Finalmente, um general é interrogado por civis

Segundo Moisés Mendes, do Jornalistas pela Democracia, "Bolsonaro conseguiu o que a Comissão da Verdade tentou desde 2014, quando da conclusão do seu relatório sobre os crimes da ditadura". "Pazuello é o primeiro general ainda fardado a ser interrogado, em outras circunstâncias, por gente sem farda que pode até mandar prendê-lo"

Eduardo Pazuello na CPI da Covid
Eduardo Pazuello na CPI da Covid (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado | ABr)
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Por Moisés Mendes, para o Jornalistas pela Democracia

Bolsonaro conseguiu o que a Comissão da Verdade tentou desde 2014, quando da conclusão do seu relatório sobre os crimes da ditadura. Bolsonaro ofereceu um general aos interrogadores civis da CPI do Genocídio.

A Comissão da Verdade pediu a responsabilização civil e criminal de 377 autoridades apontadas por envolvimento em todo tipo de violência, das prisões arbitrárias às torturas e aos assassinatos. Dessas, 58 eram generais.

Todos eram generais da reserva e a maioria já havia morrido. Nunca foram ouvidos por ninguém. Eduardo Pazuello está bem vivo, é general da ativa.

Todos os denunciados pela Comissão da Verdade escaparam de ficar diante de investigadores, acusadores e julgadores civis, por conta das vastas proteções asseguradas pela anistia de 1979.

Pazuello é o primeiro general ainda fardado a ser interrogado, em outras circunstâncias, por gente sem farda, num grupo com o poder de investigar e identificar autores de delitos e pedir providências ao Ministério Público.

Essa é a situação de Pazuello. Um general da ativa, que ocupou postos de comando no Exército e foi ministro da Saúde, será interrogado nesta quarta-feira por um grupo de senadores que, se quiserem, pode até mandar prendê-lo.

O general estará na CPI, formalmente, na condição de testemunha das ações de governo que levaram ao genocídio da pandemia.

Um general será interrogado por ter testemunhado e também ter envolvimento direto com atividades que poderão ser enquadradas como criminosas.

Pazuello sabe muito. Sabe quem eram e são os interessados na cloroquina, não como remédio, mas como negócio. E sabe quais eram as facções mobilizadas para morder os fabricantes de vacinas.

Mordiam e faziam lobby pela cloroquina e mordiam ou tentaram morder para intermediar a negociação com vacinas.

Pazuello deve saber por que o secretário de Comunicação de Bolsonaro, Fabio Wajngarten, tentou, ao lado de Carluxo, fazer lobby para a Pfizer e por que sua tentativa não deu certo. Pazuello sabe muita coisa do que aconteceu em sua sala ou no entorno.

Os generais da ditadura poderiam (se a Justiça concordasse, mas o Supremo não concordou) ser processados, em muitos casos, como ocupantes de cargos de comando e por terem sido omissos, mas geralmente por envolvimento indireto nos crimes.

Pazuello poderá ser enquadrado por envolvimento direto com ações que resultaram no massacre da pandemia. O Exército nunca imaginou uma situação tão esdrúxula e tão constrangedora.

Os generais foram acusados pela morte e pelo desaparecimento de 434 brasileiros durante a ditadura. Pazuello está sob suspeita de participação em ações e omissões que contribuíram para a morte de mais de 400 mil pessoas.

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