Explicações para a nossa passividade
"Vale fazer uma reflexão sobre o que acontece também na conjuntura dos países da América do Sul que apresentam revoltas populares contra esse mesmo modelo aplicado no Brasil"
No contexto da crise social brasileira em que temos um governo que aplica um programa neoliberal que retira direitos sociais dos trabalhadores e promove políticas fiscais dóceis para o empresariado, vale fazer uma reflexão sobre o que acontece também na conjuntura dos países da América do Sul que apresentam revoltas populares contra esse mesmo modelo aplicado no Brasil.
Muitas críticas tem surgido sobre a passividade do povo brasileiro diante da implantação de uma agenda econômica que o deixará mais pobre. Ao contrário das populações de países como Argentina, Equador e agora o Chile que estão nas ruas protestando contra a agenda neoliberal. Para tentar explicar essa situação pontos importantes relacionados a questões pertinentes como comunicação, política, história e cultura precisam ser considerados.
No que tange a comunicação, é público e notório que o Brasil possui um sistema que é dominado por oligarquias que ditam o que será seguido conforme a pauta econômica e política reinante, e isso acontece desde o surgimento de veículos de massa no Brasil como o rádio e televisão, cujas empresas de propriedade de famílias como Chateaubriand e Marinho, entre outras,dirigem o processo que aplica uma forte alienação. Desde a queda do Regime Militar, em 1985, a pauta econômica difundida é a do esvaziamento do Estado e aplicação dos ditames neoliberais. A aplicação de todas as iniciativas como, por exemplo, o Plano Real, reformas Trabalhista e da Previdência nunca gerou debate na mídia, a partir do contraditório. Sob a justificativa de que o país precisa se inserir no contexto global do capitalismo competitivo assistimos uma narrativa que não passa de um monólogo teatral ideológico de submissão.
Esquerda Caviar
A parte política revela o quanto a nossa esquerda se mostra incapaz de pautar qualquer tipo de discussão e organizar qualquer resistência a esse ataque. A chamada institucionalidade inviabiliza qualquer mobilização de sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos. É difícil entender a incapacidade desses grupos em dialogar com a camada mais pobre da sociedade sobre o que de fato ocorre com a retirada de direitos sociais.
O fato é que temos somente uma esquerda pequeno-burguesa, que dentro do seu academicismo, não mostra ter qualquer noção da realidade que vive a base da pirâmide social, os mais pobres que sofrem com a violência policial nas favelas, desemprego e abandono do Estado. Essa esquerda, branca e de classe média, no fundo tem a mesma visão de mundo de uma classe média de direita que não aceita a existência de uma luta de classes no Brasil, e que acaba apresentando suas contradições ao sentar-se no legislativo para “negociar” perdas menos dolorosas para esses trabalhadores. Isso ficou bem claro na reforma da Previdência em que parlamentares aceitaram a institucionalidade do falso debate político e chancelaram as reformas que o capital exigiu.
Somado a isso, temos a questão histórica de que o Brasil na sua construção política e social não tem histórico de rupturas institucionais, a não ser quando promovidas pela sua própria elite como nos processos de Independência e República, ou em golpes como o de 1964. Sim, tivemos revoltas populares, mas que logo foram massacradas como Inconfidência Mineira, Guerra dos Malês, Balaiada e Revolta da Chibata, entre outras. Mesmo a Guerra Farroupilha foi um movimento de oligarcas.
O eterno sebastianismo
Esse conjunto de condições nos arraigou uma cultura do medo e digamos da profusão do chamado “sebastianismo”, uma crença surgida a partir da morte do Rei de Portugal, Dom Sebastião, em uma batalha no Norte da África, no século XVI, que pelo fato de não ter o seu corpo encontrado, voltaria à Portugal para salvar o país de seus problemas. E assim, a herança cultural nos tornou refém da esperança de quem alguém resolveria nossos problemas aqui no Brasil. Não muito diferente de nossos tempos atuais com o bolsonarismo e lulismo.
De alguma forma esse processo se repete na América Latina, sendo talvez um legado ibérico, em que surgem salvadores e caudilhos que lideram os povos na sua luta contra a ditadura colonial, mas que nem sempre acabam bem. Mas de alguma forma esses povos expressam de forma real sua contrariedade e revolta quando aviltados, evitando assim a angustia da omissão e da não resistência como acontece no Brasil.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

