Fernando Holiday e o outro lado do espelho

Creio que, para além de denunciar com xingamentos e rotulações sua prática neofascista e suas contradições de classe, sexo, raça e ideologia, como muitos já fazem, seria-nos mais útil observar com olhos críticos o ambiente político, social, militante, antropológico, cultural que favorece o aparecimento de fenômenos como os Holidays

Vereador de São Paulo Fernando Holiday (DEM-SP) e membro do Movimento Brasil Livre (MBL)
Vereador de São Paulo Fernando Holiday (DEM-SP) e membro do Movimento Brasil Livre (MBL) (Foto: Heraldo Tovani)

Morpheus encontra Neo, um hacker que vive inconsciente de si e do mundo real, dentro do ambiente virtual Matrix.
Morpheus oferece-lhe uma saída: escolher entre duas pílulas. A pílula vermelha lhe revelaria seu real estado e o desalienaria daquela bela realidade falsa. A pilula azul o deixaria em seu estado atual e a realidade, feia, mas verdadeira, não lhe seria revelada.

Diante de um dilema semelhante ao do filme Matrix, qual pílula o vereador escolheu?

Fernando Holiday já chamou atenção em algumas oportunidades. Mas em especial nesta semana, quando postou um vídeo no Facebook. No vídeo, fala de sua cruzada pelas escolas municipais, numa versão quixotesca e atualizada do CCC, o nefasto Comando de Caça aos Comunistas, que agrupava paramilitares justiceiros, no período da ditadura militar do Brasil.

Uma semelhança alegórica a Dom Quixote de La Mancha é tão emblemática que chega a ser óbvia.
O nosso Dom Quixote Holiday também confunde escolas com monstros terríveis e na sua ilusão psicótica parte para o enfrentamento heroico, solitário e inútil.
Quando Dom Quixote, no romance de Cervantes, é atingido por uma das pás do moinho de vento e cai vencido ao chão, seu fiel escudeiro o alerta para a ilusão: Não são monstros, são moinhos de vento, diz. Dom Quixote volta os olhos e, agora, concorda: são moinhos!
Afirma, porém, que um mago inimigo transformou-os em moinhos, para protegê-los de sua espada justiceira. A realidade não desfaz o delírio.
Não tarda e uma conspiração dos magos da esquerda começará a atormentar os pensamentos e miragens do nosso Dom Holiday.
"Cavaleiro da Triste Figura", é assim que Sancho Pança, seu fiel escudeiro, nomeia a Dom Quixote de La Mancha, quando o vê no chão, ferido e com os dentes quebrados. Aconteceu que, após confundir carneiros com exércitos inimigos e avançar sobre eles em combate, Dom Quixote foi ferozmente atacado pelos pastores e, jogado ao chão, foi pisoteado pelo rebanho.

Mais que uma alegoria, Sr. Holiday, um presságio!

A obra de Miguel de Cervantes, no entanto, serve-nos apenas como uma sátira carnavalizada de Holiday.

Creio que, para além de denunciar com xingamentos e rotulações sua prática neofascista e suas contradições de classe, sexo, raça e ideologia, como muitos já fazem, seria-nos mais útil observar com olhos críticos o ambiente político, social, militante, antropológico, cultural que favorece o aparecimento de fenômenos como os Holidays.

Falo dessa multidão de jovens pobres que foram seduzidos por um discurso que não é o seu, por uma prática que é contrária aos seus interesses e que defendem uma ideologia que os nega e os exclui.

Assim, quando falo de Fernando Holiday entenda-se que estou preocupado e atento mais a uma categoria geral que a um indivíduo específico.

Hoje, com vinte anos de idade, é de supor que há aproximadamente três anos, o adolescente – ainda Fernando Bispo – tenha optado pela pílula azul.
Com dezessete anos, aluno do ensino médio, ele não foi cooptado pelos terríveis vermelhos, os quais hoje persegue. Onde estavam os militantes da pílula vermelha?

Estavam todos no Planalto Central?
Ganharam o governo, perderam o povo.
Esqueceram que aquela oportunidade deveria ser posta na construção de um Projeto de Brasil.
A construção de um projeto político e social de Brasil, sustentado por uma cultura de resgate do que somos, uma cultura na qual o brasileiro se identifique e se reconheça.
Essa construção é urgente. Sua falta é escandalosa.

Há uma multidão de jovens Holidays, "quase todos pretos, ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres" (Caetano Veloso, Haiti) que não se enxergam, não se reconhecem, não são acolhidos, não têm voz, são só exército de reserva de mão de obra, tanto para o mercado formal quanto para o crime organizado. São carne barata, para o mercado.
Sem horizonte, sem perspectivas, órfãos políticos de um projeto que ainda não nasceu, eles são ninguém.

E não precisamos ir longe para buscar as matrizes do pensamento para a construção do Projeto de Brasil. É na inteligência brasileira que está o material de construção para essa obra.

Holiday não é o Homem Cordial.

A personalidade política de Fernando Holiday e o que ela representa é diametralmente contrária à caracterização de Homem Cordial, termo que Sérgio Buarque de Holanda cunhou em sua obra Raízes do Brasil.
Na obra, o brasileiro, Homem Cordial, é calorosamente chegado aos seus próximos e arredio e distante dos estranhos ao seu grupo familiar e social.
Holiday, ao contrário, distancia-se das organizações negras, LGBT e dos movimentos populares, seus próximos e afins, para prestar cordialidades ao latifundiário, ao empresário e aos colegas do partido dos ricos e poderosos, ao qual pertence.

Holiday e o lugar do brasileiro.

Na obra clássica, "O Povo Brasileiro" , o professor Darcy Ribeiro enxerga a gênese do povo brasileiro na mistura das raças que aqui habitavam. Havia o índio, com seu lugar definido na sociedade tribal e na sociedade colonial. Havia o europeu, com seu papel dominante nas instituições de mando da colônia e havia o negro, ordenado em sua condição de escravo, no mundo do trabalho.
A convivência estreita fez surgir o filho do branco com a negra, o qual não era branco nem negro. Fez surgir o filho de índio com branco: nem branco, nem índio; Do negro com o índio, que não era nem um nem outro.
Esses descendentes deserdados foram os primitivos brasileiros, sem lugar que os acolhesse, sem raça que os definisse, sem nacionalidade, sem identidade. Eram ninguém.

Diz, o professor:
"O primeiro brasileiro consciente de si foi, talvez, o mameluco, esse brasilíndio mestiço na carne e no espírito, que não podendo identificar-se com os que foram seus ancestrais americanos - que ele desprezava - nem com os europeus - que o desprezavam - e sendo objeto de mofa dos reinóis e dos luso-nativos, via-se condenado à pretensão de ser o que não era nem existia: o brasileiro". (Página 128)

O "... crioulo, nascido na terra nova, racialmente puro ou mestiçado, este sim, sabendo-se não-africano como os negros boçais que via chegando, nem branco, nem índio e seus mestiços, se sentia desafiado a sair da ninguendade, construindo sua identidade. Seria, assim, ele também, um protobrasileiro por carência". (página 131)

Os ".... mulatos ou eram brasileiros ou não eram nada, já que a identificação com o índio, com o africano ou com o brasilíndio era impossível. (....) esses mulatos, somados aos mamelucos, formaram logo a maioria da população que passaria, mesmo contra sua vontade, a ser vista e tida como a gente brasileira".(página 128)

Já estava posta aqui, ao protobrasileiro, a tarefa enorme de construir-se a si mesmo, como brasileiro. Tarefa ainda maior se o pensarmos como despossuído de identidade, de cultura e de qualquer bem que lhe permitisse uma acumulação primitiva de capital.
Pobre e sem identidade, o brasileiro via-se, à maré dos acontecimentos, predisposto a filiar-se à ideologia do dominante, sempre que a sorte lhe permitisse acumular alguns trocados, ou a filiar-se ao oprimido, sempre que a consciência lhe permitisse acumular algum discernimento.

A construção lenta de uma ideologia própria só se iniciará com os processos de ruptura que o país viveu na independência, na abolição da escravatura, nas diversas revoltas sociais da colônia, império e república, com o movimento operário, do início do século XX e com a ascensão cultural de uma literatura própria, das artes e da valorização da cultura local.

Longe, porém, de ser uma ideologia do brasileiro, própria e por ele construída.

Por isso, a força, entre nós, da ideologia europeia e norte-americana; por isso o discurso que entende como "avançado e moderno" o que vem de fora e de "atrasado e arcaico" o que é local.

Isso posto, vemos o trabalho enorme que ainda espera por nossa mão de obra: Construir uma ideia de Brasil que caiba, dentro dela, os brasileiros.

O Fernando Silva Bispo, de nome atrasado e arcaico, rebatizou-se Fernando Holiday, avançado e moderno. Talvez, cansado de ser ninguém filou-se à ideologia dominante.

Holiday e o ornitorrinco.

Há uma outra referência forte, que me atrai impiedosamente. É a leitura que Francisco de Oliveira faz sobre a economia e a sociedade brasileira contemporânea e a sua comparação com o ornitorrinco.
No texto "O Ornitorrinco" , o Brasil, para o autor, engendrou um sistema econômico e social sem fisionomia definida, devido à transformação do capitalismo industrial em financeiro, à globalização e às novas tecnologias, que, na periferia do capitalismo mundial, produz efeitos estranhos, como a opção de crescimento econômico sem infraestrutura básica; a criação de postos de trabalho especializado, até então impensados para as economias periféricas; alta tecnologia aplicada à produção de itens de consumo para as classes mais baixas e mais distantes dessa mesma tecnologia e a naturalização da exclusão social e econômica no seio de regimes democráticos. Verdadeiro ornitorrinco político.

O ornitorrinco é "um ser malformado, a meio caminho da evolução" , que não é ave, mas bota ovo; bota ovo, mas é mamífero; é mamífero, mas não tem tetas; não é aquático nem terrestre, é semiaquático; foi nomeado pela primeira vez como Ornithorhynchus paradoxus , realmente, um paradoxo da natureza.

Mas aí, a bem da verdade, se formos buscar na política brasileira similaridades entre nossos parlamentares e o estranho ornitorrinco, avançaremos para muito além do Holiday. Mas, com ele incluso, na verdade, entre os mais típicos.

Ele é negro, mas contra os sistemas de cotas. É pobre, mas contra o Estado de Bem Estar Social. É homossexual, mas contra o movimento LGBT, É filho de trabalhadores humildes, mas favorável à terceirização e a Reforma da Previdência. É oriundo da periferia da capital paulista, onde ainda moram seus pais, cujos vizinhos, muitos deles, recebem auxílios sociais, como o Bolsa Família, FIES, Pro une, os quais ele combate, com veemência.

Ele não é capitalista, ou seja, não detém a propriedade privada dos meios de produção, mas defende o livre mercado e o Estado mínimo.

Ele não sabe que o "mercado" negreiro, foi, até o fim, contrário à libertação de seus irmãos negros? Que o "mercado" empresarial foi, até o fim, contrário à jornada de trabalho de 8 horas, ao direito a férias, ao 13º salário e a todos os benefícios a que seu pai, garçom e sua mãe, auxiliar de enfermagem, têm direito? Ele não entende que Estado mínimo é o Estado do mínimo direito à população e que a sua proposta visa a transformação do Estado em simples gerenciador do capital privado?

Holiday e Macunaíma.

O que pensar sobre aqueles que, como no Admirável mundo novo, amam seu estado de cativos?

Talvez, quando escolheu a pílula azul, Holiday tenha perdido sua muiraquitã.

Muiraquitã é o amuleto de Macunaíma, personagem central da obra de Mário de Andrade e livro fundamental da literatura brasileira.
"No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite".
Um dia, Macunaíma perdeu sua muiraquitã.
Mais que um amuleto -que lhe foi dado por sua esposa Ci, a mãe do mato- muiraquitã representa a identidade do personagem, seu totem sagrado, a consciência de seu lugar, sua consciência de si.
Macunaíma sabia que a muiraquitã havia sido levado pelo rico mascate da cidade grande, Venceslau Pietro Pietra.
Assim, para resgatar seu amuleto, vem para São Paulo.
Descobre, por fim, que o comerciante, na verdade, é o gigante Piaimã, o comedor de gente.
Mais que uma alegoria, Sr. Holiday, um presságio!

O espelho de Holiday.

Aqui percebo que convocamos acima nomes e obras que talvez estejam além da capacidade interpretativa deste narrador.
Essa minha impertinente ousadia não visa a canastrice de sabichão, mas a convocação dos espíritos lúcidos de nossa cultura – mesmo com o pouco que deles eu tenha capacidade de recolher – para iluminar e refletir o espelho de nossa tão sombria realidade atual.
E já que me permiti até aqui essas tantas arrogâncias, autorizo-me a finalizar convocando aquele sem o qual a grande alma brasileira não estaria devidamente contemplada, João Guimarães Rosa.
No seu livro de contos, "Primeiras Estórias", de 1962, o 11º conto é "O Espelho".
Nele, o narrador, em primeira pessoa, alerta-nos, já de início que discorrerá "não uma aventura, mas experiência". A dita experiência consistia em descobrir em suas feições, em sua imagem o seu verdadeiro aspecto formal. A sua imagem verdadeira. Seu eu.
Buscava, em experiências de meses consecutivos, mirar-se ao espelho. Ora mirava-se rapidamente, ora demoradamente, de canto de olho, de pálpebras cerradas, à pouca e à muita luz e também nos momentos de ira, de felicidade, de tristeza, de apatia...
Depois de um tempo, percebe as muitas camadas de embustes que desenvolvemos ao compor nossa fisionomia, de acordo com a nossa história de vida e com o nosso gosto pessoal. A experiência precisava, então, penetrar essas diversas camadas e extrair dela a essência. Com muito treino, conseguiu, após vários meses, localizar em sua fisionomia uma imagem animal, uma onça. Consistia agora, depois das alegrias dessa primeira vitória, procurar isolar a onça e buscar o que havia em si, para além da onça.
Adquirindo prática e conhecimento, localizou, isolou e afastou as fisionomias herdadas do pai e mãe, depois, a impressão marcada de uma desavença do passado, as marcas deixadas de uma paixão vivida, uma impressão tirada de um amigo, as marcas de uma vitória, as cicatrizes das derrotas...
Um dia, depois de várias extrações de vivências e heranças, olhou-se ao espelho e não se viu.
Desapareceu, sumiu. Ele era ninguém.

Ninguém, sr. Holiday.

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