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Esmael Morais

Jornalista e blogueiro paranaense, Esmael Morais é responsável pelo Blog do Esmael, um dos sites políticos mais acessados do seu estado

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Flávio Bolsonaro tenta se livrar da marca de traição no tarifaço

Se o clã Bolsonaro ajudou a internacionalizar a crise, Flávio Bolsonaro agora tenta impedir que a tarifa vire uma etiqueta colada em sua pré-candidatura.

Flávio Bolsonaro (Foto: Saulo Cruz/Agência Senado)
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Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu fala presencial na audiência do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), marcada para 6 de julho de 2026, sobre a proposta de tarifa de 25% contra produtos brasileiros. O gesto ocorre depois de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) ser acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por atuar nos Estados Unidos em favor de sanções contra autoridades brasileiras e contra a economia nacional. No Paraná, a conta atinge madeira, alimentos, máquinas, cooperativas, agroindústria, portos e trabalhadores do comércio exterior.

A tarifa americana contra o Brasil não nasceu em planilha neutra. Ela está atravessada por disputa política, interesse comercial dos Estados Unidos e ação pública do bolsonarismo em Washington. O ponto que precisa ser dito, gravado e repetido é simples: parte do clã Bolsonaro levou a briga política brasileira para dentro do poder americano, e agora Flávio Bolsonaro tenta reduzir o dano eleitoral dessa operação antes de 2026.

O fato confirmado é que o USTR abriu consulta formal sobre uma possível tarifa adicional de 25% contra produtos brasileiros. O prazo para pedir fala na audiência terminou em 22 de junho. Os comentários escritos seguem até 1º de julho. A audiência pública será em 6 de julho, em Washington. A decisão americana pode atingir contratos, exportações, preço, emprego e confiança.

O segundo fato confirmado é que Flávio Bolsonaro pediu cinco minutos para falar presencialmente na audiência. No documento de inscrição, o senador afirma que se opõe à tarifa, defende consumidores e produtores dos dois países e propõe uma solução negociada. Essa é a versão formal apresentada por ele ao processo americano.

A contradição política está no histórico recente. Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio Bolsonaro, foi acusado pela PGR de articular sanções do governo dos Estados Unidos contra a economia brasileira e contra ministros do STF para influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro (PL) no processo da trama golpista. A Primeira Turma do STF condenou Eduardo Bolsonaro, em 16 de junho, a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo.

A defesa de Eduardo Bolsonaro contesta a condenação e sustenta que houve perseguição política. Essa é a posição atribuída ao ex-deputado. A decisão do STF, porém, transformou em fato judicial uma acusação que antes circulava como disputa de narrativa: a atuação nos Estados Unidos virou processo, julgamento, condenação e inelegibilidade.

É nesse ambiente que Flávio Bolsonaro tenta aparecer como bombeiro de uma fogueira acesa dentro do próprio campo político. Ao pedir fala no USTR, o senador procura dizer aos americanos que a tarifa prejudica empresas e trabalhadores. Ao mesmo tempo, tenta se afastar da imagem de uma direita que aceitou usar pressão estrangeira contra o Brasil como ferramenta de guerra política doméstica.

A ofensiva dos Estados Unidos não mira apenas tarifa. O processo da Seção 301 cita comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. O Pix aparece no coração da disputa porque Washington acusa o modelo brasileiro de prejudicar empresas americanas de pagamento. Essa é a tese dos Estados Unidos, não uma conclusão aceita pelo Brasil.

O conflito, portanto, mistura soberania digital, agro, indústria, política externa e eleição presidencial. Quando os Estados Unidos questionam o Pix, questionam uma infraestrutura usada por trabalhadores, pequenos negócios, consumidores e bancos brasileiros. Quando propõem tarifa sobre produtos nacionais, atingem cadeias produtivas que não votam em Washington, mas pagam a conta do conflito.

No Paraná, a conta tem número. O estado exportou US$ 1,587 bilhão para os Estados Unidos em 2024. O mercado americano foi o segundo destino comercial do Paraná, atrás apenas da China. Madeira e produtos de madeira responderam por 38,71% das vendas paranaenses aos EUA. Produtos alimentícios ficaram com 14,30%. Máquinas e equipamentos somaram 13,70%.

Esses percentuais traduzem a política em economia real. A tarifa pode alcançar serrarias, painéis, portas, café solúvel, açúcar, leveduras, máquinas de mineração, equipamentos de construção, operadores logísticos, caminhoneiros, portos, cooperativas e trabalhadores da indústria. Não é uma briga entre Lula e Trump em abstrato. É contrato, emprego, margem, frete e prazo de entrega.

O Paraná entrou em 2026 com exportações em alta. Entre janeiro e maio, o estado vendeu US$ 9,7 bilhões ao exterior, alta de 3,7% sobre igual período de 2025. Máquinas, veículos de carga, óleo de soja, celulose, soja em grão e carne de frango sustentaram parte desse avanço. A ameaça americana chega justamente quando o comércio exterior paranaense pesa mais na renda e na arrecadação.

A pergunta jornalística agora não é se Flávio Bolsonaro fará um discurso bonito nos Estados Unidos. A pergunta é quem protocolou defesa formal do Paraná no processo americano. Quem entrou no docket do USTR com documento, dado e argumento econômico? Quem defendeu madeira, alimentos, máquinas, Pix, porto, cooperativa e emprego? Quem ficou apenas no post de rede social?

Até a checagem de 23 de junho, o Blog do Esmael localizou o pedido formal de Flávio Bolsonaro para falar na audiência. O portal público do USTR apresentou falha de carregamento na busca geral das manifestações, o que impede afirmar uma lista definitiva de inscritos. A ressalva é necessária porque comentário escrito ainda pode ser enviado até 1º de julho.

Mesmo com essa limitação técnica, a cobrança política permanece. Governo federal, bancada do Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Portos do Paraná, frigoríficos, setor madeireiro e exportadores precisam aparecer no processo com documento, não apenas com nota.

O governo Lula (PT) tem obrigação institucional de defender o Brasil, contestar a tarifa e proteger o Pix sem transformar resposta comercial em bravata. A bancada paranaense tem obrigação política de dizer se condena tarifa estrangeira contra produto brasileiro ou se relativiza a pressão americana porque ela saiu do mesmo campo ideológico que tenta derrotar Lula em 2026.

A direita paranaense também terá de responder. Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo), Filipe Barros (PL) e aliados que dividiram palanque com Flávio Bolsonaro não podem tratar soberania como palavra de comício e tarifa como nota de rodapé. Quem fala em agro, indústria e emprego precisa explicar se aceita que Washington use o bolso do produtor brasileiro como instrumento de pressão política.

Flávio Bolsonaro tenta transformar sua inscrição no USTR em gesto de responsabilidade econômica. A leitura do mundo político é outra: o pré-candidato tenta administrar o prejuízo causado pela associação entre bolsonarismo, sanções, tarifaço e interferência estrangeira. A operação mira dois públicos ao mesmo tempo: os americanos, que cobram vantagem comercial, e os brasileiros, que pagam a conta.

A audiência de 6 de julho será menos sobre retórica e mais sobre arquivo. O que ficará registrado no processo americano não é o vídeo gravado para rede social, mas o documento protocolado em inglês, com número, setor atingido, produto, impacto e pedido concreto.

O Paraná exportador não precisa de torcida ideológica em Washington. Precisa de defesa formal, soberania econômica e proteção de emprego. Se o clã Bolsonaro ajudou a internacionalizar a crise, Flávio Bolsonaro agora tenta impedir que a tarifa vire uma etiqueta colada em sua pré-candidatura.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.