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Iara Vidal

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

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Festival do Barco-Dragão: homenagem a um autêntico “louco do sul”

Entre zongzi, barbantes e minha coordenação motora em estado de calamidade, fui descobrir como os chineses transformam comida em memória

Festival do Barco-dragão (Foto: Mídia chinesa)
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Nessa minha jornada pela China, além do empenho em aprender chinês — ainda estou naquele nível básico de quem sabe quase nada, matriculada na Beijing Foreign Studies University, a BFSU, que por aqui todo mundo chama de Běiwài (北外 ) —, volta e meia encontro pelo caminho cursos ligados ao Patrimônio Cultural Imaterial chinês. E, sempre que posso, me inscrevo.

Foi assim que participei, pela segunda vez, de uma atividade oferecida pela The Bridge, escola de mandarim voltada a estrangeiros. A primeira tinha sido sobre a Ópera de Pequim. Desta vez, sentei diante de folhas de bambu, arroz glutinoso e barbantes para aprender a fazer zongzi, o bolinho tradicional do Festival do Barco-Dragão.

À primeira vista, parecia uma aula de culinária. Mas logo percebi que era outra coisa: uma pequena iniciação na forma chinesa de transformar comida em memória, gesto em símbolo e tradição em encontro.

O zongzi exige paciência. A folha precisa ser dobrada do jeito certo, o arroz não pode escapar, o recheio precisa caber, e o barbante precisa firmar sem esmagar. Enquanto eu tentava entender a lógica daquela pequena arquitetura comestível, pensei que talvez fosse essa a beleza das tradições: elas entram primeiro pelas mãos, antes de chegarem à cabeça.

Ao meu lado, uma colega japonesa seguia as orientações do chef convidado com uma destreza que me deixou devidamente humilhada. Mesmo assim, lá fui eu: tentei, errei, tentei de novo, errei melhor, até conseguir montar uma trouxinha minimamente digna e me dar por satisfeita.

Como comentei com a professora Sylvie, que conduzia a atividade em inglês, minha coordenação motora fina está no mesmo lugar que a minha capacidade de ler mapas: perdida em algum limbo da minha mente.

No fim das contas, porém, experimentei o bolinho e achei delicioso. E, como sou uma CDF incurável, na primeira oportunidade fui pesquisar melhor o que, afinal, é o Festival do Barco-Dragão — e por que essa data é tão importante para o povo chinês a ponto de ter virado feriado nacional.

Uma festa que segue o ritmo da Lua

O Festival do Barco-Dragão, ou Duanwu Jie — 端午节 —, é celebrado no quinto dia do quinto mês do calendário lunar chinês. Na prática, isso significa que ele não tem uma data fixa no calendário ocidental: a cada ano, aparece em um dia diferente. Isso acontece porque o calendário tradicional chinês acompanha os ciclos da Lua. Em 2026, esse quinto dia do quinto mês lunar corresponde a 19 de junho.

A festa está ligada a várias tradições antigas, mas a história mais conhecida gira em torno de Qu Yuan, poeta e ministro do antigo Estado de Chu, durante o período dos Reinos Combatentes.

Estamos falando de um tempo muito antigo da história chinesa, entre 475 a.C. e 221 a.C., quando vários estados disputavam poder antes da primeira unificação imperial da China. Foi nesse mundo de guerras, alianças e traições que viveu Qu Yuan, provavelmente entre 340 a.C. e 278 a.C.

O poeta de Chu

Antes de virar símbolo nacional chinês, Qu Yuan foi um homem de Chu — esse sul antigo, de rios, névoas, xamãs, dragões e poesia, que os estados do norte olhavam como quem olha para gente meio doida, meio bárbara, meio perigosa. Acontece que eram esses “loucos do sul” que estavam inventando uma das línguas poéticas mais belas da China.

O Estado de Chu ocupava sobretudo a região do curso médio do rio Yangtzé, com centro nas áreas que hoje correspondem a Hubei e Hunan. A atual região de Wuhan, em Hubei, fazia parte desse universo cultural. Qu Yuan, segundo a tradição, teria nascido em Danyang, geralmente associada à região de Zigui, também em Hubei, e depois foi exilado para áreas mais ao sul.

Qu Yuan era daqueles personagens que parecem ter nascido para virar símbolo: intelectual, poeta, homem público e figura trágica. Foi afastado do poder, exilado e, segundo a tradição, ao ver sua terra ameaçada, lançou-se no rio Miluo, na atual província de Hunan, no sul da China.

Os moradores da região teriam saído em barcos para tentar resgatá-lo e jogado arroz na água para impedir que os peixes se aproximassem de seu corpo. Daí vêm duas das imagens mais fortes do festival: as corridas de barcos-dragão e o zongzi.

Barcos, dragões e arroz contra o esquecimento

O mais bonito é perceber como uma história de perda virou gesto coletivo. O rio Miluo, lugar da tragédia, se transformou também em lugar de memória. Os barcos, movidos por remadores que seguem o ritmo dos tambores, lembram uma comunidade inteira se colocando em movimento.

E o dragão, aqui, não tem nada a ver com o monstro das histórias ocidentais. Na cultura chinesa, ele é força vital, energia auspiciosa, água, chuva, prosperidade e poder coletivo.

Já o zongzi é muito mais do que comida de festa. Feito de arroz glutinoso, recheado de diferentes maneiras e embrulhado em folhas — geralmente de bambu, mas também de junco, lótus ou outras folhas largas e aromáticas, dependendo da região —, ele muda de sabor conforme a geografia.

No norte da China, costumam aparecer versões mais doces, com tâmaras, feijão ou castanhas; no sul, são comuns os recheios salgados, com carne, gema de ovo, cogumelos e outros ingredientes.

O meu era doce, com jujuba — em chinês, 红枣, hóngzǎo, a jujuba vermelha muito usada em doces, chás e recheios.

Para mim, essa frutinha veio com uma lembrança literária imediata: Lu Xun, no texto “Noite de Outono”, começa com uma imagem famosa, um micropoema: “No quintal, além do muro, havia duas árvores: uma era uma jujubeira; a outra também era uma jujubeira.”

É simples, estranho e bonito. Dessas frases que parecem não dizer nada e, justamente por isso, ficam ecoando. Então, além de aprender a dobrar folhas de bambu, eu ainda estava mastigando uma pequena lembrança da literatura chinesa.

No fundo, o zongzi concentra talvez a ideia mais bonita do festival: a de alimentar a memória. O arroz embrulhado na folha é oferenda, comida de família, técnica manual e herança cultural ao mesmo tempo. Fazer zongzi é aprender uma receita, claro. Mas é também entrar, ainda que de forma desajeitada, numa cadeia de gestos repetidos por gerações.

A tradição cabe nas mãos

Saí do curso com um zongzi nas mãos e a sensação de que, na China, a memória não vive apenas nos livros ou nos monumentos. Às vezes, ela cabe dentro de uma folha dobrada, amarrada com barbante, cozida lentamente e repartida à mesa.

E talvez seja por isso que eu goste tanto desses encontros. Porque, para quem chega de fora, tradição pode parecer primeiro uma coisa distante, antiga, quase solene demais. Mas, de repente, ela aparece diante de você em forma de arroz, folha e barbante.

Você erra a dobra, ri de si mesma, pede ajuda, prova o bolinho e entende que cultura também é isso: algo que se aprende com as mãos, antes de se explicar com palavras.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.