Flávio Bolsonaro e o símbolo augusto da paz

Para Gilvandro Filho, do Jornalistas pela Democracia, aponta que "a série de 'entrevistas' de membros do governo e do clã dos Bolsonaro à TV Record e ao SBT – em menor medida à Rede TV - faz o jornalismo voltar aos tempos da ditadura militar", quando "a televisão era, na prática, um órgão de comunicação oficial"; o colunista também critica duramente o uso da bandeira do Brasil por Flávio Bolsonaro, ao enxugar as "lágrimas", num vídeo em que chora ao falar do pai, publicado em setembro, mas viralizado por esses dias

Flávio Bolsonaro e o símbolo augusto da paz
Flávio Bolsonaro e o símbolo augusto da paz

Por Gilvandro Filho, dos Jornalistas pela Democracia – A série de "entrevistas" de membros do governo e do clã dos Bolsonaro à TV Record e ao SBT – em menor medida à Rede TV - faz o jornalismo voltar aos tempos da ditadura militar. Naquela época, a televisão era, na prática, um órgão de comunicação oficial, cobrindo com fidelidade canina aos militares os atos e fatos do governo. Não que, nos últimos tempos, tenha se libertado dessa subserviência. Mas a coisa era oficial.

Ao assumir o poder após um golpe que derrubou o governo eleito e legítimo de João Goulart, os militares precisaram de uma imprensa confiável para garantir-lhes algum respaldo popular. Trataram, então de inflar uma emissora fiel e implodir a "hostil".

Na época, a nova TV Globo (oriunda da TV Rio), do empresário e aliado Roberto Marinho, era o novo a se investir. A TV Excelsior, líder de audiência de então, a "praga" a se combater. A Globo dava os primeiros passos para ser a potência de hoje. E a Excelsior desapareceria meses depois, com uma canetada do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, presidente eleito indiretamente pelo destroçado Congresso Nacional. Castelo cassou a concessão da empresa de aviação PanAir do Brasil, cujo dono, Mário Wallace Simonsen, era apoiador de Jango. A Excelsior era do mesmo grupo e quebrou por tabela.

Aqui, um parêntese. Ninguém está dizendo aqui que a Globo de hoje vai se quedar como a Excelsior de ontem. Muito menos que a emissora de Edir Macedo será, pelas mãos de Bolsonaro e de todo o batalhão evangélico que o rodeia, a Globo do porvir. É difícil ver nos personagens de hoje estatura histórica e política para tal acontecer. Mas, cautela e caldo de legumes (sou vegetariano) não fazem mal a ninguém. Fecha parêntese.

As "entrevistas" (não tem como não ser entre aspas) deste domingo 20 não fogem à essência da programação da emissora apoiada (e que apoiava) pelo regime militar. A mais recente foi emblemática. Em cerca de 20 minutos, o senador eleito (diplomado, mas ainda não empossado) Flávio Bolsonaro discorreu a perguntas dóceis, com lacunas que o jornalismo, normalmente, não deixaria passar. A Globo, em pé de guerra, entregou o jogo-mole dos jornalistas da concorrente.

Compenetrado, o filho do presidente contou versão inverossímil de negócios com imóveis que lhe teriam rendido uma pequena fábula. Coisa de mais de 4,2 milhões em dois anos. Não convenceu. E deixou claro, apenas, de que tem muito explicar. Mais: que, no Brasil, além de Fabrício Queiroz, o ministro da Justiça sumiu.

Mas a semana teve mais. Teve o vídeo, gravado ainda na campanha, em setembro, mas viralizado nesses dias, em que de Flávio Bolsonaro chora ao falar do pai e enxuga lágrimas e sei mais o quê com a bandeira do Brasil. Um expediente desnecessário, forçado e que também em nada ajuda a ele no momento atual. Ainda faz mau uso da bandeira. Entra aí outra certeza: a de que o jovem está sem assessoria. Ou, se tem, que está gastando com assessor em vão.

A ideia de usar para marketing pessoal o "lindo pendão da esperança", também conhecido como "símbolo augusto da paz", foi algo muito tosco. Não se via algo tão primário e sem criatividade desde que o antecessor de Flávio, o Michelzinho, criou a logomarca do governo do Papai Temer e, genialmente, resgatou o "Ordem e Progresso" como slogan de gestão.

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