Fracasso anunciado, sucesso previsto
Tarifas de Trump contrastam com avanço planejado da neoindustrialização brasileira e seus resultados positivos
A “política industrial” de Trump consiste na mera imposição aleatória, frequentemente politicamente motivada, de tarifas de importação altíssimas, como fez, em um passado muito distante e em circunstâncias muito diferentes, o presidente McKinley.
Trump prometeu que esses tarifaços irracionais, que se parecem muito mais com sanções comerciais do que com qualquer outra coisa, criariam uma avassaladora onda de criação de empregos.
Pois bem, passado pouco mais de um ano do Liberation Day, o dia do grande tarifaço inicial, o número de empregos na indústria manufatureira diminuiu no período, com 98 mil vagas a menos em comparação com o ano anterior, segundo os dados mais recentes do Departamento do Trabalho dos EUA.
Há 29,9 mil empregos a menos na indústria automobilística e 18 mil a menos na indústria madeireira, ambos setores que o presidente tentou proteger com barreiras comerciais.
O setor de transporte e armazenagem, por sua vez, perdeu quase 130 mil empregos no mesmo período.
Além disso, as novas tarifas mais altas sobre aço e alumínio dificultaram a construção de fábricas.
A taxa de contratação do setor de construção, que geralmente reflete a confiança nas perspectivas econômicas, está mais baixa agora do que no início da pandemia de Covid-19.
As próprias montadoras norte-americanas estão protestando e apontando para o fato de que esses acordos tarifários tornaram mais barato produzir carros no exterior do que na América do Norte, região na qual as montadoras estadunidenses dependem muito de peças e mão de obra do Canadá e do México. Trump teve um efeito disruptivo nessa cadeia regional, que antes funcionava bem.
O grande problema da “política” de Trump é tal efeito disruptivo e a incerteza que ela causa. Não há qualquer planejamento ou estudo técnico sério para estabelecer as tarifas mais adequadas, de acordo com as necessidades específicas.
Ademais, o “vai e vem” político de Trump só piora o quadro. Por tal razão, as empresas estadunidenses que estabeleceram suas bases físicas no exterior não “estão voltando”, como se esperava. O “reshoring” está fracassando.
E o pior é que esses tarifaços irracionais estão aumentando os custos para os consumidores, provocando queda de popularidade do governo. Trump definha rapidamente. Isola-se externa e internamente.
Política industrial não se improvisa e não pode se basear em “tarifaços”, principalmente quando esses “tarifaços” obedecem a uma lógica perversa de punição geopolítica e não a uma lógica virtuosa de cooperação econômica racional.
As relações políticas e econômicas entre os Estados não podem ser vistas, como faz obtusamente o governo Trump, como um jogo de soma zero.
Em contraste, o Brasil, com o BNDES, tem hoje uma política de neoindustrialização cuidadosamente planejada e calibrada.
Os resultados estão aparecendo.
Já em 2023, a indústria de transformação gerou 241,8 mil empregos e contribuiu para a abertura de mais de 30 mil empresas.
Em 2024, a indústria foi responsável por 76% do aumento de vagas formais de trabalho, conforme dados do FGV Ibre.
Em 2025, embora tenha havido uma desaceleração na geração de empregos em relação ao ano anterior, a indústria brasileira gerou 144.319 empregos formais, integrando um saldo positivo total de 1,27 milhão de vagas no país.
Mencione-se que o Brasil registrou um recorde histórico no estoque de empregos formais, atingindo 49,09 milhões de vínculos ativos no final de 2025, o maior nível registrado na série histórica do Novo Caged, iniciada em 2020.
A tendência de longo prazo, com essa política e com a diminuição das taxas de juros a níveis razoáveis, é que a indústria brasileira se torne, cada vez mais, um setor bastante dinâmico, gerando postos de trabalho de qualidade e portadores de futuro.
Observe-se que o Brasil está fazendo isso tudo sem “tarifaços” irracionais. Ao contrário, o Brasil está investindo em maior cooperação econômica e em diversificação das parcerias estratégicas.
Por isso, no ano passado (2025), o Brasil fechou o período com um recorde histórico de US$ 349 bilhões em exportações totais, apesar dos tarifaços trumpistas.
Neste primeiro trimestre de 2026, batemos um novo recorde. Exportamos mais US$ 82 bilhões em bens para o exterior, o maior valor exportado em apenas três meses.
Fechamos, juntamente com nossos parceiros do Mercosul, um acordo de livre comércio com a UE, um dos maiores do mundo. Também concluímos um acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e estamos negociando celeremente um acordo Mercosul/Canadá, o vizinho humilhado por Trump.
Enfatize-se que, em todas essas negociações, asseguramos e asseguraremos salvaguardas para proteger nossa produção e nossos empregos.
Não demonizamos o livre comércio e a cooperação econômica, como faz hoje Trump, o McKinley do século XXI, mas também não acreditamos que a simples e acrítica abertura dos mercados tenha o condão de assegurar automaticamente o desenvolvimento, como se argumentava na época em que o neoliberalismo, essa ideologia obsoleta e fracassada, ainda era levado a sério.
O Brasil tem um governo sério e competente, muito distinto do de Trump, que sabe ler o cenário externo e as grandes tendências geopolíticas e geoeconômicas mundiais. Sabe como se colocar no mundo, respeitando sempre o multilateralismo e adaptando-se, com inteligência, ao novo cenário da multipolaridade crescente.
Estamos no rumo certo, do qual só poderemos ser desviados caso os vassalos internos de Trump, os vira-latas que aplaudem e apoiam a destrutiva hegemonia predatória dos EUA, cheguem ao poder, com o auxílio das poderosas Big Techs estadunidenses, que dominam o mundo antidemocrático da “pós-verdade”.
Entretanto, contra essa perspectiva trágica, o Brasil tem um “Big Povo”, que abomina traidores e vassalos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



