Fraude e décadence sob o sol de satã

No Estado atual brasileiro, pós-fraude democrática de 2016, não faltam direitistas do tipo Bolsonaro, Dória, Aécio, Cunha, Temer, Pastores Silas Malafaia, Everaldo, Feliciano, Crivella, todos, juntos e misturados em guetos decadentes da fé; de outro lado, os esquerdistas ateus niilistas ressentidos e os cristãos da mesma ordem

No Estado atual brasileiro, pós-fraude democrática de 2016, não faltam direitistas do tipo Bolsonaro, Dória, Aécio, Cunha, Temer, Pastores Silas Malafaia, Everaldo, Feliciano, Crivella, todos, juntos e misturados em guetos decadentes da fé; de outro lado, os esquerdistas ateus niilistas ressentidos e os cristãos da mesma ordem
No Estado atual brasileiro, pós-fraude democrática de 2016, não faltam direitistas do tipo Bolsonaro, Dória, Aécio, Cunha, Temer, Pastores Silas Malafaia, Everaldo, Feliciano, Crivella, todos, juntos e misturados em guetos decadentes da fé; de outro lado, os esquerdistas ateus niilistas ressentidos e os cristãos da mesma ordem (Foto: Cássio Vilela Prado)

É com certa parcimônia – mas nem tanto, pois assim seria eu também um hipócrita midiático-estandarte – que discorro brevemente sobre aquilo que percebo no discurso religioso alegórico epidêmico vistos nos curtos clichês de pseudo-irmandade da maioria da população brasileira, sob o atual sol de Satã[1].

Não me lembro mais onde li em Nietzsche que o único e verdadeiro cristão foi Jesus Cristo, talvez aqui: “A palavra 'Cristianismo' é um equívoco - no fundo existiu somente um único cristão e esse morreu na cruz. O 'Evangelho' morreu na cruz. [Nietzsche, O Anticristo, § 39. °]”[2].

Dito isso, preliminarmente, eu não me canso de perceber, dia a dia, simbólica e virtualmente, as mais variadas manifestações retóricas de curtos clichês verbais dos tipos: “Jesus te ama”; “Aleluia”; “Fica com Deus”; “Com Deus também” ... Todos eles também não deixam de soar, ao bom ouvinte natural com tendências menos cristãs celestiais e mais terráqueas budistas – portanto, o budismo (a única religião genuinamente positiva que pode ser encontrada na História, e isso se aplica até mesmo à sua epistemologia, que é um fenomenalismo estrito)  é “mais austero, mais honesto e mais objetivo”[3] – como um ‘vá se ferrar. Tchau. A-deus’. Clichês repetitivos enfadonhos (desculpem-se pelo pleonasmo deveras tautológico), além de hipócritas, nada mais são que uma ‘solene’ fuga da realidade mundana e um ‘elegante’ despacho do ‘próximo’

Se desejar se despedir de um ‘cristão chato’, pessoalmente ou celularmente, diga: “Então tá bom, Deus te abençoe” ... Embora ‘cristão’ e também ‘chato’, evidentemente, caso tenha ainda um mínimo de ‘desconfiômetro’ racional terrestre, logo perceberá que o seu ‘irmão de fé’ já está cansado...

Os atributos principais do cristianismo, segundo Nietzsche, são eles: “fé, caridade e esperança”[4]. no delírio, caridade para com o próximo e esperança no mundo extraterrestre. Todos esses atributos nietzschianos adstritos à esfera do ego individual como discurso da salvação assentados na “inocente retórica do reino da idiossincrasia moral-religiosa” que se “mostra muito menos inocente quando se percebe a tendência que oculta sob palavras sublimes: a tendência à destruição da vida”[5].

Desde a mais remota civilização, a décadence já estava lá, os inimigos da vida já eram subsumidos a uma ordem sobrenatural. Lançam a vida aqui na Terra às trevas de um místico além. Grandes rebanhos domesticados por gurus, magos, pastores e padres de todas as estirpes: “(...) Enquanto o padre, esse negador, caluniador e envenenador da vida por profissão for aceito como uma variedade de homem superior, não poderá haver resposta à pergunta: Que é verdade? (1) A verdade já foi posta de cabeça para baixo quando o advogado do nada foi confundido com o representante da verdade”[6].

Ainda com Nietzsche:

“Todo aquele possui sangue teológico em suas veias é cínico e desonrado em todas as coisas. Ao pathos(1) que se desenvolve dessa condição denomina-se fé: em outras palavras, fechar os olhos ante si mesmo de uma vez por todas para evitar o sofrimento causado pela visão de uma falsidade incurável. As pessoas constroem um conceito de moral, de virtude, de santidade a partir dessa falsa perspectiva das coisas; fundamentam a boa consciência sobre uma visão falseada; após terem-na tornado sacrossanta com os nomes “Deus”, “salvação” e “eternidade” não aceitam mais que qualquer outro tipo de visão possa ter valor. Descubro este instinto teológico em todas as direções: é a mais disseminada e mais subterrânea forma de falsidade que se pode encontrar na Terra”[7].

No Estado atual brasileiro, pós-fraude democrática de 2016, não faltam direitistas do tipo Bolsonaro, Dória, Aécio, Cunha, Temer, Pastores Silas Malafaia, Everaldo, Feliciano, Crivella, todos, juntos e misturados em guetos decadentes da fé; de outro lado, os esquerdistas ateus niilistas ressentidos e os cristãos da mesma ordem. Contudo, todos eles, direitistas e esquerdistas, adoradores de deuses: os primeiros do Deus mau, os segundos do Deus bom. Portanto, todos inimigos da vida plena aqui na Terra Brasil.

Nunca foi possível governar sem envenenar os rebanhos, tornando-os dóceis, embora brutos.

Assim assiste-se à degradação moral e material do país, no máximo com lançamentos de ovos nos ignóbeis.

Marx tinha a caneta, mas não pegou na foice revolucionária. Cristo, entretanto, não tinha a caneta e fez de si mesmo, em corpo e espírito, a sua foice revolucionária.

Cristo, porém, com Nietzsche e contra Nietzsche, foi o único cristão verdadeiro. Todo o resto é tudo humanidade niilista.

Enfim: “conta-se o tempo a partir dos dies nefastus (2) em que essa fatalidade começou – o primeiro dia do cristianismo – Por que não contá-lo a partir do seu último dia? – A partir de hoje? – Transmutação de todos os valores! ...”.

O céu brasileiro ainda está iluminado por satã, esse deus do mal....

Até quando?

 



[1] BERNANOS, George - Sous le soleil de Satan (Tradução: Sob o Sol de Satã) – Editora Plon, 1926 (original). Também em versão para o cinema (legendas em português). Baixar o filme:

http://baixandonafaixa.blogspot.com.br/2014/02/filme-sob-o-sol-de-sata-sous-le-soleil.html

[2] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm – O Anticristo: Ensaio de uma crítica do cristianismo (1895) – Versão para eBook, eBooksBrasil.com, Fonte Digital www.ateus.net/, 2002, p. 86.

http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/anticristo.pdf

[3] Idem, p. 48.

[4] Ibidem.

[5] Ibidem, p.16.

[6] Ibidem, p.18.

[7] Ibidem, p.20.

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