Felipe Neto esculhamba gabinete do ódio, esfola a CNN Brasil e destroça Bolsonaro em entrevista à Folha

O colunista Gustavo Conde comenta a importância do youtuber Felipe Neto no combate ao fascismo bolsonarista. Conde acredita que Neto ainda tem muito o que aprender em política, mas que é imbatível na área de inteligência digital para vencer Bolsonaro: “não é inteligente ignorar o que ele diz. Inteligente é selecionar e re-organizar seu discurso à luz de um novo ciclo de políticas públicas para o setor digital”

Felipe Neto e Gabinete do Ódio
Felipe Neto e Gabinete do Ódio (Foto: Reprodução)
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O youtuber e empresário Felipe Neto concedeu uma importante entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Neto mostra o estado de indigência do discurso sobre redes sociais pretensamente técnico gestado nos setores que querem combater fake news no Brasil.

Dos "especialistas" que vaticinam sobre as redes sociais no Brasil, poucos entendem verdadeiramente de protocolos de rede ou sobre comportamento digital de usuários [eu venho dizendo isso há mais de ano e a razão é simples: é preciso ter o mínimo lastro conceitual não apenas para entender como operam robôs e algoritmos, mas de psicologia básica do comportamento humano, das nossas fraquezas e vícios subjetivos].

A CPMI das fake news, por exemplo, é um desastre. Os arguidores não sabem o que perguntar (porque desconhecem tecnicamente o tema). Vejam o que diz Felipe Neto sobre isso:

"(...) É inacreditável que estejam discutindo fake news e não tenham convocado os maiores nomes de comunicação digital do país para debater, ouvir, conversar. Não à toa, a CPMI das fake news está com tantas dificuldades. Você não pode debater um assunto sem ter domínio sobre ele, muito menos conduzir uma investigação ou criar leis a respeito.

Chamaram membros do gabinete do ódio para serem praticamente interrogados na CPMI e conseguiram tomar um banho de sujeitos cujo QI é comparável ao de uma geladeira frost-free."

Sobre o 'gabinete do ódio, ele praticamente dá uma aula: "

"Esses grupos são compostos por centenas de apoiadores, cooptados “soldados digitais”, e cada um deve ter uma ou múltiplas contas de Twitter e Facebook. É a partir desses grupos que eles criam todas as notícias falsas, normalmente em sites que se denominam “imprensa de verdade”, e espalham os links compulsivamente. É também lá que eles criam as hashtags e ensinam os “soldados” a tuitar. É também lá que sincronizam os ataques para tentar destruir a reputação de opositores, espalhando vídeos falsos, montagens ou hashtags de silenciamento. Isso é o que chamamos de gabinete do ódio. Tudo que nasce ali se espalha rapidamente em todas as redes sociais."

O youtuber ainda desmascara a CNN Brasil - "é hora de os bons jornalistas deste país pressionarem para que tenhamos menos CNN Brasil dando voz a Osmar Terra, Caio Miranda (Coppola) e Tomé Abduch" - e Bolsonaro e seu governo: "Figuras como Bolsonaro, seus filhos, Olavo de Carvalho, Weintraub, Ricardo Salles e outros, são agentes de pensamentos fascistas que flertam constantemente com o autoritarismo e a opressão."

É até curioso: a mídia tradicional, tão alinhada ao fascismo bolsonarista, foi dar voz a Felipe Neto e agora tem que "aguentar". Ele não tem o menor problema em desossar a esculhambação em que se tornou o Brasil depois que o PT saiu do governo.

Neto define ainda - como talvez nunca tenha sido definido - como funciona a geração de tráfego nas redes sociais - e ele sabe disso na prática, pois é dono dos maiores perfis digitais do país, gosta do assunto e prospecta seu patrimônio dessa expertise real, não aquela forjada em cursos e pós graduações emboloradas de "tecnologias de rede". É brutal o que ele diz:

"O ser humano tende a se sensibilizar e denunciar mais um vídeo de um homem agredindo um cão do que um vídeo de esgoto a céu aberto numa comunidade, com pessoas sendo contaminadas em função da falta de saneamento.

Por quê? Pela manipulação dos gatilhos emocionais e necessidade de ação imediata que despertam em quem assiste. Uma agressão é algo instantâneo que requer uma resposta na hora, um esgoto a céu aberto é algo que já acontece há muito tempo e todo mundo sabe que vai levar tempo para corrigir."

E esfola a burrice do jornalismo tradicional:

"O uso de paywalls é extremamente necessário para a imprensa. Não há jornalismo sem assinaturas. A questão não é se devemos usá-lo, mas como. A informação não pode ser elitizada, esse é o primeiro ponto.

(...)

Como podemos combater a desinformação se, ao mandarmos o link de uma notícia precisa a respeito da cloroquina, o indivíduo é imediatamente bloqueado por uma página pedindo para se tornar assinante? É preciso ter tecnologia de ponta para mapear isso de maneira eficiente e, principalmente, entender que há notícias que não podem, sob nenhuma hipótese, ficar escondidas atrás de um paywall, pois prestam serviço essencial de informação à população. O paywall tem que existir, mas é preciso evoluir muito."

Felipe Neto não é bobo. Nem santo. Deixa muito a desejar quando fala em política, quando tenta ler o que ocorre no país nos últimos 10 anos. Aí, ele tem "déficits". Mas é humilde e está buscando aprender.

Não é inteligente ignorar o que ele diz. Inteligente é selecionar e re-organizar seu discurso à luz de um novo ciclo de políticas públicas para o setor digital.

Não perguntaram a ele sobre a regulação da internet, por exemplo, que foi feita nos governos Dilma e que foi considerada a mais avançada do mundo por muita gente ligada às redes sociais e a governos, num equilíbrio técnico quase assustador nos idos de 2014.

Ele é beneficiário da liberdade técnica e democrática que foi forjada no Marco Civil da Internet - discutida com amplos setores interessados da sociedade, como sói acontecer em todos os governos do PT.

A visão dele sobre "união" contra o fascismo também é ingênua. Mas ele ainda vai aprender sobre isso.

Nós, brasileiros, interessados em democracia, precisamos parar de personalizar os enunciados do debate público. Quando eu chamo a atenção para o que diz Felipe Neto, eu não quero que ele se torne presidente da República. Eu apenas chamo a atenção para o que diz Felipe Neto.

E ele diz coisas interessantes e coisas desinteressantes, como todos nós. Há, no entanto, uma cifra de integridade em seu discurso. Ele reconhece erros e busca se aprimorar.

Enquanto banqueiros oportunistas, subletrados e egocêntricos tentam empurrar goela abaixo da sociedade reativa e traumatizada manifestos de quinta categoria contra o fascismo, muita gente jovem e interessante vai construindo o Brasil que será realidade depois da catástrofe Bolsonaro.

É bom estarmos atentos - ou perderemos o ônibus da história.

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