Fim da escala 6x1 é avanço civilizatório
Trabalho digno também significa ter tempo para viver.
Sempre que um novo direito do trabalhador entra em debate no Brasil, o mesmo roteiro se repete. Surgem vozes apressadas para espalhar medo. Dizem que a economia vai quebrar, que empregos vão desaparecer, que o país não suporta mudanças.
E não é a primeira vez que isso acontece. Quando surgiram direitos como o salário mínimo, o 13º salário, as férias e a ampliação dos direitos das trabalhadoras domésticas, também disseram que não daria certo, que iria prejudicar a economia.
É um discurso antigo, que aparece sempre que a sociedade tenta avançar.
Mas o que vemos hoje é a própria sociedade rejeitando esse discurso do medo. Pesquisa Datafolha divulgada em março mostra que a maioria dos brasileiros apoia a redução do número de dias de trabalho na semana. Ou seja, não se trata de uma ideia isolada, mas de uma demanda real da população por mais equilíbrio entre trabalho e vida.
Agora tentam repetir a mesma estratégia diante da discussão sobre o fim da escala 6x1. Alguns setores buscam assustar trabalhadores e trabalhadoras com a ideia de um suposto desemprego em massa. Esse terrorismo econômico já foi usado muitas vezes, sempre com o objetivo de impedir avanços sociais e a conquista de direitos pela classe trabalhadora. Ampliar direitos nunca foi o problema. Sempre foi parte da solução.
O Brasil sempre avançou quando escolheu ampliar direitos. E vai avançar de novo. A escala 6x1 vai acabar ainda este ano, com a garantia de pelo menos dois dias de descanso para trabalhadoras e trabalhadores e a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salário. No Congresso, esse debate já avançou, com a CCJ reconhecendo a admissibilidade das propostas e a instalação da comissão especial, além do projeto do governo do presidente Lula para dar fim a essa escala. Agora, a mobilização é fundamental para garantir a celeridade dessa conquista.
Reduzir jornadas exaustivas de trabalho é parte natural do progresso das sociedades, especialmente em um ambiente de super conexão, que alimenta a desinformação e acelera o desgaste mental, além de longas jornadas. A última grande mudança na jornada brasileira ocorreu em 1988, com a Constituição. Quase quatro décadas depois, o mundo inteiro debate novas formas de organização do trabalho, mais equilíbrio entre vida pessoal e profissional e mais qualidade de vida para quem trabalha.
Estimativas apontam que mais de 20 milhões de brasileiros e brasileiras ainda vivem presos a uma rotina que esgota o corpo e a mente: trabalhar seis dias seguidos para descansar apenas um – uma escala que reduz o tempo de convivência familiar, limita o acesso à educação e ao lazer e contribui para o adoecimento físico e mental. Em pleno 2026, esse modelo já não se justifica.
A escala 6x1 pesa ainda mais sobre as mulheres. Depois de um dia inteiro de trabalho, muitas ainda enfrentam a chamada segunda jornada: cuidar da casa, dos filhos e da família. É uma sobrecarga que aprofunda desigualdades e limita oportunidades. Defender a redução da jornada também é defender justiça para as mulheres trabalhadoras, garantindo mais tempo para viver, estudar, cuidar de si e de quem amam.
Essa discussão também envolve o futuro das nossas crianças. Proteger crianças e adolescentes significa, também, cuidar das condições de trabalho dos adultos responsáveis por elas. Jornadas exaustivas reduzem o tempo de convivência familiar, dificultam o acompanhamento escolar e enfraquecem vínculos afetivos essenciais para o desenvolvimento emocional e social.
Crianças precisam de presença, cuidado e atenção. E isso só é possível quando mães, pais e cuidadores têm condições dignas de trabalho.
Por isso, o fim da escala 6x1 deve ser entendido pelo que realmente é: um passo civilizatório. Uma medida que valoriza quem move o país todos os dias, fortalece as famílias e contribui para uma sociedade mais equilibrada e saudável.
Porque trabalho digno também significa ter tempo para viver.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
