“Fidel jamais pensou que o Brasil deveria ser comunista”

Cuba's former president Fidel Castro attends the closing ceremony of the seventh Cuban Communist Party (PCC) congress in Havana, Cuba, in this handout received April 19, 2016. Omara Garcia/Courtesy of AIN/Handout via REUTERS
Cuba's former president Fidel Castro attends the closing ceremony of the seventh Cuban Communist Party (PCC) congress in Havana, Cuba, in this handout received April 19, 2016. Omara Garcia/Courtesy of AIN/Handout via REUTERS (Foto: Alex Solnik)

Por um daqueles acasos que acontecem na vida de qualquer jornalista, um amigo me apresentou, há 12 anos, uma amiga muito simpática como "a melhor amiga de Fidel no Brasil".

Filha de um industrial paulista, Alessandra Silvestri Lévy era casada – e continua sendo - com um diplomata francês que foi embaixador em Cuba na virada do século XXI.

Durante o período em Havana ela não apenas conheceu, mas criou laços estreitos com El Comandante, foi apresentada à família Castro e participou com ele de episódios fantásticos, como um jantar que começou às 9 da noite e terminou às 7 e meia da manhã seguinte.

Nessa entrevista que fiz com ela, em 2004, publicada na revista Sras&Srs, de Brasília, Alessandra relata conversas com seu amigo cubano a respeito de Lula, recém-eleito presidente da República.

Fidel se preocupava com sua governabilidade, já naquela época.

O primeiro encontro pessoal com El Comandante deu-se na residência oficial da embaixada francesa no réveillon do ano 2000:

"Eu falei: Jean, a gente veio de São Paulo, que tem 20 milhões de habitantes e Havana tem 2 milhões. Vamos fazer uma festa que os caras não vêm desde a revolução no reveillon! Demos uma festa com banda, som brasileiro, champagne pra todo mundo, a gente adora receber bem. A gente mandou 1000 convites, inclusive pro Fidel".

"Ele não respondeu ao nosso convite, então a gente não sabia se ele vinha. Quando dá umas sete da noite, eu tinha 22 hóspedes na minha casa – família italiana, família brasileira, e eu falei para todos ficarem descansando e descerem às nove para receber os convidados".

"Eu estou pronta e arrumada, dou a última olhada na casa e, quando eu vejo, na minha frente tem uma mordoma preta, Zenaide, que ficou branca, leite e me diz: 'Señora, el comandante está en la puerta y la puerta no se abre...'"

"Porque é um portão automático... abre o portão, passa o primeiro carro e o portão tem um esquema de segurança que fecha automaticamente. Então, entrou o primeiro carro da segurança e o portão se fechou em cima da Mercedes preta dele".

"Eu falei: 'No se preocupe... ele vai andar cinquenta metros a pé', do portão até a entrada da casa. Meu marido dormindo. Com máscara nos olhos. E eu: 'Acorda, ele chegou!' 'Me deixa dormir, eu não tenho sossego!' 'Ele chegou!' 'Quem? Deus?'"

"Eu fui voando pra porta. Quando eu desço a escada, Fidel já está na porta. Os empregados, pálidos! Nunca tinha acontecido isso".

"Porque, quando Fidel vem, chegam antes os seguranças, passam detectores de metal, examinam o cardápio, já houve mais de 750 atentados contra ele! É tudo supercuidado".

"Dessa vez, não teve nada disso. Estava ele lá, na porta, e me disse: "Es la primera vez que vengo a la casa del embajador y las puertas están cerradas para el comandante y el embajador está dormindo!" "Não, por favor, comandante, entre, uma taça de champagne, por favor". E foi a primeira visita pessoal que ele fez.

Quem impressão você teve dele? Descreve o Fidel...
Uma fortaleza! Ele é uma fortaleza.

Forte? Alto?
Ele é imponente. Fora que ele é de uma bondade intrínseca, de um conhecimento do ser humano que poucas pessoas têm. Ele é um... mais pra frente, num jantar, a gente viu que ele é capaz de ficar sentado numa mesa de jantar oito horas, sem levantar, e abranger cada tema da conversa... ele desce aos detalhes, conhece números. Quando está falando de um assunto e não tem certeza de um número, ele chama o assessor dele, o Carlito, manda o Carlito buscar na internet, e o Carlito traz. Ele é apaixonado pela história de Napoleão. Ele estudou todas as guerras de Napoleão, porque quando ele estava nas Lomas, nas montanhas, era uma guerra civil, ele tinha que conquistar território devagarzinho...

O que ele perguntava sobre o Brasil?
O Fidel é chefe de estado desde os 33 anos...ele nasceu dia 13 de agosto de 1926...78 anos... e ele é uma fortaleza... todavia es muy capaz! Ele dorme de três a quatro horas por noite. Ele trabalha, é minucioso, é detalhista. Quando teve um furacão grande, no mês de agosto... todo ano tem furacão... mas esse ia passar em Havana. Meu marido falou: 'Fidel deve estar num bunker'! Eu disse: 'Por favor, um homem como Fidel não vai estar num bunker!' Ele não só não estava num bunker como foi atrás do olho do furacão! Ele pegou o carrinho dele e foi visitar todas as áreas que estavam recebendo o furacão de 200 quilômetros por hora! Árvore voando...

Você esteve no palácio dele?
No Palácio da Revolução? Várias vezes!

O Fidel mora lá?
Não, o Fidel...

Onde ele mora?
Ele tem várias casas, ele não tem um lugar fixo, porque ele trabalha muito. Então, um dia ele pode estar recebendo para jantar no Palácio da Revolução....no outro dia, ele recebe num ministério... o primeiro jantar que eu tive com ele começou às 9 da noite e terminou às 7 e meia da manhã...no Palácio da Revolução. Foi quando veio o jornalista Michel Poncelet e os senadores franceses, ele convidou para um jantar...

Vocês fizeram o que a noite toda? Ficaram comendo? Conversando?
A gente estava no queijo, eram seis e meia...

O que teve de comida?

Comida criolla cubana. Ele é amante de vinhos bons, conhece vinhos franceses, italianos, australianos, chilenos, americanos... tem uma coleção de vinhos americanos...A conversa girou em torno de Napoleão, porque ele é um grande conhecedor. Ele descreveu as batalhas de Napoleão em cada detalhe... dia tal, ele entrou em tal lugar... E ninguém levantava. Ninguém ousa levantar. Imagina, você está lá, sentado com a história viva diante de você. O nível de fascinação que essas pessoas têm por Fidel é uma coisa impressionante. Ele está no poder há 45 anos, ele viu passar 12 presidentes norte-americanos!

Alguma vez o Fidel falou sobre o que vai ser depois dele, quem vai ser o sucessor dele? É o irmão mesmo? E a família dele? Quem é a família de Fidel? Ele tem família... mulher... filhos?
Não, isso não se comenta, porque a revolução...

Ele tem várias mulheres? Uma só? Vários filhos? Netos? Tem aquela filha dele que não gosta dele...
Na verdade, é a filha de um caso que ele teve... a primeira mulher dele foi da época em que ele era estudante de Direito e foi preso, e ele tem um filho com ela chamado Fidelito, que é um super-cientista na área de tecnologia nuclear. Ele é o único que aparece.

Mas o Fidel tinha família, mulher, filho ou...?
O chefe de estado não tem que ter filho. Você não pode ter filho. Você tem o privilégio de ter o sangue, de ter o DNA dele. Não tem que ter o privilégio de ter acesso a ele. Ele é ocupado 24 horas por dia. Então, quem cuida da família é o Raul, que é o irmão dele, que faz os almoços de domingo, que faz as festas de aniversário dos filhos...

Ele tem quantos filhos? Você ficou sabendo?
A gente conta cinco... homens e uma mulher. Netos, a gente não sabe. Eu conheci muito a família do irmão dele, o Raul, que tem duas filhas e é uma família... ele casou com uma mulher que era filha da alta burguesia cubana... então, ele tem duas filhas que podem ser como quaisquer meninas bem educadas da melhor família de São Paulo. Extremamente bem educadas, muito finas e que vivem dentro de um sistema comunista que, na verdade... a revolução cubana nunca teve um caráter comunista. O caráter sempre foi humanista. Eles usaram o comunismo, o socialismo para conseguir desenhar parâmetros para chegar num sistema humanista. Eu nunca conheci um povo tão solidário quanto o povo cubano. A solidariedade cubana não existe. Eu jamais questionei a família dele. Aquela filha dele que emigrou pros EUA e está na Espanha escreveu um livro que é sórdido! Você não pode pedir que o seu pai venha no dia do seu aniversário porque ele é um chefe de estado que se ocupa com 11 milhões. Você já deve se dar por satisfeita em ter o DNA dele! Mas não pode exigir a presença dele porque ele tem que se ocupar de 11 milhões de pessoas.

O que ele falava do Lula?
Ele achava que o Lula – na última vez que eu conversei com ele – que o Lula podia ser um grande líder internacionalista- humanista se ele conseguir gerenciar bem o que ele tem que fazer nesse país. Porque o Brasil tem 44 milhões de analfabetos funcionais...

Ele conhece bem o Brasil?
Nos mínimos detalhes... E eu mandava muita informação pra ele também...

Você ficou amiga dele?
Sim...

Ele sabe quem é Alessandra? Se você ligar, ele vai atender?
Mando e-mail, ele responde...

Você manda e-mail pra ele ainda hoje?
Não mando pra ele, mando pro Carlito, que é o assessor dele...

Fidel tem celular?
Ele tem celular, mas a gente não usa celular, porque o celular é grampeado pelos americanos...

Ah, é? Lá em Cuba? A CIA escuta as conversas?
Todos os celulares em Cuba são grampeados pelos americanos...

Você tinha o celular dele?
Ele não tem celular; ele tem um assistente que deve ter cinco celulares...Ele não atende celular...

Mas o que ele queria saber do Brasil?
Ele queria saber como é que o Lula ia conseguir levar a cabo os projetos que ele tem num país em que é difícil conseguir maioria no Senado e na Câmara...a preocupação dele era essa... ele ganhou, mas como é que ele vai conseguir gerenciar esse poder? A preocupação dele é que a gente consiga diminuir as diferenças que existem no país. Ele jamais pensou que o Brasil deveria ter sistema comunista.

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