Flamengo vence no remo e perde na cartolagem

"Nesse domingo, 31 de março, enquanto o povo descomemorava a data nas ruas, o ex-atleta do remo, Stuart Edgar Angel Jones, era homenageado na Sede Náutica do Flamengo", escreve a jornalista Hildegard Angel, do Jornalistas pela Democracia, sobre a homenagem ao irmão que foi preso, torturado e morto durante a Ditadura Militar; "Não foi a primeira homenagem do Mengão a Stuart. Há nove anos, na mesma Sede Náutica, foi inaugurado um monumento de concreto com placa dedicado àquele que deu dois títulos ao clube", diz ela, lembrando que o monumento foi retirado pelo clube 



Por Hildegard Angel, para o Jornalistas pela Democracia - Nesse domingo, 31 de março, enquanto o povo descomemorava a data nas ruas, o ex-atleta do remo, Stuart Edgar Angel Jones, era homenageado na Sede Náutica do Flamengo. Era a abertura do Campeonato Estadual de Remo do Rio de Janeiro. Foi emocionante ver as falas dos oradores da solenidade serem interrompidas por fogos e gritos de torcedores à chegada dos 10 barcos do clube vitoriosos nas 16 provas. Depois, em roda, cantamos o Hino do Flamengo.

O primeiro a falar foi o conselheiro do Flamengo, David Butter, membro da torcida Flamengo da Gente, que organizou o evento. Naquela mesma sede do Remo, Stuart foi acolhido quando estava na clandestinidade. Por iniciativa do técnico Buck e dos companheiros, ele passou duas semanas na garagem náutica, dormindo dentro de um dos barcos, e os atletas lhe levavam diariamente as quentinhas. Por vontade própria, Tuti (como o chamávamos), temendo pela vida dos amigos, que não eram da luta política, ele deixou o abrigo, sendo um tempo depois capturado e assassinado, no ano de chumbo de 1971 da era Médici.

Não foi a primeira homenagem do Mengão a Stuart. Há nove anos, na mesma Sede Náutica, foi inaugurado um monumento de concreto com placa dedicado àquele que deu dois títulos ao clube. Foi um grande acontecimento, com presença dos ex-companheiros do remo e da luta política, amigos, mídia, autoridades, até um ministro. Houve discursos na cerimônia emocionante, com jovens remadores uniformizados, alinhados, empunhando os remos.

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Ao chegar ali ontem, procurei pelo monumento. "Foi retirado com tudo que estava aqui, por ocasião das Olimpíadas", explicaram. Agora, o mesmo grupo Flamengo da Gente busca recursos para a restauração da placa e sua recolocação no local. Lembrei que há outra homenagem do clube a meu irmão: uma estrela com seu nome, na constelação de atletas campeões, no piso à entrada da Sede Social. "Ah - responderam - essa estrela também foi retirada, houve uma obra...". Flamenguista de boa-fé, não duvidei das explicações. Hoje, ao ler a nota oficial do Flamengo, informando que, "por isso ser vedado pelos estatutos" o clube não teve participação naquela homenagem, comecei a ter minhas dúvidas.

Consta que alguns torcedores furiosos com o evento reclamaram. Uma pena que a atual Presidência prefira dar voz a uma torcida que desconhece a História do clube e não aprecia sua memória. Não só pela sua coragem, Stuart tem sido lembrado tantas vezes. Ele fez por onde.

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Quando o barco rubro-negro em que era voga conquistou a taça do IV Centenário do Rio de Janeiro, Stuart desmaiou à chegada e saiu de maca e no oxigênio. Uma hérnia de disco o obrigava a grande esforço para a superação da dor. O voga é o remador da frente, que dá o ritmo ao barco. Mas ele só deixou de remar quando a repressão não lhe permitiu mais estudar, trabalhar, conviver com a família e os amigos, levando-o a entrar na clandestinidade.

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Foram só dois campeonatos conquistados. Mais não houve porque a ditadura matou Stuart antes do terceiro, do quarto... Meu irmão certamente me recriminaria por eu dizer isso, e talvez sequer apreciasse as honrarias póstumas. Nem aceitaria ser lembrado isoladamente, sem seus companheiros. Ficam as palavras do treinador Buck: "Ele era um líder, mas um líder manso. Quando o barco ia mal, chamava a si a responsabilidade, quando vencia, dizia que foram os companheiros, por isso era tão querido no Remo".

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Ironia: neste mesma segunda-feira em que a direção do Flamengo dá essa bola fora, o Conselho Municipal de Paris, com apoio da prefeita Anne Hidalgo, aprovou a conferência do nome da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, a uma via pública daquela cidade.

Por falar em homenagem, o Flamengo podia aproveitar a ocasião e explicar aquela que prestou no passado ao mais nefasto dos ditadores militares, Emílio Garrastazu Médici. Um atleta, mas das torturas.

No mais: uma vez Flamengo, Flamengo até morrer! As diretorias passam. A História fica.

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Stuart Angel, voga do barco do Flamengo

 

A Torcida Flamengo da Gente e seu lema "A Democracia Começa pelo Flamengo"

 

A camiseta oficial do clube com a idade do Stuart quando foi morto e seu nome

 

O conselheiro do clube, David Butter, discursou abrindo a homenagem

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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