Forrest Gump do terceiro mundo

Chega um tempo que você escolhe: ou muda os hábitos de vida ou vai pro andar de cima. Preferi a linha reta, a linha contínua. Uma espécie de Forrest Gump do terceiro mundo. E comecei a correr

Forrest Gump do terceiro mundo
Forrest Gump do terceiro mundo

26 de outubro de 2018, sexta-feira, 02:00 hrs da manhã

Faltam dois dias pras eleições.

Eu comecei a correr por indicação médica.

Chega um tempo que você escolhe: ou muda os hábitos de vida ou vai pro andar de cima. Preferi a linha reta, a linha contínua. Uma espécie de Forrest Gump do terceiro mundo. E comecei a correr.

Hoje, continuo a correr e não paro. Só vejo horizonte na minha frente. Meu primeiro ponto foi aos 50 anos de idade: uma festa de aniversário. Afinal, 50 anos é meio século. Mas nem assim teve muita gente: alguns familiares, dava pra contar no dedo.

Daí que levantei a cabeça e continuei. Havia um longo caminho pela frente.
Aos 40 anos pensei que fosse dar um salto: meu disco saiu por um grande selo. Mas levantei a cabeça, respirei fundo e fixei o horizonte.

Aos 36 anos, meu casamento acabou. 

Continuei a correr porque a essa altura eu não sabia fazer outra coisa. Correr é o meu ofício. Comecei essa via-crúcis sem saber aonde terminaria. E aqui estou.

Aos 25, eu já não sentia os músculos das pernas. E conheci a esperança, esse monstro de 7 cabeças. É que depois de tantos anos correndo, concluí que o meu negócio era esse mesmo. 

Mas essas paradas, onde aproveito para me restabelecer, são escolhidas meio ao acaso. São pontos entre milhões de outros. O que importa é o ímpeto, o deslocamento no espaço e a linha reta contínua.

Aos 17 anos, eu era apenas um menino e perdi a virgindade. Foi num rendez-vous do Centro. Mas eu ia avançando como dava, já estava em plena adolescência. A essa altura, nada mais era capaz de me conter. Tempos de polução e toalhinha.

Aos 10 anos, eu paro, respiro e olho pra trás. Não saberia precisar a kilometragem. Foi indicação médica, daí tomei gosto. Forrest Gump do Terceiro Mundo, estou fazendo curso Humaitá para prestar concurso de admissão ao ginásio. O uniforme azul claro.

Mas eu avanço. Às vezes me pergunto se vou ter algum descanso. Estou com 5 anos agora e esse é o quintal da minha casa. Me perdi dos meus pais durante o carnaval (já estavam me colocando no carro da polícia, quando meu pai chegou).

Penetro então numa zona cinzenta. Foi tudo tão rápido. Mas é preciso continuar. Afinal de contas, é uma linha reta composta por milhões de pontos. Gosto de falar “cocô” – minha mãe ralha e eu falo. Quanto mais ralha, mais eu falo.

Avanço e me puxam. A temperatura é amena. Me puxam para o lado de fora e eu avanço para o lado de dentro. Desde que empreendi essa corrida maluca, percebi que não haveria fim. Avanço. A minha linha é na direção do horizonte. Mas às vezes parece que cheguei ao ponto final. Quisera ficar aqui.

A nova parada é uma encruzilhada. Mas eu repito, nada disso foi visando algum fim. Podia ficar aqui pra sempre no útero da minha mãe. Mas vou tirar par ou ímpar. Se der par, eu sigo à direita; se ímpar, à esquerda.

Ímpar. Avanço, então, na direção escolhida e depois de um caminho árduo, cheio de escolhos, paro frente ao espelho. Sou uma menina de dez anos de idade. Mas prefiro seguir adiante e olho ao longo de um caminho cheio de bifurcações e cruzamentos. 

15 anos: danço a valsa com o meu primeiro namorado. Moro numa cidade do interior. Estamos no "milagre brasileiro". Eu não sei pra onde to indo, só vejo o horizonte na minha frente.

Dou uma parada. Estou me casando. 20 anos de idade. É um caminho contínuo. Diante da encruzilhada não há o que pensar. Você escolhe um dos lados e vai. João Figueiredo está na TV.

Meu filho. Caminho sem volta. Estou com 23 anos de idade. Não tenho a menor ideia do que nos reserva o futuro. Me separei e me casei de novo.

Parece que já pisei esses caminhos. Tudo me é novo e antigo. A ditadura está acabando após tantos anos. Avanço. Sou formada em odontologia e, apesar de exercer a profissão, o meu negócio é correr.

Nova parada. Estou com 40 anos. Me separei de novo. Quero conhecer novos mundos, novas relações. Respiro fundo e aperto o passo.

Chega um ponto que você já nem sente mais as suas pernas. Volto ao meu ex. É muito ruim viver sozinha, ainda mais numa cidade que não é a sua. Uma sensação contínua de exílio. Lula, Brizola e Collor. É a primeira eleição direta depois de tantos anos.

Avanço. Não retrocedo. Eu sei que vai haver um ponto final, mas eu não deixo. Estou com 50 anos e Lula é eleito. Há uma sensação de frisson no ar. Foi preciso que eu retornasse sob um outro gênero pra viver tudo que não vivi. Meu pés doem.

Paro e pergunto que dia é hoje. Milhões de pontos. Eu ia escolhendo a esmo. Podia ser uma outra narrativa. Me dizem que hoje é 26 de outubro de 2018. Olho o horizonte e avanço. 

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