Filmes para o nosso tempo ou vale a pena ver de novo

Resistir ao bolsonarismo e à toda forma de fascismo é sobretudo recusar a desumanizaçâo do outro, recusar que injustiças sociais se cristalizem em hierarquias ‘naturais’ e que a pobreza seja considerada ‘normal’ e não o resultado de um sistema construído para excluir muitos e beneficiar alguns

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No Brasil de Bolsonaro há uma permanente tentativa de deshumanização da sociedade. Os ataques explícitos à cultura, à educação e à ciência, entre outros, servem a este objetivo: criar indivíduos desvinculados de qualquer relação com a Terra, com outros seres vivos e com a própria comunidade humana. Estes seres desenraizados e deshumanizados são a base de apoio do bolsonarismo. Não há nada de novo neste fenômeno: a deshumanização – de si mesmo e do outro – é ao mesmo tempo condição necessária de sua origem e parte do programa do fascismo italiano e do nazismo alemão; e muito antes,  está na base da exploração colonial européia, da escravidão, do racismo e da ‘supremacia branca’, todos elementos profundamente interligados à origem e desenvolvimento do sistema capitalista. Não por acaso: a deshumanização é intrínseca ao sistema capitalista posto que este se baseia na exploração do trabalho humano e do planeta. Daí os virulentos ataques do bolsonarismo aos direitos dos trabalhadores e ao meio ambiente, sua regressão ao patriarcalismo mais obtuso, tudo em defesa do capitalismo mais selvagem e irresponsável, o que hoje chamamos de neoliberalismo. A intrínseca tendência do capitalismo à deshumanizar e desenraízar o ser sempre sofreu resistência por parte da comunidade humana. E uma parte fundamental desta resistência manifestou-se pela cultura e pela arte. Quantas das chamadas grandes obras da literatura mundial são uma denúncia veemente da exploraçâo do ser humano e do capitalismo? Quanto esforço foi colocado em tantas obras de arte para lembrar-nos de nossa própria humanidade, sempre ameaçada pelo esquecimento e pelo abandono? No cinema também há vários filmes que expressam esta mesma resistência. E já no seu início, quem melhor que Chaplin encarnou a resistência do humano face à máquina, à injustiça e à exploração?  Pois nenhuma barreira à exploração promovida pelo capitalismo, pelo fascismo e pelo bolsonarismo é mais eficaz do que lembrarmo-nos, sempre, de nossa própria humanidade. Nossa maior resistência e nossa esperança são uma só: o ser humano. 

Tudo que é humano nunca foi tão ameaçado no Brasil quanto agora. A resistência é fundamental. E como afirmei que uma parte importante desta resistência é cultural, gostaria de propor aqui criarmos coletivamente uma ‘mediateca’, uma lista de filmes que, de alguma maneira, ‘ falem’ sobre o nosso tempo, nos ajudem a compreendê-lo. Filmes que também resgatem nossa humanidade face à deshumanização promovida pelo fascismo. Escolhi 5 filmes para abrir esta lista. Espero que quem gostar da proposta sugira outros filmes , com a respectiva sinopse como faço abaixo, indicando como o filme escolhido se refere ao nosso tempo. Podemos assim construir uma lista de filmes que todos deveriam assistir, filmes a serem vistos e debatidos, espalhados por escolas, colégios e universidades, ampliando assim um pouco nossa compreensão e nossa rersistência.

1- Umberto D – de Vittorio de Sica ( 1952) 

A pandemia do COVID 19 expôs com uma claridade sem precedentes a trágica situação dos idosos numa sociedade capitalista. Passada a idade ‘produtiva’, o ser humano perde o seu valor. Enquanto em todas as cultutas antigas a idade era respeitada e reverenciada e os idosos tratados como detentores da história vivida e da sabedoria acumulada de uma determinada comunidade, no capitalismo o idoso é principalmente fonte de gastos inúteis para o estado, a aposentadoria. Esta situação não é única no Brasil, trata-se de um fenômeno comtemporâneo espalhado por muitos países, mas que em períodos de crise econômica como a que vivemos agora , é ainda mais exacerbado. Talvez o filme que melhor retrate a triste situaçâo de um idoso largado a si mesmo numa sociedade em crise econômica seja ‘Umberto D.’ de Vittorio de Sica. Umberto é um funcionário público aposentado que vive sozinho com o seu cachorro num quarto de pensão. É um amante de livros – para realçar talvez o simbolismo do idoso como portador de conhecimento para as novas gerações. De fato, uma de suas poucas relações é com uma jovem pobre com quem se encontra e conversa ocasionalmente. As dificuldades financeiras de Umberto D. vão se acumulando enquanto ele tenta manter sua dignidade. Passa a vender seus poucos livros para ganhar um pouco mais. Porém não consegue mais nem pagar o aluguel do pequeno quarto em que vive e face à uma ameaça de despejo chega à pensar no suicídio. Umberto D. É um retrato profundo e contundente da situação do idoso em nossa sociedade. 

2- 12 Homens e uma sentença (12 Angry Men) – Sidney Lumet (1957)

O primeiro filme de Sidney Lumet é uma obra-prima e um filme fundamental sobre o nosso tempo. Um grupo de jurados saídos de uma classe média tão bolsonarista quanto a brasileira – completamente satisfeita consigo mesma, certa de suas ‘ virtudes’ e de sua superioridade – se reúne para dar o veredito sobre a culpa ou não um jovem porto-riquenho acusado de assassinato. O racismo implícito destes representantes da classe média é muito bem mostrado pelo filme, pois de saída todos – exceto um – dos jurados está convencido da culpa do rapaz. Porém um dos jurados – no filme este papel é de Henry Fonda – acredita que não há provas suficientes e começa a questionar uma por uma as pressuposições e as ‘certezas’ dos outros jurados. O debate entre a personagem de Henry Fonda e os outros jurados é uma verdadeira aula sobre como confrontar o pensamento quase-fascista dos representantes da classe média dos EUA retrados no filme, tão semelhantes à classe média bolsonarista brasileira. No filme trata-se sobretudo de salvar a vida de um jovem porto-riquenho que pode ser condenado à morte se o veredicto for culpado. E a facilidade com que os outros jurados estavam prontos a condenar o jovem reflete muito bem a mesma facilidade com que grande parte da classe média brasileira assiste ao massacre dos jovens pobres e negros no Brasil. O conflito é o mesmo.

3- Garota Negra  (La Noire de...) – Ousmane Sembène (1966)

Mais um filme tendo como pano de fundo o racismo. Uma jovem negra é levada do Senegal – antes parte do império colonial francês – como empregada doméstica para a França, com a promessa de, na metrópole, ter um futuro melhor. Porém a realidade do racismo e da exploração pelo seus novos patrões acabam com suas ilusões e também com a sua vida. Ousmane Sembène, falecido em 2007, é um dos  principais cineastas africanos e muitos de seus filmes deveriam ser mais vistos no Brasil de hoje. O filme retrata muito bem a realidade da colonização e de sua exploração, a desumanização intrínseca do colonizado. Como o Brasil também foi um país colonizado que conheceu por longo tempo a escravidão, é um filme que também fala sobre a realidade do racismo e da permanente desumanização e exploração dos negros no Brasil. A história da pobre Diouana – a personagem do filme – é também a história de muitas jovens negras e pobres no Brasil. 

4- O Homem Elefante (The Elephant Man) – David Lynch (1980)

Lembro muito bem do impacto que foi assistir, adolescente, este filme num cinema da Praia do Flamengo no Rio, hoje transformado em mais uma igreja evangélica. Não era o filme que eu esperava, era outra coisa. Lembro de alguns risos na platéia quando o Homem Elefante aparece pela primeira vez  – acho que muita gente esperava ver um filme de terror – e lembro sobretudo do silêncio avassalador da platéia no final do filme. E do fato de as pessoas permanecerem sentadas por muito tempo depois que se acenderam as luzes, sem se mexer. No cinema só vi isso acontecer uma outra vez , em ‘Dancer in the Dark’ de Lars von Trier. No momento em que, como escrevi acima, há um ataque permanente ao que é ser humano no Brasil, ‘O Homem Elefante’ é um filme que resgata nossa humanidade. John Merrick, a personagem do filme, nascido com tantas deformidades que lhe dão o apelido de ‘homem elefante’, é primeiro explorado por um circo como uma ‘ curiosidade’ , exposto aos risos e insultos de homens e mulheres completamente desumanizados. Resgatado por um médico, passa a ser explorado de novo, desta vez de um modo mais sutil, pela aristocracia que o vê como uma criatura exótica da moda. Mas o homem elefante se impõe a todos por sua humanidade. Há alguma cenas que permanacem por muito tempo em nossa memória, como quando John Merrick é perseguido por uma turba enfurecida – incitados, diria-se hoje,  pelo ‘ gabinete do ódio’ – numa estaçâo de trem, se refugia num banheiro e , cercado e atacado pela multidão que retira o capuz que cobre seu rosto deformado, grita : ‘ Eu sou um ser humano!’

Ao final do filme o deformado John Merrick é indubitalvelmente o ser mais ‘belo’ do filme, o mais humano, aquele com o qual o melhor de nós mesmos mais de identifica. Poucos filmes nos lembram com tanta intensidade o que é ser humano e o que é a humanidade.

5- Distrito 9 (District 9) – Neil Blomkamp ( 2009)

Um grupo de extraterrestres é preso na terra e são obrigados a viver numa espécie de gueto. A metáfora do filme é bastante clara: os ‘alienígenas’ que vivem numa favela e tem a forma de insetos (!!) são, claro, os pobres e deserdados de uma sociedade ‘bolsonarizada’ que só os vê como uma ameaça e sobretudo como ‘diferentes’ – de uma outra ‘espécie’ – de si mesmos. A história do filme foi inspirada por fatos reais acontecidos no ‘District 6’ da Cidade do Cabo, África do Sul, no período do ‘apartheid’. Um burocrata branco sul-africano tem a incumbência de remover os alienigenas para um campo de concentração fora da cidade. Ocorre um acidente e este burocrata começa a se transformar num dos alienígenas, num ‘ inseto’ – como se fosse uma versão da “Metamorfose” de Kafka em ficção científica. Os alienigenas com a forma de inseto causam, no início, uma certa repulsa, porém, ao longo do filme – e daí a sua importância – são estes ‘insetos’ que encarnam de fato a humanidade , não as criaturas bolsonarizadas ao seu redor deles. No final do filme o burocrata é completamente transformado num ‘ inseto’ – porém é com ele e com sua espécie que nós nos identificamos mais. É interessante que o filme de enorme sucesso de James Cameron ‘Avatar’ seja do mesmo ano – 2009. Nestes dois filmes há no final uma negação completa da condição de ‘homem branco’ – em ‘Distrito 9’ por ‘acidente’ – a personagem – um homem branco - se transforma num ‘ inseto’ alienígena; en ‘Avatar’ para que a personagem – outro homem branco -, ferido, possa sobreviver abandonando seu corpo humano e se transformando de vez em seu avatar. Mas nos dois casos há uma condenação completa da condição ‘ homem branco’ , uma recusa profunda de continuar a ser um ‘ homem branco ‘ – e nos dois filmes justamente porque não é mais no ‘homem branco’ bolsonarizado que se encontra a humanidade, mas em outro ser, distinto, até mesmo em uma outra ‘ espécie’ . ‘Distrito 9’ mostra com clareza o quanto o bolsonarismo – e toda forma de fascismo – deve ao mito da ‘ supremacia branca’, e como esta ‘demoniza’ o outro, roubando dele a sua humanidade. Mas não há ato mais desumano do que o de negar ao outro a sua humanidade. Resistir ao bolsonarismo e à toda forma de fascismo é sobretudo recusar a desumanizaçâo do OUTRO, recusar que injustiças sociais se cristalizem em hierarquias ‘naturais’ e que a pobreza seja considerada ‘normal’ e não o resultado de um sistema construído para excluir muitos e beneficiar alguns.

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