Evergrande, a agonia capitalista e as insurreições populares

Crise da gigante empresa imobiliária chinesa Evergrande deu um susto no sistema financeiro, que sobrevive por um fio, e mostrou a agonia do imperialismo

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(Foto: REUTERS)


Por Juca Simonard

A crise da gigante empresa imobiliária chinesa Evergrande abalou as Bolsas de valores no mundo inteiro. Pela primeira vez em quase 15 meses - quando o mundo vivenciava o auge da pandemia do novo coronavírus - o minério de ferro saiu cotado abaixo de US$ 100. Além do mercado imobiliário, a empresa cumpre papel fundamental na cadeia produtiva mundial, com atuação no setor automobilístico, tecnológico, de saúde, etc. A atuação da empresa é tão ampla que chega até mesmo no futebol.

A incorporadora imobiliária tem 200 mil funcionários, presença em mais de 280 cidades e afirma ser responsável por gerar 3,8 milhões de trabalhos indiretos na China.

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A crise da empresa é uma típica crise capitalista de superprodução. Durante anos, a Evergrande foi favorecida pelos créditos fáceis das instituições financeiras chinesas, que permitiram um aumento da produção. Ocorre que, com a crise capitalista econômica mundial, aumentada pela pandemia, caiu o poder de compra da população e das empresas, diminuindo a arrecadação da Evergrande, que agora se encontra com dificuldade para vender seus imóveis e, desta forma, conseguir dinheiro para pagar suas dívidas com credores.

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Crise em cadeia

A Evergrande acumula dívidas no valor de mais de US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,6 trilhão), o que corresponde a um total de 2% do PIB chinês e é do tamanho da economia da África do Sul. Os números mostram a amplitude da crise financeira que ocorreria se, por falta de recursos, a empresa chinesa tivesse de dar calote nas dívidas. Surgiria um “contágio” em todo o sistema financeiro mundial, encadeando falências atrás de falências nas instituições financeiras mundiais, atingindo a produção capitalista - já altamente debilitada pelo neoliberalismo nas últimas décadas e pela pandemia.

Do Brasil à Europa, passando pelos Estados Unidos, as Bolsas de valores registraram importantes recuos na segunda-feira. A desaceleração da economia chinesa, maior PIB do mundo (US$ 24,143 trilhões), que nos últimos anos mostra aspectos além da situação da Evergrande, já está levando a uma crise generalizada da produção capitalista. O calote financeiro da imobiliária pioraria a situação.

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Para exemplificar, a fabricação do aço fechou em baixa de 8,8% no porto de Qingdao, na China, acumulando uma queda no valor de 61% desde a cotação recorde de US$240 em maio deste ano - a matéria-prima liderava o boom de commodities. Enquanto no Brasil, houve queda no valor da Vale e das siderúrgicas Gerdau, CSN e Usiminas na Bolsa de Valores de São Paulo.

Além disso, a crise da Evergrande levaria a uma queda do mercado local chinês, afetando na exportação de produtos de outros países, como a carne e a celulose do Brasil, afetando as ações da JBS e da Suzano, por exemplo.

Acordo acalma especuladores

No entanto, na manhã desta quarta-feira, 22, a gigante imobiliária chinesa anunciou um pequeno acordo com um credor local, para evitar o calote dos juros de um título estimado em US$ 35,9 milhões.

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Em comunicado à Bolsa de Valores de Shenzhen, uma subsidiária da empresa informou sobre a negociação, o que acalmou a situação dos especuladores. Pelo menos momentaneamente, a curto prazo, pois a nota não menciona o pagamento dos juros de outro título que também vencem na quinta-feira, quando a empresa terá de pagar juros de US$ 84 milhões. É esta dívida que mais preocupa os acionistas internacionais.

A estabilização momentânea, após a nota da subsidiária, expressou-se com a recuperação, nesta quarta, do valor do minério de ferro que subiu para US$ 103,38 por tonelada na bolsa de Dalian. No Brasil, os papéis da Vale se valorizam cerca de 5%.

Porém, essa situação é paliativa e apenas alivia a crise por alguns dias. Para evitar um colapso do mercado como o que destruiu a economia norte-americana em 2008, também iniciando com uma bolha imobiliária, o governo chinês deve interferir na reestruturação da empresa.

Segundo o ING, órgão financeiro alemão, a reestruturação deve ser longa, e há grandes possibilidades de que a empresa seja parcialmente vendida para terceiros ou estatizada. O susto causado no início da semana fez até o mais neoliberal dos neoliberais defender a intervenção estatal na crise da empresa - como foi feito pelo governo Roosevelt nos EUA após a crise de 1929, e, desta vez de forma criminosa, pelo governo Obama, que injetou trilhões nos bancos para salvá-los da crise de 2008, enquanto deixou o povo arcar com a crise.

A insurreição popular volta à cena

Por mais que a implosão do sistema financeiro internacional seja resolvido momentaneamente com a resolução do problema da Evergrande, a bolha financeira mundial ainda existe, e pode estourar a qualquer momento. A situação da empresa chinesa é apenas um dentre os vários casos pelo mundo que podem ocasionar o desencadeamento geral da crise capitalista.

A situação mostra a agonia geral do imperialismo, “fase superior do capitalismo” (Lênin) - isto é, sua fase final, que é a atual. Desde o século XX, o capitalismo já não é mais o jovem que florescia com o livre mercado e o parlamentarismo. Tornou-se um sistema internacional parasitário, de espoliação dos recursos mundiais por alguns monopólios e de constantes crises. Virou uma ditadura mundial, em alguns períodos mais aberto politicamente, em outros, totalmente fechado (como no caso do fascismo).

Este sistema vive atualmente como um paciente terminal numa UTI, à base de aparelhos e máquinas - ou seja, artificialmente. A cada crise econômica, a humanidade se aproxima do toque de sinos que anuncia a superação total do atual sistema.

A pobreza, a miséria, a fome, a inflação, a crise política, etc. têm levado à falência dos regimes políticos de aparência democrática. Por um lado, aumenta o totalitarismo das classes dominantes (censura, repressão policial, golpes de Estado, etc.), por outro, insurreições populares contra o domínio dos monopólios explodem por todo o mundo.

A profunda destruição, de tipo fascista, da organização política e sindical dos trabalhadores, promovida pelas “democracias” para levar adiante a política de “choque” do neoliberalismo, está sendo rompida pela realidade, pela hecatombe social e econômica que assola o planeta. 

Na América Latina, vimos exemplos disso com a rebelião das massas no Chile, no Equador, na Argentina, na Bolívia e na Venezuela, contra o imperialismo. No Oriente Médio e na Ásia Menor, os Estados Unidos enfrentam uma dura resistência no Iraque, estão perdendo a guerra na Síria e foram expulsos pelo Talibã no Afeganistão - uma derrota tão avassaladora que deve promover rebeliões em todo mundo árabe e muçulmano, estimulando grupos islâmicos radicais, como Hamas (Palestina) e Hezbollah (Líbano), no mundo pobre.

Da mesma forma, apesar do seu poder bélico, o imperialismo tem dificuldades de se impor contra regimes políticos não-alinhados, como China, Rússia, Cuba, Venezuela, Irã, etc. A polarização política tomou conta do planeta, tanto nos países atrasados, como Brasil e África do Sul, quanto nos países imperialistas: França, EUA, Inglaterra, Itália, Alemanha, etc.

Um programa para a crise capitalista

Por este motivo, a vanguarda revolucionária precisa ter um programa para a crise imperialista. O programa socialista para os tempos modernos já foi elaborado por Trótski para a IVª Internacional. Este programa inclui uma série de reivindicações imediatas que os trabalhadores devem levantar durante o período de crise capitalista.

Abaixo, alguns de seus principais pontos:

  • Escala móvel de salários e escala móvel das horas de trabalho - redução da jornada de trabalho sem perda salarial e aumento dos salários, num programa para combater o desemprego e a miséria;
  • Formação de comitês de greve e de fábrica dos operários - os verdadeiros interessados em resolver a crise social e econômica - para aumentar o controle sobre a produção pelos trabalhadores e para superar a política de paralisia das atuais lideranças sindicais;
  • Abolição do "segredo comercial" para que os trabalhadores saibam a verdadeira situação das empresas, evitando o absolutismo dos capitalistas e evidenciando suas fraudes para espoliar os operários;
  • Estatização com controle administrativo dos trabalhadores sobre as empresas falidas;
  • Realização de grandes obras públicas para restabelecer a malha industrial, ferroviária, rodoviária, etc. e, ao mesmo tempo, dar trabalho à grande massa de desempregados;
  • Expropriação sem indenização das companhias monopolistas da indústria da guerra, das estradas-de-ferro, das mais importantes fontes de matérias-primas (latifúndio, mineradoras; reestatização completa da Petrobras, da Eletrobras…), etc;
  • Estatização dos bancos privados e do sistema de crédito para promover o planejamento econômico sem ser prejudicado pelos abusos dos banqueiros;
  • Armamento do povo para romper com a ditadura da burocracia capitalista (polícia, exército permanente), e intensificação das greves com ocupações (piquetes);
  • Nacionalização da terra e reforma agrária, contra o latifúndio;
  • Mobilização contra as guerras imperialistas e a pilhagem da burguesia: ‘confisco dos benefícios de guerra e expropriação das empresas que trabalham para a guerra’;

Essas são algumas das reivindicações operárias imediatas que Trótski colocou como fundamentais para a resolução da crise capitalista. Atualmente, os trabalhadores ainda precisam de um programa para enfrentar a pandemia, como a formação de Conselhos Populares de Saúde; fim das patentes das vacinas; produção pelo Estado (se necessário, com expropriação da malha industrial privada) de equipamentos de proteção, como máscara, luvas, álcool em gel, e a sua distribuição gratuita; ampla testagem contra a Covid-19 organizada de forma gratuita pelo governo; nenhum despejo durante a pandemia; etc.

No entanto, todas essas reivindicações, que deveriam ser discutidas em um Congresso do Povo (como proposto pela Frente Brasil Popular) que reúna as organizações operárias e populares, só podem ser vitoriosas se forem acompanhadas da luta política geral, aglomerando os explorados em torno de “Fora Bolsonaro” e “Lula Presidente, por um governo dos trabalhadores”.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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