Flávio tenta retomar iniciativa colocando setor financeiro-empresarial na mira dos EUA
Senador sinalizou ao establishment econômico que exige alinhamento eleitoral
A classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelos Estados Unidos, que deve ocorrer em breve segundo o secretário de Estado Marco Rubio, deve ser interpretada como uma tentativa da campanha do senador Flávio Bolsonaro de reativar sua base fiel e retomar a iniciativa política por meio do aumento do risco às instituições financeiras e empresas brasileiras, que tendem a ficar mais expostas a escrutínios e sanções externas.
Por isso, paradoxalmente, a medida também pode favorecer o posicionamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra o que chama de “andar de cima do crime organizado”, em razão do aumento da pressão sobre instituições financeiras e empresas eventualmente envolvidas com essas organizações, seja de forma indireta, seja como fachada para lavagem de dinheiro — o que pode levar ao aprofundamento da fiscalização, à ampliação da cooperação com órgãos federais e ao avanço das investigações visando separar o "joio do trigo".
Além disso, a medida é vista como um primeiro ato de interferência da Casa Branca nas eleições deste ano em favor do senador Bolsonaro, que poderia colher uma vitória política na esteira de sua reunião com o presidente Donald Trump, embora também possa ser lida pelo eleitorado brasileiro como um sinal de alinhamento subalterno aos EUA.
Assim, ainda que as preocupações do governo e de especialistas com a soberania nacional sejam pertinentes, o movimento sugere que Flávio busca disputar com Lula a narrativa de cooperação com os EUA no combate ao crime organizado, sobretudo como contraponto aos desgastes decorrentes de sua associação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, frequentemente apontado como a melhor representação atual da ideia de “andar de cima do crime organizado”.
Um dos palcos dessa disputa pode ser a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e do Marco Legal dos Minerais Críticos, ambos em análise no Senado, um ambiente mais hostil ao Palácio do Planalto.
Ao declarar, após o encontro com Trump, que disse ao presidente americano que ele não precisará taxar a economia brasileira porque teria um aliado em Brasília, o senador Bolsonaro sinalizou ao establishment econômico que exige alinhamento eleitoral, sob pena de prováveis consequências negativas em caso de vitória dele sobre Lula. A exemplo do tarifaço, cabe ao establishment econômico do país decidir, efetivamente, se atravessa ou não a rua da soberania para a da reabilitação do clã Bolsonaro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




