EUA e América Latina: quando foi o momento de melhor relação entre ambos?

"Eu gosto desse cara. Realmente gosto desse cara. Não tem enganação: ele é aquilo que aparenta”, disse Bush para um assessor após o primeiro encontro [com Lula]

EUA e América Latina: quando foi o momento de melhor relação entre ambos?
EUA e América Latina: quando foi o momento de melhor relação entre ambos? (Foto: Pablo Martinez Monsivais)

Já assisti duas vezes a entrevista, aliás, digamos, o ÉPICO do Lula, gravado esta semana. E para mim o grande momento nem foi ele praticamente chamando o Moro e o Dallagnol para fazer na mão, que seria óbvio demais.

O grande momento, certamente, foram as histórias do Lula mediando as tretas entre o George W. Bush e o Hugo Chávez, que apesar de render boas risadas, não é apenas hilário.

Quem assiste a entrevista uma vez, deixa passar batido o quanto o Lula era íntimo do Bush. Talvez mais até que do Chávez. E isso não é um exagero.

Certa vez eu li um livro desconcertante chamado "18 Dias", do especialista em relações internacionais Matias Spektor, onde ele relata a forma como Bush e Lula se aproximaram e como dali nasceu uma amizade entre ambos.

"Eu gosto desse cara. Realmente gosto desse cara. Não tem enganação: ele é aquilo que aparenta”, disse Bush para um assessor após o primeiro encontro.

Segundo Spektor, a rudeza, a sinceridade e a forma dura como o Lula negociava com os EUA, mas ao mesmo tempo era confiável, encantava o Bush.

Ao sair da presidência dos EUA em 2008, Bush ligou pessoalmente para se despedir de Lula, que por sinal foi o único chefe de estado do mundo naquela ocasião convidado a frequentar o rancho da família Bush no Texas, quando ele quisesse. Foi o último telefonema oficial dado pelo presidente dos EUA, por sinal.

O relato dado por Lula na entrevista, que ele pegava o telefone a qualquer momento, ligava pro Bush e dava esporro, "Cara, eu sou amigo teu, do Chávez e do Fidel, mas cada declaração que você dá contra a Venezuela, é óbvio que o Chávez vai usar de forma política. Para de falar bobagem que ele para de fazer protesto contra vocês", é completamente verossímil. Lula e Bush tinham mesmo esse grau de intimidade.

Quando vocês verão novamente um presidente brasileiro falando assim com o presidente dos Estados Unidos, como se estivesse num jogo de purrinha ou biriba? Nunca.

Bush, por sua vez, dizia para seus interlocutores que gostava muito mais do Lula do que do FHC.

É que um pernambucano que gostava de cachaça e churrasco era, para um texano odiado pela classe-média cosmopolita dos centros urbanos estadunidenses, muito mais interessante e que um ex-francófilo e bebedor de vinho, como o FHC.

Não a toa em 2005, Lula recebeu Bush quebrando protocolos. Ao invés de almoço oficial no salão principal no Palácio da Alvorada, um churrasco na Granja do Torto, com cortes brasileiros, picanha, costela, carneiro recheado, vários tipos de cachaça, futebol com os ministros e pescaria.

Em 2007, Lula se tornou o primeiro chefe de estado latino-americano a ser recebido em Camp David, numa farra muito parecia com a brasileira de dois anos antes.

Nunca um presidente brasileiro e um presidente estadunidense foram tão próximos, mesmo que opostos ideologicamente. Lula, um sindicalista-reformista muito próximo de uma espécie de social-democracia, Bush, um direitista republicano e belicista clássico.

Isso se revelaria num encontro oficial do Bush com o Presidente da Comissão Européia, João Manuel Barroso, um português ultraconservador. Segundo o livro de Spektor, nesta reunião, o português ao tentar demonstrar a sua preocupação com o Lula e a América do Sul, foi imediatamente cortado por Bush, "O Lula é de esquerda mas é meu amigo. A América do Sul está bem liderada nas mãos dele".

E este tipo de política e aproximação, deu para a América Latina seu período de maior prosperidade e estabilidade na história. Cuba nunca esteve tão em paz e próspera. Venezuela, Equador, Bolívia, Argentina com poucos riscos de golpes e etc.

O curioso foi que todos os líderes da esquerda latino-americana torceram pela vitória do Obama em 2008. E ali, com um líder carismático, democrata, teoricamente de centro-esquerda, foi ali que a nossa derrocada começaria a ser construída.

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