Fotografia: a melancólica fauna urbana de Maneco Magnesio

"A difícil e fascinante arte de bisbilhotar pessoas desconhecidas com a câmera –e às vezes ter que fugir correndo delas", escreve a jornalista Cynara Menezes, ao analisar a obra do fotógrafo Maneco Magnesio

"É um grito que se espalha / É uma dor canalha" (São Paulo, 2019)
"É um grito que se espalha / É uma dor canalha" (São Paulo, 2019) (Foto: Maneco Magnesio)

Por Cynara Menezes, no Socialista Morena e para o Jornalistas pela Democracia

“Clique e fuja”. O fotógrafo Maneco Magnesio aplica a máxima do ídolo Henri Cartier-Bresson no trabalho que faz pelas ruas de São Paulo (ou de Salvador, durante as férias). Há sete anos, Maneco, manauara de nascimento, criado na Bahia e residente na capital paulista há 16 anos, começou a fotografar ao acaso os personagens anônimos da metrópole –que nem sempre aceitam de bom grado serem alvos da bisbilhoteira lente sobre suas vidas.

"Também morre que atira…” (São Paulo, 2019)

“No começo essa questão de pedir autorização me tirava o sono. Era um dilema: ‘peço ou não peço? É ético ou antiético fotografar sem pedir? Eu posso ser processado ou não?'”, conta o fotógrafo. “Acontece que a legislação brasileira me protege como artista e me permite fotografar em ruas e espaços públicos. Eu não preciso pedir autorização para fotografar, tenho liberdade para isso amparado pela lei, só preciso pedir autorização se for usar as fotos para uma publicação que tenha fins comerciais. Para um fotolivro, por exemplo, que não tenha nenhuma função social, que não vá ser doado e não tenha sido criado com o intuito de livro didático, tenho que pedir permissão.”

Bossa Nostra (São Paulo, 2019)

“Sabendo disso, tomei uma decisão, meio radical para muitos: decidi que não vou pedir permissão. Fotografo e sigo em frente. Muita gente leva de boa, a maioria não percebe que está sendo fotografada, e eu procuro ser o mais discreto possível. Mas tenho certeza que, se eu pedir permissão, nunca mais vou conseguir a espontaneidade que quero para a cena. E, para mim, perder isso é muito pior do que levar um processo. Até porque um processo implica em diversas outras questões, e nem todo mundo está a fim de entrar nessa.”

"Me deixe mudo..." (São Paulo, 2019)

Em maio deste ano, flanando pela avenida Paulista, Maneco se deparou com uma manifestação de bolsominions e fez o clique de dois deles com um eloquente desenho de Laerte num cartaz ao fundo, compartilhado inúmeras vezes por ele e outros perfis nas redes sociais. No dia seguinte, de cedo, recebeu no facebook a mensagem de uma mulher que se apresentou como advogada, ameaçando-o de processo pela divulgação da foto, tomada em plena rua. “Falei que não ia tirar do ar, que a foto tinha cunho jornalístico e eu tinha o direito de publicar. Ela não falou mais nada.”

Mas, apesar de ter bombado, a foto dos bolsominions diz muito pouco sobre o trabalho sensível de Maneco como observador de cenas de rua. Seus flagrantes capturam o olhar melancólico das pessoas mais simples, moradores de rua, estudantes, trabalhadores e aposentados que andam de ônibus, metrô ou simplesmente caminham apressadas. São rostos sem nome, sem explicação. Para onde vão? De onde vêm? Adivinhamos apenas cansaço em seus olhares e certo ar de desassossego em relação ao presente e ao futuro. Será impressão apenas?

“Ando tão à flor da pele, qualquer beijo de novela me faz chorar…” (SÃO PAULO, 2019)

“Acho que tento pegar os olhares que trazem essa melancolia”, diz Maneco, que antes de começar a fazer essa garimpagem de personagens urbanos nunca havia fotografado. “Sempre desenhei, estudei desenho e plástica na UFBA. Desde os 12 anos de idade eu desenhava, gostava de cartoon, quadrinhos, Laerte, Angeli… Foi em 2012 que tive o primeiro celular com uma câmera decente, logo quando perdi meu pai. Estava bem deprimido e meio sem trabalho, já era designer freelancer e fui brincando com a câmera do celular, fotografando qualquer coisa que me chamasse a atenção… Insetos, flores, raiz de árvore”, ele conta.

"Vestígios do dia" (São Paulo, 2018)

“Em 2012, estava de férias em Salvador, tinha acabado de ler O Direito a Preguiça do Paul Lafargue, que você tinha indicado no blog, e fiquei interessado no trabalho que as pessoas faziam enquanto outras descansavam, como na praia, por exemplo. Resolvi usar a câmera do celular para fotografar os trabalhadores da praia de Stella-Maris, onde costumo ficar. Aí começou a vontade de fotografar, ainda bem tímida, mas que foi crescendo aos poucos.”

“Eu não vou sucumbir/ Avisa na hora que tremer o chão…” (SÃO PAULO, 2019)

Dois anos depois, Maneco passou do celular para uma Pentax digital, que ganhou de presente da cunhada, mas ainda sem muita noção de como utilizá-la. “Tomei vergonha na cara e fui estudar para aprender a manusear o equipamento. Em 2015, fiz um curso no MAM-SP com o Marcelo Vitorino, para iniciantes. A ideia era aprender a mexer na câmera e entender como funcionava luz natural, luz artificial… Um pouco de tudo. Aprendi essa parte, mas o que mais me chamou a atenção foram os fotógrafos que conheci durante o semestre. Eu que mal conhecia de nome o Cartier-Bresson, fui ter contato com a obra dele, do Ernst Haas, André Kertész, James Natcheway, Robert Capa…Isso me mostrou as possibilidades que uma câmera simples, básica, poderia me dar. E a cabeça fez BUM!”

“Se a gente já não sabe mais/ Rir um do outro, meu bem/ Então o que resta é chorar…” (SÃO PAULO, 2019)

Depois de algum tempo, fotografar virou uma necessidade, uma mania, uma obsessão. “Onde quer que eu estivesse, observava tudo e quando algo me chamava a atenção sacava a câmera e click! Como sempre usei transporte público e caminho muito pela cidade, detesto carro, foi fácil juntar as duas coisas. A ideia que a fotografia de rua carrega do ‘flanar’, essa coisa de ficar de bobeira, caminhando, deixando a fotografia te levar de um lugar para outro, é fascinante, e é exatamente isso que eu faço. Saio num ponto da cidade, muitas vezes para resolver algo, sempre com a câmera a tiracolo, aí vou seguindo o que me interessa. Quando vejo, rodei uns quilômetros a pé, e já tô com umas 500 fotos na câmera.”

O fotógrafo com sua câmera

A câmera começou a virar uma companhia diária para o designer convertido em fotógrafo. “Inicialmente eu achava que o celular era mais discreto que a câmera, mas isso se inverteu, hoje em dia sinto que a câmera chama menos a atenção que o celular. No início de 2018 decidi que ia só usar a câmera. Foi a melhor decisão que eu tomei. O resultado que obtenho com a câmera é muito superior ao que conseguiria com o celular”, diz. “Andar pela cidade com a câmera, fotografando, é um exercício ótimo. É uma forma muito mais rica de conhecer a cidade. E uma cidade como São Paulo, por exemplo, que tem dezenas de regiões completamente diferentes umas das outras, parece que eu tô atravessando várias cidades em uma.”

“Enquanto o mundo explode…” (São Paulo, 2019)

De vez em quando, algum fotografado se exalta e parte para cima dele. É aí que entra em ação a máxima de Cartier-Bresson. “Não é que aconteça todo dia, nem toda semana. Mas acontece com uma frequência –indesejada. Geralmente é quando relaxo demais e deixo que percebam que estou fotografando ou fotografo um desses caras metidos a machão, que são os piores. Simplesmente chegam já partindo pra porrada.”

“Eu geralmente levo muito numa boa quando uma pessoa se sente incomodada e pede, com educação, para apagar uma foto ou para não compartilhar, mas quando chega na arrogância ou na pancadaria eu encaro e não apago e ainda faço questão de publicar. Acho que é por isso que já levei banho de açaí, quase me espancaram umas 5 vezes, e fui encurralado dentro de um shopping outro dia! Mas continuo seguindo o Cartier-Bresson: ‘clique e fuja’. Melhor regra!”

Para conhecer mais do trabalho de Maneco Magnesio, acompanhe seu perfil no instagram ou no flickr. Ele também tem uma loja virtual em parceria com a fotógrafa Holanda Cavalcanti.

Ao vivo na TV 247 Youtube 247