Fim de uma era: Pequim corta financiamento indireto ao déficit americano
Retirada chinesa de mais de US$ 500 bi em títulos dos EUA revela limites fiscais de Washington diante de déficits persistentes
Durante décadas, a águia americana voou alto, alimentada pelo crédito do mundo, enquanto o dragão chinês crescia em silêncio, acumulando força no chão. Agora, a águia sente o peso das próprias asas, carregadas de dívida, e o dragão, sem atacar, recolhe o alimento que oferecia. Não há choque no ar, apenas a mudança do equilíbrio entre voo e terra, poder e paciência, que redefine silenciosamente o jogo global atual.
Não se trata de imagem poética deslocada da realidade, tampouco de alegoria gratuita. O que os números mostram, de forma objetiva, é que a relação financeira entre China e Estados Unidos entrou em uma fase distinta. A redução contínua da exposição chinesa à dívida pública americana não é episódica nem ideológica.
Trata-se de uma decisão técnica, repetida mês após mês, que já se tornou estrutural e carrega implicações diretas para o funcionamento do sistema monetário internacional.
Em 2013, no auge do ciclo de expansão do comércio global, Pequim mantinha cerca de 1,32 trilhão de dólares em títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Era o maior credor externo de Washington, posição conquistada ao longo de anos de superávits comerciais e reciclagem sistemática de dólares. Uma década depois, esse estoque caiu para a faixa de 760 a 800 bilhões de dólares, segundo dados oficiais. A redução acumulada ultrapassa meio trilhão de dólares — uma mudança de escala que não pode ser tratada como ajuste marginal.
Para compreender o alcance desse movimento, é necessário voltar à arquitetura monetária construída no pós-guerra. A centralidade do dólar, consolidada a partir de 1944, sobreviveu ao fim do padrão-ouro porque oferecia liquidez, previsibilidade institucional e um mercado de títulos profundo o suficiente para absorver reservas globais.
Durante décadas, esse sistema funcionou porque os grandes detentores de dólares acreditavam que seus ativos estavam protegidos de interferências políticas diretas. Viram, nos últimos anos, que não estavam, e as placas tectônicas do poder financeiro global começaram a se mover. Estamos apenas no início.
Essa percepção começou a se deteriorar quando o sistema financeiro passou a ser usado de forma explícita como instrumento de coerção geopolítica. O congelamento de aproximadamente 300 bilhões de dólares das reservas russas após a invasão da Ucrânia representou um ponto de inflexão. A mensagem foi clara: ativos soberanos denominados em dólar não são politicamente neutros. A partir desse momento, a gestão de reservas deixou de ser apenas uma decisão financeira e passou a incorporar, de forma central, o risco geopolítico.
Para a China, que administra reservas internacionais em torno de 3,2 trilhões de dólares, essa mudança de contexto exigiu resposta. Não houve venda abrupta dos títulos americanos, o que desvalorizaria os próprios ativos ainda em carteira. Houve, em vez disso, uma redução gradual da exposição e uma diversificação deliberada das reservas, preservando liquidez e minimizando impactos de mercado.
Essa diversificação se materializa de forma concreta na política de ouro. Entre 2022 e 2024, o Banco Popular da China adquiriu oficialmente mais de 300 toneladas do metal, elevando suas reservas para cerca de 2.260 toneladas. Em valores atuais, isso representa algo próximo de 150 bilhões de dólares. Parte das compras ocorre fora dos canais de reporte imediato, o que sugere que o volume real pode ser ainda maior. Não se trata de nostalgia monetária, mas de busca por um ativo fora do alcance de sanções e decisões unilaterais.
O movimento chinês se insere em uma tendência mais ampla. Em 2022, os bancos centrais compraram 1.082 toneladas de ouro, o maior volume anual desde a década de 1960. Em 2023, as aquisições permaneceram acima de 1.000 toneladas. Países emergentes, produtores de energia e economias fora do eixo tradicional do Ocidente passaram a reavaliar, de forma simultânea, a composição de suas reservas.
Em paralelo, Pequim acelerou a redução do uso do dólar em seu comércio exterior. Em 2010, menos de 5% das transações internacionais chinesas eram liquidadas em moeda local. Em 2024, esse percentual ultrapassou 25%. O avanço ocorreu por meio de acordos bilaterais, swaps cambiais e maior uso do yuan em contratos de energia e commodities, diminuindo a dependência operacional do sistema financeiro americano.
O desenvolvimento de sistemas alternativos de pagamento e compensação segue a mesma lógica. Eles não substituem as infraestruturas dominantes do sistema global, mas funcionam como redes de redundância. Em um ambiente internacional mais fragmentado, reduzir pontos únicos de falha tornou-se prioridade estratégica, não gesto simbólico.
Apesar disso, não há base factual para a narrativa de colapso iminente do dólar. A moeda americana ainda responde por cerca de 58% das reservas globais, sustenta o maior mercado financeiro do planeta e continua sendo o principal meio de liquidação do comércio internacional. O estoque de dívida negociável dos Estados Unidos supera 27 trilhões de dólares e ainda encontra demanda relevante.
O problema central, porém, não é de confiança retórica, mas de aritmética fiscal. Os Estados Unidos operam com déficits anuais superiores a 1,5 trilhão de dólares e uma dívida pública total acima de 34 trilhões. Esse passivo precisa ser rolado continuamente. Quando grandes credores externos deixam de ampliar posições, o ajuste ocorre por juros mais altos ou por maior intervenção do banco central.
Entre 2020 e 2022, o balanço do Federal Reserve saltou de 4 trilhões para quase 9 trilhões de dólares para sustentar o mercado de títulos, evidenciando a tensão entre política monetária e financiamento fiscal.
Nesse contexto, a redução chinesa da dívida americana não anuncia o fim do dólar, mas encerra uma ilusão confortável: a de que o sistema pode operar indefinidamente sem custos crescentes. A centralidade monetária depende da disposição de terceiros em financiar déficits alheios. Quando essa disposição diminui, mesmo lentamente, o centro do sistema perde margem de manobra.
Quando este período for analisado no futuro, a queda de mais de 500 bilhões de dólares na exposição chinesa aos títulos do Tesouro provavelmente não será lembrada como gesto hostil nem como ruptura dramática. Será registrada como um marco técnico e político: o momento em que a principal potência emergente do século decidiu que financiar o núcleo do sistema deixou de ser automático.
Não houve anúncio, não houve espetáculo, não houve choque. Houve números.
E, na economia internacional, quando os números mudam de direção, o poder costuma seguir logo depois.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

