Festa junina em Beijing: Brasil e China se encontram pelo afeto
No Ano Cultural Brasil-China, uma tradição popular brasileira atravessa o mundo e mostra que diplomacia também se faz entre pessoas
Por Iara Vidal (*) - Beijing ganhou, mais uma vez, um pouco de Brasil em uma das atividades do Ano Cultural Brasil-China. No dia 27 de junho, a terceira edição da festa junina brasileira, organizada pelo Conselho de Cidadãos Brasileiros de Beijing, reuniu a comunidade brasileira na capital chinesa e moradores locais interessados em conhecer de perto uma das celebrações mais queridas do calendário cultural do Brasil.
Com comidas típicas, música, dança e brincadeiras tradicionais, o evento mostrou, na prática, que a diplomacia entre países também acontece no encontro entre pessoas — no gesto de compartilhar sabores, aprender passos, trocar olhares e celebrar juntos.
Uma festa feita de memória
A festa junina é a minha celebração preferida do calendário brasileiro. Desde criança, adoro essa mistura de música, comida, dança, bandeirinhas, fogueira, roupas caipiras e alegria coletiva. Há algo nessa festa que fala diretamente ao Brasil profundo: o Brasil da roça, das praças, das escolas decoradas, das mesas cheias, das famílias reunidas e das comunidades que se reconhecem na celebração.
Celebradas principalmente em junho, as festas juninas têm origem nas tradições europeias dedicadas a santos populares, como Santo Antônio, São João e São Pedro, e chegaram ao Brasil durante o período colonial. Mas, como quase tudo na cultura brasileira, foram transformadas pelo território, pelo clima, pelos povos e pelas muitas formas de viver o país.
No Brasil, a festa ganhou sotaque próprio. Misturou devoção religiosa, celebração da colheita, cultura rural, música, comida de milho, fogueira, bandeirinhas, brincadeiras, dança e humor. Tornou-se uma das maiores expressões da cultura popular brasileira, especialmente no Nordeste, onde “São João” não se refere apenas ao dia dedicado ao santo, mas à própria temporada junina. Mais do que uma data, é pertencimento, memória e identidade.
Cada região celebra à sua maneira. No Nordeste, estão algumas das maiores festas do país. No Norte, aparecem elementos da cultura amazônica. No Centro-Oeste, especialmente em Brasília, minha cidade, os arraiais refletem a diversidade de uma população formada por migrantes de todo o Brasil. No Sudeste e no Sul, festas comunitárias mantêm viva a tradição com características locais.
A comida é parte essencial dessa memória. Como junho coincide com a época da colheita do milho em muitas regiões, pratos como pamonha, curau, canjica, bolo de milho e milho cozido ocupam lugar de destaque. Também aparecem paçoca, pé de moleque, pipoca, cocada e maçã do amor. É uma culinária simples, afetiva e profundamente ligada à terra.
A quadrilha como convite
A quadrilha, um dos pontos altos da festa, carrega ecos das antigas danças de salão europeias, mas foi completamente abrasileirada. Nas ruas, escolas, praças e comunidades, virou encenação coletiva, brincadeira, teatro popular. Tem casamento caipira, tem marcador, tem “olha a cobra!”, tem “é mentira!”, tem par que se perde e se encontra. O mais importante não é dançar certo. É entrar junto.
Talvez por isso a quadrilha funcione tão bem em Beijing. Porque ela convida antes de explicar. Não exige tradução completa. Basta alguém puxar a fila, alguém rir do próprio erro e alguém aceitar dar a mão.
Nesta edição — a primeira da qual participei — fiz questão de entrar no espírito da festa: usei vestido florido, chapéu e fui a caráter para dançar quadrilha ao lado do meu par, meu amigo Renato Peneluppi, presidente do Conselho de Cidadãos Brasileiros de Beijing.
Para muitos chineses, participar de uma festa junina é descobrir um Brasil diferente: menos formal, mais brincante, profundamente musical e marcado por uma alegria que nasce do encontro. Para os brasileiros, é reconhecer que a própria cultura ganha nova força quando é vista pelos olhos de quem a encontra pela primeira vez.
Junho também é tempo de festa na China
Há ainda uma coincidência bonita no calendário. As festas juninas brasileiras acontecem no mesmo período em que a China celebra o Festival do Barco-Dragão, uma das datas tradicionais mais importantes do país.
As duas festas têm histórias, símbolos e origens muito diferentes. O Festival do Barco-Dragão, conhecido em chinês como Duanwu, está associado à memória do poeta Qu Yuan, às corridas de barcos-dragão e ao costume de comer zongzi, bolinhos de arroz glutinoso envoltos em folhas. É uma celebração marcada por memória, comunidade, proteção e vínculo com os rios.
A festa junina brasileira, por sua vez, nasce do encontro entre tradições religiosas, ciclos agrícolas e cultura popular. Tem milho, fogueira, dança, música e brincadeiras. Mas, apesar das diferenças, há um diálogo possível entre elas: ambas acontecem num tempo de passagem do ano, em forte relação com a natureza, com os alimentos, com a vida coletiva e com a transmissão de pertencimento entre gerações.
Quando a diplomacia cabe no corpo de uma criança
No Ano Cultural Brasil-China, encontros como a festa junina de Beijing ajudam a dar sentido concreto a uma expressão muitas vezes repetida nas relações internacionais: intercâmbio cultural.
Quando chineses dançam quadrilha com brasileiros, tentam acompanhar o ritmo do forró, perguntam sobre as comidas e entram nas brincadeiras, o Brasil deixa de ser apenas um país no mapa. Torna-se experiência.
Foi isso que eu vi no cansaço feliz do meu sobrinho do coração, Wang Chenyi — o Lucas, ou Luquinha. Filho de dois amigos queridos, Gabriel Martinez, brasileiro, e Wang Jiani, chinesa, ele é um menino sino-brasileiro de cinco anos e meio que se esbaldou nas brincadeiras típicas da festa. Correu, riu, jogou, descobriu, com o corpo inteiro, aquela alegria simples que atravessa gerações.
Ao olhar para ele, lembrei de mim mesma e dos meus filhos quando eram crianças. Naquele pequeno corpo cansado de tanto brincar, havia uma síntese bonita do que significam a amizade, o afeto e o encontro entre dois povos.
E quando brasileiros veem sua festa acolhida na China, também descobrem algo importante: uma tradição popular pode viajar sem perder sua raiz. Pode atravessar oceanos, mudar de cenário, encontrar novos olhares e continuar sendo reconhecível.
A diplomacia entre povos se constrói assim. Não substitui os acordos, as visitas oficiais nem os grandes projetos de cooperação. Mas dá a eles uma base sensível. Cria confiança, curiosidade, simpatia e memória afetiva.
No fim, a festa junina é isso: uma roda grande o suficiente para caber todo mundo
Em Beijing, ela mostrou que cultura popular também é linguagem diplomática — uma linguagem feita de afeto, presença e partilha. No Ano Cultural Brasil-China, a festa junina brasileira na capital chinesa lembrou que a amizade entre países também pode começar de maneira simples: com uma bandeirinha colorida, uma comida oferecida, uma dança compartilhada e muitas mãos dadas no meio da roda.
(*) Matéria publicada originalmente no site da CGTN em português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

