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Sergio Ferrari

Jornalista latino-americano radicado na Suíça. Autor e coautor de vários livros, entre eles: Semeando utopia; A aventura internacionalista; Nem loucos, nem mortos; esquecimentos e memórias dos ex-presos políticos de Coronda, Argentina; Leonardo Boff, advogado dos pobres etc.

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Filmes universais: Câmeras que projetam crises e utopias

Como exemplo condensado de uma sociedade europeia em busca, o cinema do continente projeta crises e utopias vindas de baixo, com cada vez mais realismo

Centro cultural Landhaus, em Soleura, Suíça, onde se realiza o Festival de Cinema da cidade do mesmo nome (Foto: Sergio Ferrari)

Acaba de terminar a 61ª edição das Jornadas de Cinema de Soleura (Journées de Soleure, em francês; ou de Solothurn, em alemão), onde, em grande parte, o raio-X do continente mostrou a imagem da oferta cinematográfica.

Soleura é o mais suíço de todos os festivais organizados nesse país. Dá ênfase ao cinema suíço, embora muito marcado pela forte marca do regional. Isso não é coincidência: apenas 140 quilômetros separam Soleura de Freiburg, Alemanha; apenas 150 de Besançon, França; e 200 da fronteira com a Áustria. Com menos de 20 mil habitantes, às margens do rio Aare e aos pés da Cadeia do Jura, a cidade recebe milhares de espectadores que enchem as suas sete salas durante o Festival. Este ano – de 21 a 28 de janeiro – o Festival contabilizou mais de 65 mil ingressos, repetindo sua conhecida efervescência cinematográfica com a marca de hoje e daqui.

Palestina, longe e próxima à Europa

O documentário Quien todavia vive (Qui vit encore, seu título original em francês) do cineasta genebrino Nicolas Wadimoff, uma coprodução suíço-francesa, venceu o Grand Prix de Soleura. Dá voz a nove refugiados palestinos que relatam suas vidas, a perda de entes queridos e a tentativa de reconstruir suas vidas após o trauma de uma agressão não resolvida. "Ao compartilhar suas histórias, os protagonistas buscam se reconectar consigo mesmos, deixar de ser fantasmas", enfatizou o júri ao lhe conceder o prêmio principal, acrescentando que é uma obra que alcança um grande feito ao criar um contexto muito distante do campo de batalha em Gaza, sem cenas diretas de agressão para melhor transmitir o drama da destruição física e das perdas humanas (https://www.youtube.com/watch?v=DU0yYhJR3wgs).

No mesmo lugar por onde se movem, os protagonistas desenharam um mapa estilizado de Gaza: o desenharam juntos, de memória, com giz branco. Por outro lado, no centro desse cenário onde o filme se passa na íntegra, sobre uma mesa negra, reconstroem com marcadores brancos e traços improvisados onde se localizavam suas casas, seus jardins, suas hortas e pomares. Agora tudo está destruído. O local das filmagens é pouco iluminado, tudo ao redor está no escuro: um espaço apropriado para o reencontro de pessoas que, por muito pouco, escaparam da morte. Os testemunhos são de partir o coração e se sucedem como um caminhar vagaroso. "Quanto sofrimento uma vida pode suportar? Eu não sei...", alguém exclama. "Quem substituirá os dias e as memórias? Quem vai trazê-los de volta?" acrescenta outro. "Em uma guerra, se vive sempre tendo a morte como pano de fundo. É preciso apenas sobreviver", reflete outro dos protagonistas. "Um dia todos nós nos reencontraremos em Gaza. Vamos cantar e dançar juntos. Esse dia chegará, Inshallah", acrescenta uma das mulheres refugiadas.

Originalmente, esse filme seria filmado na Suíça, mas, em meados de 2024, Wadimoff foi forçado a mudar seus planos quando as autoridades não concederam vistos aos exilados de Gaza. Em vez da Suíça, as filmagens ocorreram na África do Sul. Como declara à imprensa suíça, o objetivo de seu filme é "trazer uma modesta pedra ao edifício do nunca mais".A realidade palestina ocupou um lugar central na agenda diária europeia nos últimos 27 meses, com uma mobilização quase permanente de solidariedade de amplos setores da sociedade civil. Não é surpreendente, então, que um filme com esse tema tenha ganhado o prêmio em Soleura. Por meio dessa solidariedade com a Palestina, a maioria dos atores culturais europeus expressou seu compromisso ativo. Isso é o oposto dos inúmeros governos que, com honrosas exceções, responderam com frouxidão ou frieza à agressão contra Gaza, ou que continuaram a apoiar Israel incondicionalmente.

A saúde doente

Turno de Guardia, de Petra Volpe, uma ficção suíço-alemã selecionada pela Suíça como pré-candidata ao Oscar de 2026, percorreu o festival de Soleura em meio a muitos aplausos. Repetiu seu sucesso recente no Festival de Cinema de Berlim (https://www.youtube.com/watch?v=v2A4zX4yMSE).

Com uma intensidade quase sufocante, esse filme apresenta 24 horas da vida de uma enfermeira de oncologia em um hospital suíço. O trabalho é intenso, para não dizer devastador. A equipe, reduzida nesse turno a duas profissionais experientes e um jovem estagiário, revela uma realidade totalmente verdadeira da profunda crise do setor de cuidados paramédicos não apenas nesse país alpino, mas também na Europa e no resto do mundo.

De acordo com projeções oficiais, até 2040 haverá uma escassez de quase 40.000 enfermeiras/os na Suíça. Vários hospitais pelo país já estão lutando para preencher muitas vagas. A escassez de pessoal qualificado se traduz em tempos de espera mais longos, menor disponibilidade para cada paciente e, consequentemente, uma queda significativa na qualidade do atendimento. A escassez é global, como previsto pela Organização Mundial da Saúde (OMS): até 2030, o déficit mundial será de 4 milhões e meio de enfermeiras/os.

Em novembro passado, milhares de profissionais de saúde expressaram seu descontentamento na Praça Federal suíça, em frente à sede do governo, na cidade de Berna. Apenas quatro anos após o esmagador voto "Sim" (61% dos votos) a favor de uma iniciativa popular para sustentar a enfermagem, as melhorias prometidas ainda não se concretizaram. Embora uma campanha de capacitação tenha sido lançada, a revalorização real da profissão permanece estagnada no Parlamento e corre o risco de perder totalmente sua importância. A paciência dos profissionais de saúde, que por anos multiplicaram seus protestos, até mesmo nas ruas, parece ter atingido seu limite. Turno de Guardia, uma soma de imagens chocantes por noventa minutos com a força de um documentário, mas com um roteiro de ficção, contribui para a denúncia de um sistema de saúde perturbado em grande parte do mundo. Imagens que, como em muitas outras situações, dizem mais de mil palavras.

Trabalhadora, empobrecida, endividada

Nathalie, um documentário suíço da cineasta Tamara Milošević, surpreendeu com sua representação de uma realidade frequentemente tratada como tabu, mas que está ganhando cada vez mais importância na Europa e também além de suas fronteiras. Em apenas setenta e oito minutos, ele esboça a vida de Nathalie, uma trabalhadora demitida por sua empresa. Forçada a realizar tarefas tão diversas quanto limpeza e jardinagem, entre outras; mãe separada e responsável por dois filhos adolescentes; uma mulher que luta dia e noite pela sobrevivência de sua família. Com o fator agravante de que tanto ela quanto seus filhos acumularam dívidas incríveis devido à escassez de recursos: mais de 200 mil francos (cerca de 250 mil dólares). A protagonista se vê em um labirinto sem saída de jornadas de trabalho intermináveis e obrigações não pagas, com altas taxas de juros que continuam a se acumular. Como Nathalie não pode pagar o plano de saúde, ela também não pode fazer cirurgia para uma fratura em uma das mãos. A única alternativa que resta para ele é um tratamento ambulatorial incompleto, mais barato, para continuar trabalhando. Com o que ganha hoje, teria que trabalhar mais vinte anos para quitar sua dívida, tomando cuidado para não acumular outras, pagando um custo mensal superior a um quarto de seu salário (https://arttv.ch/film/nathalie/).

De acordo com uma pesquisa sobre renda e condições de vida realizada pelo Escritório Federal de Estatística da Suíça, em 2022, quatro em cada dez pessoas tinham algum tipo de dívida, como atraso no pagamento de hipotecas, aluguel ou pequenos empréstimos. Essa é a mesma porcentagem de alguns outros países europeus, como Itália e Espanha.

Por outro lado, e também na Suíça, quase meio milhão de pessoas de uma população de 9 milhões estão superendividadas, e esse número aumenta cada vez mais. O excesso de endividamento afeta especialmente pessoas solteiras, famílias monoparentais e pessoas entre 30 e 50 anos, embora com uma proporção significativa de jovens entre 18 e 24 anos.

Em um artigo recente, o diário 24 Heures, de Lausanne, afirma que a taxa mensal do seguro de saúde desempenha um papel cada vez mais importante no endividamento dos residentes suíços, e a Debt Advice Switzerland relata que, em 2024, o valor que a população deve a essas empresas atualmente representa 15% de sua dívida total. Esse tipo de endividamento praticamente dobrou desde 2015. A outra grande dívida é de tipo fiscal (pagamento de impostos) significativamente maior, representando uns 27%.

A utopia possível

Barbara Buser é uma arquiteta de Basileia, muito reconhecida não apenas profissionalmente, mas também por seu ativismo social, seu compromisso feminista e sua sensibilidade aos problemas do Sul Global. Apesar de sua confortável situação econômica, parte do tempo é dedicada a pilotar uma pequena barcaça que transporta pessoas, principalmente turistas, de uma margem ao outra do rio Reno, em sua cidade. A cineasta suíça Gabriele Schäerer, com ampla experiência em produção documental – especialmente defendendo o papel das mulheres, sem discursos banais, sempre com imagens contundentes – a retrata em seu novo filme Barbara Buser, uma pioneira da sustentabilidade, cuja estreia mundial ocorreu em Soleura (https://www.youtube.com/watch?v=5VfsiR3-_Mg).

Um testemunho visual sobre a militância dessa arquiteta, que salva edifícios da demolição para transformá-los com materiais reciclados. Por exemplo, armazéns industriais em ruínas em espaços urbanos que agora cumprem uma função sociocultural, tudo com uma abordagem de respeito ao ambiente e às pessoas. Pioneira da sustentabilidade, sua visão para o futuro é notável, inspirando projetos para transformar edifícios em espaços públicos, residências e praças em sua própria cidade, assim como em Winterthur e Zurique.

Esse documentário compacto da cineasta Schäerer representou no Festival de Soleura um conjunto de produções artísticas que projetam em uma tela a necessidade e possibilidade de mudanças pequenas, médias e grandes. Em resumo, fornecem oxigênio existencial e pistas para a transformação para enfrentar o desespero gerado pela realidade mundial atual. Criatividade visual que empurra o espectador-cidadão para o caminho nada simples de outra sociedade possível. É uma categoria de produções documentais que apostam na utopia. E isso também incentiva setores importantes da sociedade europeia e global a lutar por um planeta sem crises desnecessárias, como a crise climática.

Nesse mesmo tema, Demasiado Caliente (Trop chaud, em francês) também teve impacto nos críticos em Soleura. Dirigido por Benjamin Weiss e Daniel Hitzig, esse documentário narra a grande vitória jurídica das Mulheres Suíças Idosas perante o Tribunal Europeu de Direitos Humanos em Estrasburgo, França. Foi nessa cidade, sede do Parlamento Europeu, que uma associação de mulheres processou o Estado suíço por não cumprir seu compromisso de reduzir o aquecimento global. Apesar de todos os esforços do governo suíço para desacreditar o processo, essas mulheres unidas e organizadas travaram uma batalha exemplar e acabaram vencendo. O que elas conquistaram tem o potencial de inspirar muitos outros esforços semelhantes em diferentes partes do mundo.

Tradução: Rose Lima

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.