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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Flávio derrete, mas a ameaça permanece mesmo se Lula vencer

Lula avança nas pesquisas, mas sabe que uma vitória nas urnas abrirá uma batalha ainda mais dura contra o cerco bolsonarista na Câmara e no Senado

Flávio Bolsonaro (Foto: Saulo Cruz/Agência Senado)
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A candidatura de Flávio Bolsonaro entrou em sua fase mais difícil desde que foi lançada como tentativa de continuidade familiar do bolsonarismo em 2026. O escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, que já ganhou o nome de Bolso Master, produziu o primeiro grande abalo real na campanha da direita liberal e da extrema direita. 

Lula cresceu. Flávio caiu. O empate técnico começou a se desfazer. A candidatura que até poucos dias atrás era vendida como alternativa competitiva da direita contra Lula passou a carregar uma marca difícil de apagar: a de um Bolsonaro enredado em explicações contraditórias, relações perigosas e uma proximidade incômoda com o centro de um dos maiores escândalos financeiros recentes do país. 

Mas é exatamente nesse ponto que o campo progressista precisa ter cuidado. 

Flávio Bolsonaro, o candidato da direita e da extrema direita derreteu. Mas ainda não morreu. 

A Faria Lima começa a fechar a porta 

A notícia de que um banqueiro influente da Faria Lima se recusou a receber o filho de Jair Bolsonaro depois da divulgação do áudio com Daniel Vorcaro tem peso simbólico enorme. Não se trata apenas de uma agenda cancelada. Trata-se de um sinal. 

A pequena história revelada por Fernando Nakagawa, da CNN Brasil, vale mais que muitos discursos. Flávio Bolsonaro teria negado a um grande banqueiro da Faria Lima qualquer relação com Daniel Vorcaro. Depois, o áudio mostrou o contrário. Ao tentar se explicar, Flávio já não encontrou a mesma porta aberta. Não conseguiu agenda.  

O episódio é simbólico: a Faria Lima não rompe com o bolsonarismo por razões morais, mas quando sente cheiro de risco, contaminação e prejuízo reputacional. O problema de Flávio deixou de ser apenas eleitoral. Passou a ser também financeiro, político e tóxico. 

Em entrevista ao jornalista Luis Nassif, o cientista político Carlito Neto declarou que o principal problema enfrentado por Flávio seria a perda de confiança de setores ligados à Faria Lima. 

“Eu acho que (o derretimento na campanha) não para, porque o Flávio fez o que nenhum candidato que se diz conservador e de direita deve fazer: roubar a Faria Lima de alguma maneira, e foi o que o Flávio fez”, disse Carlito. 

Flávio tentava construir a imagem de candidato aceitável para o mercado. Queria aparecer como o Bolsonaro “civilizado”, o herdeiro menos estridente, o nome capaz de reunir o voto bolsonarista, o da direita liberal, o dinheiro conservador do andar de cima, os grandes interesses econômicos e a velha mídia que sonha com uma alternativa capaz de derrotar Lula sem parecer uma aventura golpista. O áudio com Vorcaro atrapalhou essa operação. 

A Faria Lima não tem problema moral com o bolsonarismo. Nunca teve. Conviveu muito bem com Paulo Guedes, Jair Bolsonaro, a destruição ambiental, o ataque às instituições, a pandemia tratada com crueldade e a tentativa de golpe. 

O problema, agora, é outro. 

É risco. É contaminação. É custo reputacional. É medo de estar ao lado de uma candidatura que pode se transformar em sinônimo de dinheiro nebuloso e mentira pública, o Bolso Master. Flávio não perdeu apenas pontos nas pesquisas. Perdeu parte da aura de viabilidade. 

A mentira como problema político 

O caso Vorcaro é devastador porque não se limita à pergunta sobre dinheiro. O problema também é a mentira. 

Flávio tentou reduzir sua relação com Daniel Vorcaro a uma operação privada, supostamente limitada ao financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro. Depois vieram mensagens, áudios, contradições, negativas desmentidas e a revelação de que a relação era muito, muito mais próxima do que o senador havia admitido. 

O problema não é apenas ter conversado com Vorcaro. É ter tentado convencer o país de que quase não o conhecia. Quando dele era íntimo. Amigo de longas datas. Amigo “irmão”, com quem teria feito tenebrosas transações. 

Agora, Flávio Bolsonaro aparece colado a um banqueiro preso, a um banco sob investigação, a contratos milionários e a explicações que não fecham. E condenado a ver diariamente seu passado nada republicano de rachadinhas, Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega e a cumplicidade com o crime organizado, compras de casa com empréstimo privilegiados do BRB e muito mais. 

Lula avança, a base bolsonarista continua viva 

As pesquisas mais recentes mostram uma mudança importante. Lula passou à frente de Flávio em levantamentos divulgados depois da crise. A vantagem do presidente cresceu justamente quando a candidatura bolsonarista passou a sangrar.  

A nova pesquisa Nexus/BTG, divulgada nesta terça-feira, 25, confirma a liderança do presidente Lula, tanto nos cenários de primeiro quanto de segundo turno.  

Esses números importam. 

Eles mostram que o escândalo furou a bolha. Mostram que a candidatura do Zero Um do papai Jair Bolsonaro deixou de parecer inevitável. Mostram que a extrema direita, pela primeira vez em meses, passou a jogar na defesa. Mostram também que Lula volta a se aproximar do patamar que pode consolidar sua reeleição. 

Mas há um dado que impede qualquer euforia: a base bolsonarista continua viva. Fanatizada. Mobilizada. Blindada contra fatos. Acostumada a transformar denúncia em perseguição, escândalo em conspiração e prova em narrativa. 

Flávio pode ter perdido mercado. Pode ter perdido o centro e o norte. Pode ter perdido a máscara e a maquiagem de bom moço. Mas ainda não perdeu a base. 

E enquanto essa base permanecer organizada, nenhum democrata tem o direito de dormir tranquilo. 

O alerta de Marcos Nobre 

É nesse ponto que a avaliação do filosofo e cientista político Marcos Nobre, em entrevista à BBC, precisa ser levada a sério. Segundo ele, o momento do escândalo pode ter sido, paradoxalmente, favorável a Flávio Bolsonaro, porque ainda haveria tempo até a eleição para tentar reconstruir a candidatura. 

A frase incomoda, mas não deve ser descartada. 

Na política brasileira, escândalos que parecem fatais em maio podem ser reorganizados até outubro. A máquina de desinformação da extrema direita ainda não entrou em sua fase máxima. O dinheiro ainda circulará. Os púlpitos e altares ainda serão acionados. Os algoritmos ainda serão inundados. Os influenciadores ainda fabricarão novas cortinas de fumaça. E a família Bolsonaro ainda tentará transformar Flávio em vítima de uma suposta conspiração do sistema. 

Esse roteiro é conhecido. 

Foi assim em 2018. Foi assim durante a pandemia. Foi assim depois do 8 de janeiro. Foi assim com a tentativa de golpe. Foi assim com Jair Bolsonaro condenado e ainda tratado por parte da imprensa como liderança política normal. 

A extrema direita não precisa provar inocência. Precisa apenas manter sua base em estado de guerra. 

O erro seria baixar a guarda 

O campo progressista tem razões para reconhecer o bom momento. Lula avança. Flávio sangra. A direita tradicional se inquieta sem saber ainda como substituir Flávio. A Faria Lima começa a hesitar. A candidatura bolsonarista, que parecia embalada, agora precisa explicar sua intimidade e cumplicidade com Vorcaro e os crimes do Bolso Master. 

Mas seria um erro grave transformar esse quadro em euforia. 

Flávio Bolsonaro ainda é o herdeiro direto do sobrenome que organiza a extrema direita brasileira e  ainda carrega a direita que não quer Lula de jeito nenhum. Ainda tem o apoio de parte decisiva do PL. Ainda tem a máquina digital bolsonarista. Ainda tem a blindagem emocional de milhões de eleitores. Ainda tem setores religiosos, parlamentares, empresariais e midiáticos interessados em impedir a reeleição de Lula. 

Além disso, se Flávio cair, o bolsonarismo tentará reorganizar a chapa em torno de outro nome — Michelle, Caiado, Zema, Renan Santos, os novatos na fila, Aécio Neves, Joaquim Barbosa e outros menos votados — ou qualquer figura capaz de preservar o núcleo do projeto: derrotar Lula, anistiar os golpistas, recompor o pacto com a extrema direita internacional e recolocar o Brasil na órbita política de Donald Trump. 

Portanto, o problema não é apenas Flávio. O problema é o projeto que Flávio representa. 

E se Lula vencer? 

O campo progressista não deve descansar enquanto o resultado da eleição não for proclamado. E nem depois. 

A candidatura de Flávio derreteu, mas ainda não morreu. Lula avança, mas ainda não venceu. A extrema direita está ferida, mas continua organizada. E, mesmo que Lula conquiste um quarto mandato, a luta democrática entrará em uma fase ainda mais difícil. 

É este o novo alerta feito por Marcos Nobre na entrevista à BBC. O cientista político chama atenção para um problema que vai muito além da disputa presidencial: a correlação de forças no Congresso. 

Lula governa com minoria. Para aprovar medidas, negocia com o Centrão. Para conter abusos do Congresso, recorre ao Supremo Tribunal Federal. Esse arranjo, já instável, pode se tornar ainda mais frágil depois das eleições de 2026. 

A estratégia do bolsonarismo, segundo Nobre, é clara: conquistar maioria no Senado. Não apenas para bloquear Lula, mas para colocar o STF sob ameaça permanente. Um Senado dominado pela extrema direita poderia transformar o impeachment de ministros do Supremo em instrumento de chantagem institucional. 

O objetivo não seria apenas derrotar o governo. Seria paralisar a democracia por dentro. 

Mesmo que Lula vença, poderá encontrar uma Câmara ainda mais hostil e um Senado ainda mais agressivo. Poderá governar sob cerco permanente. Poderá enfrentar um Congresso decidido a capturar o orçamento, sabotar políticas públicas, blindar interesses privados e transformar cada votação em chantagem. 

O alerta é simples: é preciso derrotar Flávio Bolsonaro nas urnas. Mas será preciso derrotar também o projeto que ele representa — antes, durante e depois da eleição. 

A pior resposta do campo progressista seria confundir o barulho do tombo com o fim da ameaça. Mesmo ganhado a eleição de outubro, a célebre frase que Lula usava desde o final dos anos 1970 nas greves do ABC, em plena ditadura militar, nunca soou tão forte: A luta continua, companheiro. E vai continuar sendo muito dura.  

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.