Forma e substância
Crítica à austeridade e às narrativas da extrema-direita em Campinas, com alerta sobre crescimento, democracia e projeto nacional de desenvolvimento
(recado à extrema-direita da Câmara de Vereadores da minha cidade)
Na última reunião do Conselho de Administração da SANASA o conselheiro Manuelito, que também é o competente presidente executivo da companhia, tomou a palavra e, em tom de brincadeira, disse: “- Vou ter que ser chato...”; ele mal terminou a frase outro conselheiro, o Vicente, sempre espirituoso, o interrompeu e aconselhou: “- Se é para ser chato tem que fazer estágio com o Pedro Maciel.”. Foi um momento de necessária descontração num espaço de grande responsabilidade.
Reconheço, eu sou chato. Sou daqueles chatos que assistem, praticamente, todas as sessões da câmara de vereadores de Campinas pela TV ou pelo Youtube; me atrevo a mandar mensagens por whatsapp, durante as sessões para alguns vereadores com quem tenho e mantenho relações fraternas ou ideológicas (sei que minhas opiniões são irrelevantes, mas me permito o atrevimento).
Conto essa historinha para justificar que, depois de algumas semanas com artigos bem comportados, hoje vou criticar o bolsonarismo, o qual constrói sua força nas narrativas, na manipulação de fatos, criação de versões e na transformação das redes sociais em instrumento de intoxicação coletiva.
Escrevo para os vereadores que se declaram bolsonaristas, que envergonham a Tribuna Biléo Soares com seus discursos de ódio e afirmo: o bolsonarismo não tem um projeto consistente de nação, não tem visão estratégica de desenvolvimento, inclusão social, fortalecimento institucional e compromisso democrático; o bolsonarismo (que por aqui já se chamou integralismo), aniquilou a direita liberal e democrática, pois, não admite oposição ao seu autoproclamado messianismo.
A extrema-direita constrói a falsa imagem de um país à beira do colapso, apesar de os indicadores macroeconômicos estarem positivos e do regular funcionamento das instituições, tudo sobre aplausos irracionais e histéricos do antipetismo.
A narrativa da “terra arrasada” é a estratégia política e eleitoral, além de desonestidade intelectual, pois, repete-se a cantilena liberal de que o maior entrave ao desenvolvimento é o desequilíbrio das contas públicas e que a solução seria cortar gastos - maliciosamente não diz aos incautos quais são os gastos que quer cortar -, nem que quando o Estado reduz drasticamente seus gastos em contextos de estagnação, a economia desacelera, afinal, menos investimento público significa menos atividade, menos emprego, menor renda e queda de arrecadação. O ajuste, que deveria resolver o problema fiscal, frequentemente o perpetua.
A experiência recente da Argentina sob Javier Milei ilustra essa dinâmica e o povo argentino vai sentir os efeitos do ajuste irresponsável de Milei, afinal, a queda da inflação argentina foi obtida por meio de forte contração fiscal (cortes de gastos, eliminação de subsídios e compressão da demanda interna). A lógica é clara: menos circulação de renda reduz consumo e investimento; empresas vendem menos e seguram preços, a inflação cede à custa de retração do PIB, desemprego e aumento da pobreza.
O bolsonarismo não fala, mas é essa sua proposta: retração do PIB, desemprego e aumento da pobreza, apesar de até o FMI reconhecer que austeridade excessiva pode agravar desigualdades e comprometer o crescimento.
Há ainda outro ponto: parcela expressiva dos recursos nacionais é transferida ao sistema financeiro via juros elevados da dívida pública e do crédito privado. Quando se agregam: (a) juros altos, (b) evasão fiscal e (c) benefícios concentrados, o volume drenado da economia real supera o déficit primário, mas é o déficit primário que domina o noticiário.
Equilíbrio fiscal é relevante, contas sustentáveis são importantes, contudo, equilíbrio fiscal é consequência de uma economia dinâmica, não seu ponto de partida. Países que crescem ampliam base tributária, estabilizam a relação dívida/PIB e fortalecem a confiança. Sem crescimento, o ajuste torna-se promessa recorrente e nunca cumprida.
Indicadores fiscais retratam resultados contábeis; indicadores macroeconômicos revelam vitalidade produtiva. Se a economia cresce, o quadro fiscal melhora. Se estagna, nenhum corte isolado resolve o problema estrutural. Tratar o déficit como causa principal do baixo crescimento é um erro e pode significar negligenciar fatores decisivos: custo do crédito, concentração financeira, baixa taxa de investimento e distorções tributárias.
A extrema-direita, ao insistir numa agenda de austeridade rígida, não apresenta projeto nacional de desenvolvimento, não discute estratégia industrial, inovação tecnológica, integração produtiva ou redução de desigualdades.
Forma e substância se revelam nesse contraste. Na forma o bolsonarismo traz slogans, indignação permanente e uso intensivo das redes, na substância, há ausência de planejamento de longo prazo.
Um projeto de nação exige mais que retórica fiscal: requer visão estratégica, equilíbrio entre estabilidade de preços, crescimento e coesão social e o Brasil precisa de estratégia de desenvolvimento, não de slogans.
Essas são as reflexões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
