Fim da história é isso: nossas crianças limpam cocô em prisão nos EUA

"A descoberta de que filhos e filhas de imigrantes clandestinos fazem trabalho forçado em centros de detenção nos EUA recorda memórias de personagens do século XX que passaram parte da infância em campos de concentração", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. PML escreve que "o sufoco que leva tantas famílias a procurar refugio nos Estados Unidos é a outra face de uma diplomacia que procura garantir um domínio colonial sobre povos e países, impedindo seu desenvolvimento e soberania, como acontece no Brasil de Temer & Cia, que entregaram o pré-sal e outras riquezas ao império e agora se tornam cúmplices e beneficiários de um sistema degradante". 

Fim da história é isso: nossas crianças limpam cocô em prisão nos EUA
Fim da história é isso: nossas crianças limpam cocô em prisão nos EUA

Apareceu uma novidade ainda mais deprimente em torno das crianças que  permanecem aprisionadas em centros de detenção nos Estados Unidos, longe de seus pais -- que tentavam entrar clandestinamente no país.

Além da prisão ser um escândalo absoluto, equivalente a um sequestro, pois ninguém pode ser preso sem culpa formada, o caso atinge milhares de meninos e meninas, menores de idade, que sequer podem ser acusados de cometer qualquer tipo de delito. Graças a uma reportagem do New York Times, sabemos agora que estão submetidos a um regime de crueldade ainda maior.

Crianças dom pouco mais de cinco anos  realizam trabalhos forçados para ajudar na conservação e cuidados de higiene dos  centros em que foram aprisionadas -- inclusive  na limpeza dos mictórios. "Eu lavava o banheiro," contou o brasileiro Diego Magalhães, que passou 43 dias num centro de detenção em Chicago."Tínhamos de tirar o lixo cheio de papel higiênico sujo. Todo mundo tinha de fazer isso," disse ele, em entrevista ao jornal. 

As crianças têm hora para dormir e acordar. Devem evitar abraços e outras manifestações de afeto que, como qualquer calouro de psicologia pode explicar, representam um conforto e um consolo importantes nessas situações, ainda mais para quem ainda não têm condições de compreender as brutalidades e injustiças do mundo.  

O tratamento recorda memórias de personagens contemporâneos que passaram parte da infância em campos de concentração -- ou mesmo prisões brasileiras no período mais duro do regime militar. Do ponto de vista legal, o tratamento contraria noções e valores básicos de nossa época, como o veto a exploração do trabalho infantil, a proibição de maus tratos, a tortura psicológica. Também contraria acordos internacionais sobre a infância, a começar pela Convenção Internacional dos Direitos da Criança. Numa definição essencial, ali se estabelece o princípio do "Interesse Superior da Criança", segundo o qual toda decisão de governos que envolvem a infância devem "considerar aquelas que oferecem o máximo de bem-estar". Outro ponto diz respeito a "Sobrevivência e Desenvolvimento", pelo qual os Estados-membros da ONU se comprometem a garantir a infância um "desenvolvimento com harmonia nos aspectos físico, psicológico, moral e social".

Um aspecto curioso, nesse debate, é que apenas três países deixaram de assinar a convenção, aprovada em 1989 pela ONU. Duas foram nações africanas, mergulhadas na miséria econômica e do inferno político, Somália e Sudão. O outro não-signatário foi a primeira potência mundial -- o governo dos Estados Unidos, que completava o terceiro mandato republicano consecutivo. Naquele período histórico, os governos de Ronald Reagan e George Bush, pai, se dedicavam a combater os governos comunistas e progressistas no plano internacional, e, no plano interno, desmontar os programas de bem-estar social criados no período Roosevelt na saída da crise de 1929.

A ideologia do momento era o Fim da História, uma celebração da economia de mercado como destino universal da humanidade.

O resultado está aí, nas crianças prisioneiras, que choram longe das mães nos Estados Unidos, onde a mão de obra clandestina é perseguida pelo Estado mas é sempre bem vinda pelas empresas e famílias endinheiradas que buscam mão de obra para o serviço doméstico. Este é o sistema que  ajuda a manter os salários nos EUA num patamar baixo, marca permanente do regime de trabalho do país mais rico e um dos mais desiguais do mundo.

Ao deixar os EUA fora da Convenção, postura que seria seguida também pelos governos democratas de Bill Clinton e Barack Obama, a Casa Branca criou um escudo contra ações internacionais, que não podem ser impedidas mas podem ser dificultadas em casos desse tipo.

Em qualquer caso, nada é tão vergonhoso como o silêncio dos governos de  países que assinaram o tratado -- sempre em clima de festa -- e assistem em silêncio à humilhação de suas crianças. A gravidade do caso é motivo de denúncia e escândalo. Tirando badulaques e novidades tecnológicas de nossa época, é preciso retornar ao tempo em que a escravidão era uma atividade legalizada para se encontrar cenas tão degradantes.

Não custa lembrar que o sufoco que leva tantas famílias latino-americanas a procurar um refúgio nos Estados Unidos é a outra face da moeda parte do fim da história, aquela diplomacia  que inclui uma política deliberada para garantir um domínio colonial sobre povos e países, impedindo seu desenvolvimento e soberania -- sempre em nome do mercado. Depois da pilhagem de riquezas naturais, de atos evidentes de sabotagem a caminhos possíveis para um desenvolvimento autônomo, do empobrecimento forçado da população, as fronteiras são abertas ou fechadas conforme o interesse da metrópole. 

Inaceitável, o silêncio do governo Temer e do Itamaraty sobre o tratamento a nossas crianças é compreensível. Pela entrega do pré-sal, as privatizações e a abertura do país ao império, eles são cúmplices e beneficiários do fim da história -- e nada irão fazer para contrariar estes interesses. No Brasil de hoje, o desemprego atinge um recorde histórico, a inadimplência das famílias é motivo de alarme. Conforme o DataFolha, 62% dos jovens gostariam de viver em outro país.  

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