ótica petista e tucana. Embora esteja completamente em desacordo com o que tenho visto em relação ao nível da campanha, espero que, através deste artigo, tenha contribuído com aqueles que buscam informação real, diante do fumacê levantado pelo marketing das campanhas, pela mídia e redes sociais em relação aos fatos.

Àqueles que discordam, mas que chegaram até essas linhas, minha gratidão e meu respeito. Democracia real é isso! Se você luta por um Brasil melhor, estamos juntos. É na liberdade de expressão e na divergência de opiniões que se constroem consensos para que tenhamos um futuro mais justo e solidário.

A FAVOR DO BRASIL
Diante de tanto ódio e rancor que estamos vendo nesse processo eleitoral, acredito ainda que podemos fazer desse limão uma limonada - ou uma caipirinha, para aqueles que preferirem!

Acredito que muitos sentimentos que nos vêm à tona, especialmente em momentos de ânimos acirrados, têm sua raiz dentro de nós mesmos.
Esse momento tão importante para o Brasil também pode ser um momento importante para nós, brasileiros, nos conhecermos um pouco melhor. Uma oportunidade de refletir sobre o país e sobre o que eu, como parte dessa estrutura, posso fazer por ele.

Por fim, quero deixar claro que não estou de acordo com tudo que vejo - e, por isso, busquei novos rumos, fora das redações, para continuar minha luta por um país e um mundo melhor. Mas, entendo que estamos no caminho para isso.

Diante de tantos votos contra, declaro que voto a favor do Brasil. E acredito, pelos argumentos expostos acima, que Dilma neste momento é a melhor opção para que possamos continuar construindo um país mais justo, soberano e participativo.

E, afim de ajudar nesta reflexão, deixo um pensamento de um dos maiores líderes políticos que já passou por esse planeta. Usando da "não-violência", Mahatma Gandhi combateu o bom combate na independência da Índia e nos mostrou que os recursos que precisamos para a construção de uma nação encontra-se, em grande parte, dentro de cada um de nós.

Com respeito e carinho, desejo a todos um voto consciente e uma eleição de paz, para que possamos alcançar o futuro que sonhamos.

Abraço fraterno,

Plínio Teodoro

"Insurgi-vos contra as tiranias, mas amai os tiranos.
Levantai-vos contra as injustiças, mas não destruais os injustos.
Combatei a opressão, mas não esmagueis os opressores.
Lembrai-vos de que o opressor, o injusto, o tirano são também fragmentos da vossa própria alma.
Lutai, o quanto puderes, pela transformação do mundo, mas não vos esqueçais de eliminar em vós o que vos desagrada nele."
(Mahatma Gandhi)

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