Exonerações na Fundação Casa de Rui Barbosa mobilizam meio intelectual

A colunista Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia, afirma que "mais um setor da Cultura entrou na mira deste (des)governo". Ela diz: "desta vez, os mísseis foram apontados para a Fundação Casa de Rui Barbosa, onde cinco funcionários foram exonerados dos seus cargos de chefia, ameaçando o funcionamento do núcleo de pesquisa, o coração das atividades da Casa"

Fundação Casa de Rui Barbosa
Fundação Casa de Rui Barbosa (Foto: Daniel Silva Barbutti)
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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia - Esta semana começou com o meio cultural em estado de perplexidade. Não. Mentira. Em estado de perplexidade estamos desde o dia primeiro de janeiro de 2019. O melhor seria dizer que mais um setor da Cultura entrou na mira deste (des)governo. Desta vez, os mísseis foram apontados para a Fundação Casa de Rui Barbosa, onde cinco funcionários foram exonerados dos seus cargos de chefia, ameaçando o funcionamento do núcleo de pesquisa, o coração das atividades da Casa. A crítica literária Flora Sussekind, a jornalista Joëlle Rouchou, o professor Charles Gomes, o sociólogo José Almino de Alencar - que já dirigiu a Fundação - e Antonio Herculano Lopes, diretor geral do Centro de Pesquisa, foram os atingidos. 

Todos são funcionários concursados e dirigiam respectivamente as diretorias dos Centros de Pesquisa em Filosofia, História, Direito e o que é voltado para o acervo de Rui Barbosa. Eles perdem as funções de chefias, mas continuam na Casa. O que está sacudindo a intelectualidade brasileira, gerando uma série de manifestos e abaixo-assinados pela recondução do grupo, porém, é o ato político de desidratar um setor considerado uma verdadeira usina de ideias e debates dos mais variados assuntos de interesse da sociedade. A atual presidente, a jornalista Letícia Dornelles, que assumiu o cargo em outubro passado, não se deu ao trabalho nem sequer de comunicar as exonerações aos diretores, que souberam do ato pelo Diário Oficial da União. 

Letícia, que não tem titulação acadêmica e tampouco trabalhos relacionados com a área de pesquisa, reage às críticas sobre o pouco fôlego intelectual, lembrando que já colaborou com o “Fantástico” e contribuiu com alguns roteiros de novelas, na TV Globo. Desde que assumiu a Casa tem se dedicado a promover atividades tais como conferência sobre astrologia, moda e, no final do ano, uma “chegada do Papai Noel”, aos jardins da Fundação. O que dá uma certa curiosidade, é saber o que Rui Barbosa acharia destas iniciativas.

Em conversa com o 247, o sociólogo José Almino de Alencar, um dos cinco exonerados, traçou um panorama do verdadeiro abalo sísmico que atingiu a instituição.

247 - Está claro para toda a sociedade que este núcleo de pesquisa tem um peso muito grande dentro da instituição e que a exoneração foi mais um ato político. Houve a intenção de desmantelamento de um grupo que não se alinha às ideias desse governo?

- É importante destacar que nós continuamos como pesquisadores da Casa. O que acontece é que o gesto foi radical e feito à socapa. Parece indicar uma condenação das atividades de pesquisa aqui na casa.

247 - Vocês foram surpreendidos pela notícia no DO... 

- Exatamente. Eu estava acordado quando às 8h um amigo ligou dizendo que constava do Diário Oficial que nós estávamos exonerados das funções. Foi um gesto de violência dizer olha: a equipe toda está fora da condução desses trabalhos. E não há à vista nenhum tipo de projeto alternativo.

247 - Que projetos estavam sendo tocados e que serão mais atingidos?

- Nós temos alguns trabalhos em andamento. Ela (a presidente) nos cozinhou dizendo que sabia que o núcleo era formado por pessoas que discordavam do governo, e tal, mas que o importante era o trabalho executado. Acenou com uma convivência pacífica e produtiva. E isto foi traído. Nós temos em andamento alguns projetos que são públicos, como a organização de seminários como da questão urbana, uma vez por ano realizávamos seminários sobre temas de ponta na área cultural, enfim, cada setor de pesquisa tinha as suas atividades. 

247 - O senhor estava desenvolvendo que tipo de atividade?

Eu estava ligado ao setor Ruiano e desenvolvendo uma pesquisa sobre a Velha República. Eu tinha uma produção de artigos e seminários organizados com regularidade. Houve a criação aqui, na Casa, de um mestrado profissional mais ou menos dirigido para pessoas que atuam nas áreas de arquivos e de biblioteca, que envolvia vários pesquisadores. Estamos já na terceira turma. É uma atividade do Centro que envolve o grupo, porque há um certo tempo não tem havido concurso para pesquisador. Muitos se aposentaram, e os que ficaram investiram nesse mestrado, que ainda está em período probatório, porque só tem três anos e corre risco.  

Temos também pesquisadores que se dedicam ao acervo, à conservação dos textos e todos com trabalhos que dão divulgação e charme à Casa. Nós não somos aqui um Arquivo Nacional, que tem muito mais arquivos que a gente. Tampouco a Biblioteca Nacional, mas que, no entanto, não têm essa divulgação e esse charme que atrai gente para dentro do arquivo. Temos um grupo grande de bolsistas e um trabalho engrenado de tal qualidade que mantém a Casa acesa. De tal forma que um ato desses leva a uma repercussão como a que está tendo, agora.

247 - Há muitos manifestos e abaixo-assinados circulando e pedindo a recondução de vocês. Como o senhor está vendo isto?

- Eu falo agora em meu nome. O mais importante é a direção de pesquisa, naturalmente. Os outros cargos eles permanecerão no cronograma. São cargos pequenos. Não são os cargos, a remoção, é a intenção política do ato. A gente não sabe nem a que corrente de pensamento ela (a presidente) está ligada. O que ela representa dentro do governo. O próprio Olavo de Carvalho diz que eles não têm quadros. Não cobramos dela títulos acadêmicos, mas o mínimo de bom senso, para que pudéssemos estabelecer uma forma de convivência. Estamos preocupados é com esta levada política. Ela tentou estabelecer uma programação prosaico, como uma sobre astrologia, que acabou cancelada pelo secretário de Cultura, e uma aproximação com consulados europeus, com coisas que a gente não sabe bem o que pode sair dali. Se ela fosse uma intelectual de direita, nós passaríamos a ver aqui uma aproximação com pessoas desse meio. Mas não parece haver nada desta ordem. O próprio Olavo de Carvalho aponta que a esquerda está em vantagem nesse particular, uns cem anos à frente. E que eles não têm quadros para suprir esses cargos.

247 - Os cargos serão extintos?

- Há uma complexidade jurídica que não permite que seja assim. De modo que ela terá que arrumar pessoas para nos substituir, porque os cargos permanecem no organograma.

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