Fundos financeiros seguem ampliando patrimônio líquido no Brasil, a despeito das crises e pandemia

Em março, apesar das ameaças da pandemia, o patrimônio dos fundos de investimentos se manteve resiliente e equilibrado entre novas captações e saídas de dinheiro



Nesta sexta-feira (03/07) à tarde, a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) divulgou as estatísticas sobre a movimentação dos fundos financeiros no Brasil em junho, fechando o 1º semestre de 2020.

Portanto, um momento adequado para se observar o movimento dos investidores nos fundos financeiros, neste período tão conturbado de um somatório de crises que se superpõem. Crise econômica, social e política que eram anteriores à crise sanitária-pandêmica que explode a partir de março.

Em março, apesar das ameaças da pandemia, das quedas no mercado de ações no Brasil e do fechamento de atividades econômicas, o patrimônio dos fundos de investimentos se manteve resiliente e equilibrado entre novas captações e saídas de dinheiro. Nos meses seguintes de abril e maio, ainda se seguiram pequenas quedas no patrimônio total dos diversos tipos de fundos de investimentos.

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Já no mês de junho, se observou um aumento de 2,14% no patrimônio líquido total dos fundos de investimentos em relação ao mês anterior, subindo de um valor R$ 5,330 trilhões no final de maio, para R$ 5,444 trilhões no dia 30 de junho, final do 1º semestre de 2020. Valor que já voltou a ser maior que o valor do patrimônio líquido total do fundo no final do ano de 2019, quando chegou a R$ 5,427 trilhões.

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Nos últimos dois anos e meio, apesar da grave crise econômica pela qual passa o Brasil, o valor total do patrimônio líquido dos fundos financeiros cresceu 21,6%, saindo de R$ 4,476 trilhões para R$ 5,444 trilhões, equivalentes a cerca de 80% do PIB do país. Sim, 4/5 da riqueza material do Brasil.

De certa forma, esse movimento no patrimônio dos fundos financeiros reflete, mesmo que em parte, a enorme liquidez na economia após a injeção de R$ 1,1 trilhões do BC em direção aos bancos e que não chega a quem precisa na ponta, os pequenos e médios empresários. Confira abaixo esses dados tabulados do patrimônio líquidos dos fundos financeiros, a partir das informações da Anbima.

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O Brasil possui atualmente (em 2020), um universo de 658 gestoras que controlam os milhares de fundos de investimentos, distribuídos por uma dezenas de tipos diferentes, desde o renda fixa, multimercado, fundos de índices, fundos imobiliários, etc. No final de 2019, um universo de 640 mil pessoas físicas investiam (R$ 67 bilhões) em fundos imobiliários (FII) no Brasil. [1]

Nos últimos trinta dias, as maiores captações neste tipo de investimento ficaram com os fundos de ações com mais R$ 112 bilhões e com os fundos multimercados com mais R$ 79 bilhões. Observando a valorização média entre os fundos de ações por gestoras, se identificam ganhos superiores a 40%, só nesse 1º semestre de 2020, repito, de violenta crise e pressões sobre a economia real.

Os primeiros lugares do ranking das gestoras com maior patrimônio líquido no Brasil se mantém há algum tempo, mas sempre ampliando os valores de cada uma delas. A soma do patrimônio das seis maiores gestoras equivalem a R$$ 3.034,8 trilhões, ou 56% do patrimônio líquido de todas as gestoras de fundos de investimentos do país, o que demonstra uma concentração similar ao do sistema bancário, aliás, exatamente os proprietários destas gestoras.

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A maior gestora de fundos é do Banco do Brasil (BB), que o ministro Paulo Guedes e o atual presente do banco público, dizem que está sendo preparado para ser repassado, no todo ou em partes, para o controle do setor privado.

Só a BBDTVM possui patrimônio de R$ 1,044 trilhão, ou quase 20% do patrimônio de todos os fundos de investimentos do país. O valor do BBDTVM é muito maior que todo o restante do Banco do Brasil. A gestora de fundos de investimento que vem em segundo lugar no ranking é o Itaú Unibanco; depois, na ordem, o Bradesco, Caixa (também pública), Santander e, na sexta posição, o BTG Pactual.

Hipercapitalismo contemporâneo hegemonicamente financeiro 

Estes fatos demonstram, cada vez de forma mais clara, como a gestão e os ganhos financeiros da economia estão desgarrados da economia real, onde a crise, a queda do PIB e o desemprego só aumentam no Brasil. Mas, isso não se dá só no Brasil. Nos EUA, no 1º semestre de 2020, a Bolsa de Valores cresceu 12,1%, a despeito de tudo e todos, inclusive a pandemia. O que reforça a interpretação sobre a realidade que convivemos na atualidade, de um capitalismo hegemonicamente, financeiro, que vampiriza em proporções cada vez maior a renda e os excedentes econômicos da base da pirâmide do capital.  

É ainda importante observar nos patrimônios dos fundos de investimentos mostrados acima, que desde 2019, o Brasil tem visto sair muitos bilhões de dólares, tanto da Bolsa de Valores (B3), quanto dos Fundos de Investimentos, não compensam, os valores do exterior que entraram IED (Investimento Estrangeiro Direto) que em boa parte tem sido utilizado, desde 2016, para a compra das empresas privatizadas a custo de final de feira. O saldo é negativo em mais de uma centena de bilhões de dólares de investidores estrangeiros que continua saindo do Brasil, agora ainda mais pela crise política e pela instabilidade gerada pelo genocídio atual. Na crise, os donos dos dinheiros (investidores) correm para as suas sedes nacionais.

Eu tenho insistido que ainda é pouco percebido o papel dos fundos financeiros no capitalismo contemporâneo e o seu papel no circuito financeiro global. Venho defendendo que é preciso observar melhor seus agentes e os seus movimentos. Aprofundar as informações sobre a forte relação que os fundos financeiros possuem com o mercado de capitais, com a rede não bancária (shadow banking), centros offshore, fundos de pensão e companhias de seguros.

É importante conhecer ainda os vínculos entre os fundos financeiros globais e os nacionais, o que lhes conferem enorme mobilidade transfronteiriça. Além disso, os fundos financeiros ganharam potência, porque se articularam de forma ampla com os poderosos fundos soberanos espalhados por várias partes do mundo. Os fundos financeiros também transitam com enorme facilidade entre os ativos dos diferentes setores da economia (frações do capital) o que conferem ao capital uma hipermobilidade.

Por fim, é ainda importante identificar que com a atual realidade das taxas de juros mais baixas, em todo o mundo, aumenta o papel estratégico para o uso dos fundos de investimentos. Nesta condição de um investimento de renda variável, os fundos com algum risco a mais (não muito) conseguem oferecer uma maior rentabilidade aos donos dos dinheiros. Assim, os fundos e suas gestoras, passaram a controlar - e cada vez mais - também as empresas (ativos) do mundo real. É só observar melhor quem são os donos, sócios e controladores das companhias mais citadas na mídia empresarial e financeira.

Desta forma, os fundos financeiros atuam como instrumentos essenciais e potentes da financeirização, passando a controlar a produção material e o movimento em capital fixo nas corporações e também a valorização fictícia (capitalização) de seus papéis. Assim, conseguem na prática, extrair ainda "mais valia" (renda vampirizada), aumentando as taxas de lucros para aqueles do andar de cima (das altas finanças), enquanto, simultaneamente, precarizam o trabalho e ampliam o controle sobre a propriedade que caracterizam o hipercapitalismo contemporâneo.

Mais sobre o assunto pode ser visto no meu livro “A ‘indústria’ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo”, editado pela Consequência e lançado em 2019 na UERJ, Rio de Janeiro.

Referência:
[1] Postagem no blog em 21 de janeiro de 2020. 640 mil pessoas físicas investem (R$ 67 bilhões) em fundos imobiliários no Brasil. Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2020/01/640-mil-pessoas-fisicas-investem-r-67.html

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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