Fora Bolsonaro: Como? Onde? Porque?

O Fora Bolsonaro não é um veto político do PT. No entanto, fazê-lo no momento seria um passo no escuro e mais, um levantamento para corte para as frações de classe mais clássicas alinhadas ao bloco histórico neoliberal no Brasil, representadas pelo PSDB, a Globo e outros do “centrão”

Presidente Jair Bolsonaro coloca máscara durante entrevista coletiva sobre coronavírus no Palácio do Planalto
Presidente Jair Bolsonaro coloca máscara durante entrevista coletiva sobre coronavírus no Palácio do Planalto (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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A olhos nus Bolsonaro derrete. Panelas cantam nas grandes cidades e, ainda que não de forma uníssona, um grito ganha corpo nas janelas do apocalipse: Fora Bolsonaro! Esse grito, no entanto, só atingiu essa camada da população que se escondia com medo de sua voz ressoar nos ouvidos populares por conta da atuação estapafúrdia do governo, e do presidente em especial, diante de uma crise sanitária mundial, a pandemia do corona vírus. Ainda que Bolsonaro, sua figura essencialmente, ainda resguarde boa gordura política para ser gasta, finalmente ganha caráter de manifestação popular o movimento contra o presidente, sem muitos consensos ainda se a investida se concentra em sua figura ou em seu governo como um todo. E nisso entra a função das organizações políticas, dos partidos em especial, na disputa da opinião pública para suas perspectivas particulares.

A questão colocada então é: existe um movimento mais amplo, de contestação geral do projeto econômico e social do governo liderado por Bolsonaro ou a movimentação se dá ainda por repulsa à imagem do presidente? Entra em ação nessa perspectiva um ator crucial do cenário político brasileiro: a Rede Globo de televisão, que se desvestiu novamente de sua roupagem imparcial e assumiu-se como oposição. Mas a Bolsonaro ou a seu governo? A narrativa construída pela mídia se dá na desconstrução imagética da pessoa Bolsonaro e resguarda, de forma habilidosa, seus ministros. A entrada da Globo nesse movimento é fator determinante para a conquista de setores que antes se prostravam diante da destruição do Estado Democrático e de toda estrutura social construída, arduamente, desde 1988.

É compreensível e legítimo que diante desse movimento popular que ganha força no país, muitos setores da esquerda organizada identifiquem que o Fora Bolsonaro deve ser agora a palavra de ordem guia desse campo político, afinal, já utilizamos palavras de ordem semelhantes em outros momentos históricos: Fora FHC, Fora Temer. Elas cumpriram, em seu tempo histórico, funções sociais distintas. O Fora FHC, cujas autocríticas tendem a confirmar ter sido um movimento precipitado, fazia as vezes de desgastar a imagem de um presidente intrinsecamente ligado a seu bloco no poder, em meio a um ambiente bastante mais civilizado. O Fora Temer cumpriu a importante função de garantir a unidade das forças progressistas, de esquerda e alguns setores no campo democrático mais amplo. Qual a função do Fora Bolsonaro? Desgastar sua figura? A Globo o faz. Aglutinar as forças progressistas e de esquerda? O documento conjunto da oposição pedindo sua renúncia foi, habilmente, capaz de fazê-lo. Então, de fato, qual o sentido tático dessa palavra de ordem?

Diante da resolução do Diretório Nacional do PT, do dia 09 de abril de 2020, em que se reafirma o documento pela sua renúncia, mas não se decide pela utilização da palavra de ordem Fora Bolsonaro como meta-síntese do Partido, setores da esquerda e do próprio partido, muito embasados em angústias reais, concretas e antigas, afirmam a incapacidade do PT em dar resposta à altura da crise, anunciam o envelhecimento do PT.

Sou militante do PT, jovem. Acredito nas boas intenções dos setores do Partido que pedem o Fora Bolsonaro. Minha dúvida é: Fazê-lo em consonância com as frações da burguesia que tiveram que engoli-lo devido ao derretimento de seu representante desde meados de 1990 (o PSDB) não seria mais uma vez capitular diante do conchavismo? Não seria aderir à tal frente ampla onde teríamos que disputar espaço com os próprios algozes da democracia que aplicaram o golpe de 2016? Ou seríamos nós a empunhar a corda da guilhotina sobre Bolsonaro? E mais, Bolsonaro, como representante ad hoc de um bloco no poder, não significa muito para o projeto ultraliberal. Sem ele, aplica-se o projeto com Mourão, Maia, ou até Dória, Moro, como a Globo astutamente vem construindo.

A questão de fundo não é aderir a uma fraseologia que possa afagar os egos revolucionários de setores do Partido, mas definir a tática que vai derrubar o projeto político em voga e o bloco no poder que lhe dá sustentação. Esse bloco se assemelha muito àquele conformado por Fernando Henrique Cardoso, principalmente por igualmente ser controlado pela burguesia compradora, aquela que não se baseia em investimentos produtivos, depende do rentismo e da especulação e, portanto, é intrinsecamente dependente do grande capital financeiro internacional. 

Esse bloco que sustenta Bolsonaro, como é natural do movimento histórico, não é uma simples repetição daquele que deu sobrevida ao neoliberalismo no Brasil na década de 1990, mas carrega novos elementos, como incluir frações de classe que normalmente atravessam a política por métodos menos diretos. Falo aqui das milícias e do tráfico, que ganham papel de destaque nesse bloco no poder, não necessariamente por sua influência econômica (que não é pequena), mas por este bloco ser liderado política e simbolicamente por um de seus representantes, como tudo nos leva a acreditar. Um fator importante também é a participação dos setores médios (e até parcelas populares) que por si não representa inovação com relação ao bloco consolidado por FHC, mas a nova roupagem se dá no fato de que essa participação se articula através de um movimento de massas de caráter fascista.

Com isso em vistas, o enfrentamento ao governo encabeçado politicamente por Bolsonaro deve se dar não apenas em cima de sua figura, mas de todo o seu projeto, para a desconstrução do bloco no poder que o sustenta. Fazê-lo demandaria enfrentamento popular para além das janelas, o que não é possível justamente pelo motivo que levou ao crescimento da palavra de ordem Fora Bolsonaro: a necessária quarentena diante da pandemia, pois seria preciso superar o movimento de caráter fascista que compõe o bloco desse governo. Seria necessária também a composição de um novo bloco no poder, que ainda não sabemos como se configuraria. A burguesia interna (aquela com investimentos produtivos: fábricas, etc...), que compões e até dominou o bloco no poder liderado politicamente pelo PT ainda não deu sinais de querer abandonar o projeto ultraliberal. Constituiríamos um bloco com os setores médios e populares? Cedo para saber.

O Fora Bolsonaro não é um veto político do PT, inclusive, o movimento de incluir no documento pela sua renúncia a assinatura de parlamentares demonstra o contrário. No entanto, fazê-lo no momento seria um passo no escuro e mais, um levantamento para corte para as frações de classe mais clássicas alinhadas ao bloco histórico neoliberal no Brasil, representadas pelo PSDB, a Globo e outros do “centrão”. 

É preciso dar conteúdo estratégico às nossas táticas políticas e a única forma de fazê-lo e manter o olhar firme no projeto socialista (Sim, o PT reafirma no seu 3° Congresso, em 2007, sua luta pelo socialismo) com bases democráticas. Só caminharemos nesse rumo com a derrota definitiva do projeto neoliberal.

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