Europa entre Pequim e Washington: o encontro sino-alemão e a transição da ordem global
Entre dependência econômica da China e pressão estratégica dos Estados Unidos, Europa busca redefinir seu papel em uma ordem global fragmentada
Quando o chanceler alemão Friedrich Merz se sentou com o presidente Xi Jinping em Pequim, na quarta-feira, dia 25 de fevereiro, o encontro foi formalmente bilateral. Mas suas implicações são sistêmicas.
Estamos diante da segunda e da terceira maiores economias do mundo discutindo o futuro de cadeias produtivas, tecnologia, energia e comércio em um momento de transição estrutural da ordem internacional. Não se trata apenas de relações comerciais. Trata-se da posição da Europa em um mundo que já não é organizado por uma hegemonia única.
No último ano, a China voltou a ocupar o posto de principal parceiro comercial da Alemanha. Apesar de todo o discurso europeu sobre “de-risking”, a gravidade econômica entre o maior polo industrial da Europa e o maior polo manufatureiro da Ásia permanece intensa. O problema não é se a relação importa — é como recalibrá-la quando o equilíbrio anterior mudou.
A Alemanha perdeu terreno relativo, especialmente no setor automotivo. Fabricantes chineses de veículos elétricos estabeleceram liderança em integração de baterias, software e escala produtiva. Marcas alemãs ainda detêm prestígio global, mas prestígio não substitui velocidade tecnológica.
No entanto, a narrativa não é de simples declínio. Empresas alemãs operam cada vez mais sob a lógica “China for China”: produzem localmente, inovam localmente e se integram ao ecossistema chinês. Para setores como química, maquinário avançado e automóveis premium, o mercado chinês deixou de ser oportunidade complementar — tornou-se estrutural.
Desconectar-se não seria prudência estratégica; seria autossabotagem.
A Europa e a perda da zona de conforto
O encontro sino-alemão ocorre após uma década e meia de abalos internos europeus.
A crise do euro expôs a fragilidade de uma união monetária sem união fiscal. A resposta, baseada em austeridade, restaurou a credibilidade financeira, mas enfraqueceu a legitimidade social do projeto europeu. O Brexit quebrou o mito da irreversibilidade da integração. A crise migratória e o crescimento modesto ampliaram o espaço da extrema direita.
A pandemia levou à criação do programa NextGenerationEU — um mecanismo extraordinário de emissão conjunta de dívida para financiar a recuperação e a transição verde e digital. Foi um avanço institucional relevante, mas ainda circunscrito a uma lógica emergencial. A estrutura fiscal restritiva permanece objeto de disputa.
A guerra na Ucrânia aprofundou a ruptura estrutural. A rápida redução da dependência energética da Rússia alterou profundamente o modelo industrial alemão, cuja competitividade historicamente combinava energia relativamente acessível e engenharia de precisão. Custos energéticos elevados pressionaram cadeias produtivas e reacenderam temores de desindustrialização.
A Europa que simbolizava estabilidade e social-democracia consolidada enfrenta hoje crescimento modesto, envelhecimento demográfico e avanço de forças nacionalistas.
Esse contexto interno molda o significado do encontro com Pequim.
O sistema pós-hegemônico e o dilema europeu
O mundo atual pode ser descrito como um sistema pós-hegemônico: uma configuração em que nenhuma potência exerce liderança incontestada capaz de estruturar regras globais de forma unilateral. Diferentemente do período pós-Guerra Fria — quando a primazia americana organizava a arquitetura econômica e de segurança — o cenário contemporâneo é caracterizado por competição estratégica, rivalidades tecnológicas e fragmentação regulatória.
A ascensão chinesa alterou o eixo produtivo global. Os Estados Unidos permanecem potência central, mas enfrentam polarização interna e redefinição de prioridades estratégicas. A ordem liberal que sustentou a globalização profunda fragmenta-se sob políticas industriais competitivas e protecionismos seletivos.
A era Trump intensificou essa transição. Ao privilegiar uma lógica transacional, com ameaças tarifárias inclusive contra aliados europeus e ênfase em subsídios domésticos estratégicos, Washington deixou claro que o compromisso com o multilateralismo e a previsibilidade já não é automático. Para a Europa, isso significa operar em um ambiente no qual seu principal aliado é, simultaneamente, parceiro de segurança e competidor industrial. Essa dupla pressão — competição americana e ascensão chinesa — define o dilema europeu.
China, Alemanha e a nova geoeconomia
A visita de Merz a Pequim insere-se em um contexto diplomático mais amplo. Líderes ocidentais têm intensificado diálogos com a China, reconhecendo que a reorganização global não pode ser conduzida ignorando um de seus principais arquitetos industriais.
A China tornou-se motor de modernidade tecnológica em áreas como manufatura inteligente, inteligência artificial incorporada à produção e energias renováveis. Seu modelo é estatalmente coordenado e politicamente condicionado — mas é tecnologicamente dinâmico.
Para a Alemanha, cuja prosperidade depende de dominar transições industriais, o desafio não é escolher entre engajamento e confrontação automática. É dominar a complexidade.
Como argumenta Dani Rodrik, a Europa não deveria tentar competir com a China na produção em massa de veículos elétricos, onde esta já consolidou escala e preço, por exemplo. A alternativa estratégica passa por investir em tecnologias de próxima geração, cadeias de maior valor agregado e segmentos nos quais ainda possa definir padrões.
Isso exige política industrial coordenada, flexibilidade fiscal e visão estratégica — áreas em que a Europa nem sempre foi ousada nas últimas décadas.
O que está em jogo
O encontro sino-alemão não é um episódio isolado. É sintoma de um mundo em transição.
A Europa não pode simplesmente alinhar-se automaticamente a Washington nem se desvincular de Pequim. Precisa construir autonomia relativa dentro de interdependências inevitáveis.
A zona de conforto — energia barata, globalização previsível e guarda-chuva estratégico incontestado — terminou.
O que está em jogo não é apenas o equilíbrio comercial entre Alemanha e China. É a capacidade europeia de reinventar seu projeto social-democrata em um sistema global no qual a estabilidade não é mais um dado estrutural, mas resultado de negociação permanente.
A visita a Pequim, portanto, não trata apenas de comércio.
Trata do lugar da Europa em uma ordem que ainda está sendo escrita.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
