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Liszt Vieira

Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92

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Fórum Social Mundial – morte e ressurreição?

O FSM tem pela frente um espaço a ocupar, batalhas a serem travadas, com agendas atualizadas, e não ser mais apenas um fórum que recusa a ação política

Fórum Social Mundial (Foto: Tânia Rego/Agência Brasil)
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Do A Terra É Redonda

1.

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O Fórum Social Mundial (FSM) nasceu como uma iniciativa para se contrapor ao Fórum Econômico de Davos, na Suíça, que reúne governantes e empresários, representantes da elite dominante no mundo e seu catecismo neoliberal. A primeira reunião do Fórum Social Mundial foi realizada em Porto Alegre, no ano de 2001, e contou com a participação de ONGs e movimentos sociais de várias partes do mundo, num total de 20 mil pessoas, de 117 países.

Depois do notável sucesso das reuniões em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial começou a sofrer um processo de esvaziamento. As reuniões posteriores do Fórum Social Mundial, realizadas em diversos países, não tiveram o mesmo sucesso, e sua principal palavra de ordem “Um outro mundo é possível” começou a se enfraquecer, e a nova categoria política surgida nas reuniões iniciais do Fórum Social Mundial, o “altermondismo”, começou a perder força.

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O excelente artigo de Mario Osava, publicado no portal Fórum 21, sob o título “Destacada agenda da diversidade, o Fórum Social Mundial busca se revitalizar” mostra os locais e datas das reuniões do Fórum Social Mundial, e analisa seu processo de esvaziamento e a tentativa atual de revitalização.

2.

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Gostaria aqui de discutir dois fatores que, a meu ver, ajudam a explicar o processo de esvaziamento do Fórum Social Mundial, que guarda certa semelhança com o esvaziamento sofrido pelos partidos políticos junto à população em geral. Em primeiro lugar, já houve quem afirmasse que o Fórum Social Mundial não atualizou sua agenda, ficou preso a uma agenda tradicional da esquerda que não entusiasma a juventude e perdeu apoio na classe trabalhadora. Um bom exemplo é a agenda identitária que surgiu de forma isolada, isto é, a defesa dos direitos das mulheres, dos negros, dos homossexuais, dos povos indígenas, não se articulou num projeto que unificasse essas legítimas lutas por direitos num programa político.

Pior ainda, muitos setores da esquerda rejeitaram essas lutas porque desviariam o foco da luta de classes, e com isso se isolaram das lutas concretas do movimento feminista, negro, homossexual e indígenas. Num país de origem escravocrata, paternalista, machista, colonial, rejeitar essas lutas em nome de um dogma político só poderia mesmo levar à perda de apoio sofrida pelos partidos e entidades. Com isso, as lutas chamadas pejorativamente de “identitárias” permaneceram isoladas entre si e afastadas das lideranças políticas tradicionais, sejam partidárias ou de entidades.

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Outro exemplo é a recusa em priorizar a questão ecológica como fundamental numa agenda política para o século XXI.  A impressão é que as lideranças políticas de partidos e entidades – com exceções, é claro – engoliram a questão ambiental de má vontade, sem articular com o núcleo central de suas preocupações políticas. O conceito de sustentabilidade traz em si uma dimensão política, social, econômica e cultural, além da dimensão ambiental, mas o termo sustentabilidade, quando usado, é geralmente utilizado apenas como enfeite retórico.

O segundo fator que explicaria o esvaziamento do Fórum Social Mundial diz respeito a uma decisão de seus fundadores que definiram o caráter não decisório do Fórum. As decisões caberiam aos grupos, partidos e movimentos participantes do Fórum Social Mundial, mas sua direção não deveria tomar nenhuma decisão. Isso teve a grande vantagem de evitar luta interna e eventuais dissidências, mas, a médio e longo prazo, contribuiu para o esvaziamento do Fórum Social Mundial.

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Uma entidade que abre espaço para discussões, mas não decide nada, perde atração e não mobiliza organizações e movimentos que, além das discussões, querem agir, unindo teoria à prática. E agir em função das prioridades e metas que escolheram, nem sempre priorizadas pela direção do Fórum Social Mundial. Isso exige um trabalho constante e necessário de costura política.

Na agenda “altermondista” internacional, um bom exemplo é a denúncia do tamanho do gasto militar no mundo em 2023, o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Os EUA, sozinhos, foram responsáveis por 41% de toda a despesa militar mundial. A Rússia gastou um terço do seu orçamento com gastos de defesa (G1, 15/2/2024). E o Relógio do Juízo Final, criado para alertar sobre a destruição da humanidade por uma guerra nuclear, passou de 7 minutos para meia noite, quando foi criado, para os atuais 90 segundos para meia noite, que seria o cataclisma. Mas esses perigos são vistos como algo distante, assim como o risco de destruição da humanidade pela devastação dos recursos naturais e pelas mudanças climáticas que há décadas vêm sendo denunciadas pelos cientistas e ambientalistas de todo o mundo.

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O novo encontro do Fórum Social Mundial em Katmandu, no Nepal, de 15 a 19/2/2024, pretende retomar e renovar a energia que no passado moveu os altermondistas no sentido de articular internacionalmente um projeto político baseado na esperança de que “outro mundo é possível”.

Com o enfraquecimento, em muitos países, do neoliberalismo, cujo fracasso não pode mais ser escamoteado, e com muitos Estados debilitados por décadas de ofensiva neoliberal, abre-se espaço para uma atuação mais enérgica e efetiva da sociedade civil, empunhando suas antigas bandeiras de cidadania mundial. Um exemplo importante foi a mobilização, em todo o mundo, da sociedade civil contra o genocídio dos palestinos pelo Governo de Israel.

O Fórum Social Mundial tem pela frente um espaço a ocupar, batalhas a serem travadas, combates que requerem lideranças dinâmicas, com agendas atualizadas, e não mais apenas um fórum que recusa a ação política em nome do debate.

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