FHC e Moro, similares na farsa

"Moro é o FHC que não vingou. FHC é o Moro que deu certo", escreve Gilvadnro Filho, do Jornalistas pela Democracia; O tucano, diz o colunista, "sempre se furtou em unir forças que, juntas (perdoem a redundância), poderiam livrar o País do autoritarismo, do fascismo e do caos que hoje ameaça se consolidar"; "Moro tem uma história similar à de um meteoro que perdeu conteúdo e cai no mar"

(Foto: Dir.: ABR)

Por Gilvandro Filho, do Jornalistas pela Democracia

Em 1993, o então ministro da Fazenda do governo itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso almoçou em um restaurante bacaninha de São Paulo com um grupo de empresários e aos quais teria recomendado: “Esqueçam o que escrevi”. A frase registrada pela Folha de S.Paulo teria sido, na verdade, “Esqueçam o que escrevemos no passado, porque o mundo mudou e a realidade hoje é outra”. Ele jura que nunca falou nem uma nem outra. Mas a frase ficou como uma marca que nunca mais saiu da imagem do político tucano.

Com o passar do tempo e o decorrer da história, a frase grudou definitivamente em FHC porque é a cara dele. Poucos atores da nossa cena política têm um passado tão distante do presente quanto o ex-presidente. De símbolo da participação acadêmica e intelectual na resistência democrática que foi, no passado duro do Brasil da ditadura militar, ao político que mergulhou de cabeça na piscina confortável da direita e do liberalismo. Queda livre.

É FHC. Do senador combativo ao político escorregadio e vacilante que não perde, porém, a oportunidade de se agasalhar nas forças que um dia combateu. Isto, desde que o mote da prosa seja tirar de tempo as forças de esquerda, particularmente o PT e seu maior líder, Luiz Inácio Lula da Silva. Logo Lula, um cara cujas demonstrações de respeito político e apreço pessoal - inclusive em episódios dolorosos, como a partida de entes queridos - nunca foram sonegadas ao seu hoje velado inimigo. Ingratidão é um troço que dói. E no caso em tela, Lula sabe dessa dor.

FHC tornou-se um crítico pessoal de Lula, a despeito de tudo. Nos últimos tempos, mesmo sabendo muito bem para onde o Brasil caminhava, sempre se furtou em unir forças que, juntas (perdoem a redundância), poderiam livrar o País do autoritarismo, do fascismo e do caos que hoje ameaça se consolidar. Isto não foi privilégio dele. Outros, como o hoje pedetista Ciro Gomes também tornaram os ataques a Lula, independente do momento político e da razão, uma espécie de hobby.

A implicância histórica de Fernando Henrique Cardoso com Lula, e com o projeto do partido de Lula, já renderam páginas tristes da política nacional. De modo que não causou espécie a “análise” do ex-presidente tucano sobre a (segundo ele), impossibilidade de anulação da pena de Lula por causa das denúncias do Intercept Brasil contra o ex-juiz Sérgio Moro, o procurador da República Deltan Dallagnol e uma renca de autoridades judiciárias comprovadamente parciais que agiam em conluio para direcionar politicamente os rumos da Operação Lava Jato.

Disse FHC na manhã do dia 18, terça-feira passada, ao portal Jota: “Mas, se eu fosse juiz, ia julgar com os fatos. Mesmo que o Moro tenha se excedido, os fatos são vários. Não creio que o Supremo anule por causa disso”. O caráter deletério do pensamento efeagaceano, naturalmente, não pararia nisto. Apressando-se em pedir “prudência” ao STF quanto às denúncias contra Sérgio Moro, Fernando Henrique Cardoso expeliu: “Outra coisa é o fundamento para a prisão do Lula. O Lula, eu lamento, mas tem muitos processos e reiteradamente há fatos.”

O apelo de FHC à “prudência” não foi de graça. Na noite do mesmo dia 18, aniversário do ex-presidente, o Intercept Brasil brindou-lhe com uma nova bateria de denúncias contra Moro e procuradores. E quem estrelava a nova safra de malfeitos exposta pelo site de Glenn Greenwald? Ninguém menos que Fernando Henrique Cardoso, amigo de Moro e alguém a que o hoje ministro da Justiça procurou por tudo “não melindrar”.

Fernando Henrique lembra muito Sérgio Moro, não apenas pela ojeriza que os dois têm a Lula. A começar pela condição de super-herói (sujeito isento, probo, salvação da lavoura) que um dia já ostentou e que o outro começa a deixar de ostentar. FHC teve um reinado longevo, comandou a economia do País e chegou a presidente da República. Depois, perdeu-se no caminho da inconsistência política e da incoerência ideológica. 

Moro tem uma história similar à de um meteoro que perdeu conteúdo e cai no mar. Ganhou o ministério da Justiça por ter ajudado o seu protegido a se eleger presidente, no episódio que hoje alimenta as denúncias que balizam a sua perdição. Nos primeiros meses de uma gestão bisonha, foi atingido em pleno vôo justamente por essas denúncias que não consegue responder. Almejou o STF e até a presidência da República. Pelo visto, o sonho acabou.

Moro é o FHC que não vingou. FHC é o Moro que deu certo.

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