Future-se ou Submeta-se?

O perfil de Abraham Weintraub está mais para o de um executivo de banco do que de um ministro da Educação. O programa Future-se está mais para um plano de negócios do que uma política de governo para o crescimento das universidades públicas

(Foto: Divulgação)

Os brasileiros que acreditam neste País devem reagir, com urgência. O Brasil é muito maior e mais importante do que a maneira como é tratado pelo governo Bolsonaro. Há em curso um processo, em diversas áreas, para transformar o País em um entreposto comercial e produtor de commodities a serviço do desenvolvimento de outras nações. Numa delas, o ataque é à capacidade brasileira de produzir conhecimento científico, mantendo-se no nível prático da ciência aplicada. O programa Future-se nada mais é que uma proposta para usar toda a estrutura das universidades federais e estaduais, construídas há décadas com o suor e o sangue dos brasileiros, para atender os interesses do mercado privado. A grosso modo, valoriza a ciência aplicada, submetida a uma demanda externa, em detrimento da ciência pura. Em médio e longo prazos, as instituições que produzem 95% do desenvolvimento científico e tecnológico do País, se tornarão laboratórios com mão de obra de altíssima qualificação submetidos criadores de soluções tecnológicas para empresas privadas.

O perfil de Abraham Weintraub está mais para o de um executivo de banco do que de um ministro da Educação. O programa Future-se está mais para um plano de negócios do que uma política de governo para o crescimento das universidades públicas. O programa tornará as faculdades de ciência aplicada completamente dependentes e alienadas à instituições privadas. Segundo o projeto, a medida em que determinada faculdade receba investimentos de uma empresa privada, o Estado fica desobrigado de investir na instituição pública. A instituição privada, em troca do investimento, vai exigir algum produto, ou tecnologia que favoreça a sua produção. Uma faculdade pode estabelecer um contrato específico com uma empresa que deseja criar uma solução tecnológica. Porém, uma das características basilares das universidades, o pensamento crítico, vai de encontro às visões de curto e curtíssimo prazos da maioria do empresariado brasileiro, cujo lucro é a mola propulsora de seu passo. As empresas podiam investir o Future-se nas universidades privadas, sem a necessidade de passar pelo crivo do Congresso Nacional. Porém, não o fazem por um simples motivo, as privadas não têm a estrutura já criada pelas universidades públicas.

O avanço suicida da ciência aplicada será acompanhado do alijamento da ciência pura do processo do pensamento científico brasileiro. As empresas dificilmente investirão no desenvolvimento de faculdades de Filosofia, Sociologia, Antropologia, Arte, Administração, Economia. A ciência que produz o avanço do conhecimento da humanidade e dá sentido ao desenvolvimento acadêmico e tecnológico ficará em segundo plano. Essas ciências tiveram estrutural contribuição para o professor almirante Othon Silva poder desenvolver uma maneira própria de enriquecer urânio e tornar o Brasil independente de tecnologias de outros países. Elas são as ciências da criatividade e da criticidade, as que fazem o ser humano, há mais de seis milhões de anos, usar dos poderes cerebral e mental de criar e desenvolver tecnologia para vencer a natureza. O Future-se é o morticínio das ciências que, ao longo de décadas, fizeram da Petrobras campeã mundial em prospecção e exploração de petróleo em águas ultra profundas. Foi a necessidade de ultrapassar uma gigantesca barreira natural, própria desta região, que fez os cientistas brasileiros construírem as tecnologias para alcançar nossa maior reserva de petróleo.

Isso tem um sentido. Um país cujo governo está se esforçando para transformá-lo em uma gigantesca fazenda e quintal não necessita desenvolver ciência e tecnologia. Isso é para quem tem coragem. O Future-se é uma maneira muito eficaz de destruir a capacidade criadora dos cientistas brasileiros e promover todas as condições para facilitar a vida do governo dos EUA, que é um dos maiores importadores de cérebros do mundo. Somente governos altivos e soberanos, como os de Getúlio Vargas, Lula e Dilma defenderam as capacidades humana e tecnológica do Brasil, como patrimônio da nação. Esse programa deveria se chamar Submeta-se. A proposta é extremamente deletéria para o conjunto da sociedade brasileira. É vital que as pessoas comprometidas com este País se levantem contra esse acinte cujo único resultado será a condução do Brasil ao século 18.

É muito grave o que está acontecendo, o país que tem uma das mais desenvolvidas petroleiras do mundo, construiu um acelerador de partículas, desenvolveu uma maneira própria de enriquecer urânio, foi líder mundial em tecnologia de construção de hidrelétrica está sendo condenado a montador de tecnologia desenvolvida em outras nações. Reação ou atraso. O Brasil está fazendo o caminho que o México fez, em meados da década de 1960, com as empresas maquiladoras. A indústria americana, a poucos quilômetros do México, passou a transferiu o seu parque de produção para um país onde não recolhia imposto e pagava salários quatro vezes menores que os observados nos EUA. O Future-se é o embrião da transformação da indústria brasileira maquiladora de outros países e isso fere de morte a capacidade brasileira de se desenvolver. A reação é a única maneira de impedir mais esse prejuízo. A recuperação de um atraso estrutural dessa dimensão é demorada, cara e, quem mais vai pagar por ela é a classe trabalhadora, que se verá ainda mais alienada dentro da cadeia de produção.

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