G7: a desesperada busca por relevância

Três Cúpulas uma atrás da outra - G-7, OTAN e Estados Unidos-União Europeia – irão preparar o terreno para a tão esperada história de suspense: a cúpula Putin-Biden em Genebra – que certamente não será um reset

(Foto: Reuters)
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Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

A cúpula do G-7 que em breve terá lugar na Cornualha pode, à primeira vista, parecer um bizarro encontro da "A América está de Volta" com a "Grã-Bretanha Global".

O Grande Panorama, entretanto, é muito mais complicado. Três Cúpulas uma atrás da outra - G-7, OTAN e Estados Unidos-União Europeia – irão preparar o terreno para a tão esperada história de suspense: a cúpula Putin-Biden em Genebra – que certamente não será um reset.   

Os interesses que controlam o holograma  "Joe Biden" têm uma vasta e clara agenda: arregimentar as democracias industrializadas - principalmente as da Europa - e mantê-las em fileira cerrada para combater as ameaças "autoritárias" à segurança nacional dos Estados Unidos: as malignas Rússia e China.

É como se fosse uma regressão àqueles dias - ah, tão estáveis - da Guerra Fria da década de 1970, com James Bond lutando contra demônios estrangeiros e o Deep Purple subvertendo o comunismo. Bem, os tempos estão mudando. A China tem perfeito conhecimento de que agora, o Sul Global "responde por quase dois terços da economia global, comparados ao um terço do Ocidente: nos anos 1970, era exatamente o oposto".

Para o Sul Global – ou seja, para a maioria esmagadora do planeta, o G-7 é em grande medida irrelevante. O que importa é o G-20. 

A China, a superpotência econômica em ascensão, acena do Sul Global e é um líder no G-20. Apesar de todos os seus problemas internos, os atores da União Europeia no G-7 – Alemanha, França e Itália – não podem se dar ao luxo de hostilizar Pequim em termos econômicos, comerciais ou de investimentos.  

Um G-7 reinicializado como uma cruzada sinofóbica não vai interessar a ninguém. Incluindo o Japão e outros convidados especiais à reunião da Cornualha: a potência tecnológica da Coreia do Sul, e também a Índia e a África do Sul (ambas membros dos BRICS) a quem se tenta seduzir com a cenoura pendurada da possibilidade de extensão de sua condição de membro.     

A iniciativa de Washington - uma mistura de pensamento desejoso e ofensiva de Relações Públicas - se resume a vender a si mesmo como o primus inter pares do Ocidente, um líder global revitalizado. A razão de o Sul Global não estar comprando a ideia pode ser observada, de forma evidente, naquilo que vem acontecendo nos últimos oito anos. O G-7 – e principalmente os norte-americanos - simplesmente não conseguiram reagir à estratégia de desenvolvimento e comércio de abrangência pan-eurasiana, a Iniciativa Cinturão e Rota (ICR). 

A "estratégia" norte-americana, até o momento – demonização 24/7 da ICR , acusando-a de ser uma "cilada de endividamento" e uma máquina de "trabalhos forçados" – não colou. Agora -  pouco demais, tarde demais - aparece um esquema do G-7 que inclúi o apoio, pelo menos em tese, de "parceiros" como a Índia para a formulação de vagos "projetos de alta qualidade" por todo o Sul Global: a Iniciativa Verde e Limpa, focada no desenvolvimento sustentável e na transição verde, a serem discutidos tanto no G-7 quanto nas cúpulas Estados Unidos-União Europeia.

Comparada à ICR, a Iniciativa Verde e Limpa não chega a se qualificar como uma estratégia geopolítica e geoeconômica coerente. A ICR conta com o endosso e a parceria de mais de 150 estados-nação e organismos internacionais - inclusive mais da metade dos 27 membros da União Europeia. 

Fatos concretos contam a história. A China e a ASEAN estão prestes a firmar um acordo de "parceria estratégica ampla". O comércio entre a China e os Países da Europa Central e Oriental (CCEC, em inglês), também conhecido como o grupo 17 + 1, que inclui 12 países membros da União Europeia, continua a crescer. A Rota da Seda Digital, a Rota da Seda Sanitária e a Rota da Seda Polar continuam a avançar.

Tudo o que resta ao Ocidente, portanto, são resmungos barulhentos sobre vagos investimentos em tecnologia digital - talvez financiados pelo Banco Europeu de Investimentos, com sede em Luxemburgo - para impedir o "avanço autoritário" da China no Sul Global. 

A cúpula União Europeia-Estados Unidos talvez anuncie a criação de um "Conselho de Comércio e Tecnologia" para coordenar políticas sobre 5G, semicondutores, cadeias de fornecimento, controles sobre a exportação e regras e padrões tecnológicos. Um discreto lembrete: o bloco União Europeia-Estados Unidos simplesmente não controla esse complexo ambiente. Ele depende fortemente da Coreia do Sul, de Taiwan e do Japão. 

Calma aí, Sr. Coletor de Impostos 

Para sermos justos, temos que admitir que o G-7 talvez tenha prestado um serviço de utilidade pública ao mundo inteiro quando seus Ministros das Finanças firmaram um acordo supostamente "histórico" no último sábado, em Londres, sobre um imposto mínimo global de 15% sobre empresas multinacionais. 

O triunfalismo estava na ordem do dia – com louvores sendo infindavelmente cantados à "justiça" e à "solidariedade fiscal", acompanhados de péssimas notícias para os paraísos fiscais.

Bem, é um pouquinho mais complicado. 

Esse imposto vem sendo discutido nos escalões mais elevados da OCDE, em Paris, há mais de uma década – principalmente porque os estados-nação vêm perdendo no mínimo 427 bilhões de dólares ao ano com a  evasão fiscal praticada por empresas multinacionais e por multibilionários de vários outros tipos. Em termos do cenário europeu, isso sequer corresponde às perdas por fraude dos impostos VAT (sobre circulação de mercadorias) - coisa que a Amazon, entre outras, pratica com a maior tranquilidade. 

Não é de surpreender, portanto,  que os Ministros das Finanças do G-7 estejam de olho na Amazon, com seu valor de mercado de 1,6 trilhão de dólares. A divisão de computação em nuvem da Amazon deve ser tratada como uma entidade à parte. Nesse caso, o grupo de megatecnologia terá que pagar mais impostos empresariais em alguns de seus maiores mercados europeus - Alemanha, França, Itália e Reino Unido - se o imposto global de 15% for ratificado.

Então, sim, trata-se principalmente da Big Tech - mestres e especialistas em fraudar o fisco e em se beneficiar de paraísos fiscais localizados até mesmo em território europeu, como Irlanda e Luxemburgo. A forma como a União Europeia foi constituída permitia uma fervilhante competição fiscal entre os estados-nação. Discutir abertamente esse tema continua sendo virtualmente tabu em Bruxelas. Na lista oficial de paraísos fiscais da União Europeia não constam Luxemburgo, Holanda nem Malta.

Então, será que teríamos aqui nada mais que um golpe de Relações Públicas? É possível. O principal problema é que no Conselho Europeu - onde os estados-membros da União Europeia discutem suas questões - eles há muito tempo vêm fazendo corpo mole e meio que delegaram a questão toda para a OCDE.

No presente momento, os detalhes sobre o imposto de 15% ainda são vagos - embora pareça que os Estados Unidos sejam o país que mais irá lucrar, porque suas empresas multinacionais transferiram seus maciços lucros para diversos locais do planeta a fim de evitar os impostos empresariais norte-americanos.

Além disso, ninguém sabe se, quando e como o acordo será aceito e implementado globalmente: o que será uma tarefa sisífica. Pelo menos, o assunto entrará novamente em pauta no G-20 de julho, em Veneza. 

O que a Alemanha quer 

Sem a Alemanha, não teria havido um real avanço no Acordo de Investimentos União Europeia-China, de fins do ano passado. Com o novo governo dos Estados Unidos, o acordo emperra novamente. A chanceler Angela Merkel, em vias de deixar o cargo, é contra o desacoplamento econômico China-União Europeia - e os industriais alemães são da mesma opinião. Vai ser muito divertido assistir a esse enredo secundário no G-7. 

Resumindo: a Alemanha quer continuar a crescer como potência comercial global usando sua grande base industrial, ao passo que os anglo-saxões abandonaram por completo sua base industrial para abraçar uma financialização não-produtiva. E a China, por seu lado, quer fazer comércio com o planeta inteiro. Adivinhem quem vai ficar de fora desse jogo?  

Considerando que o G-7 é, de fato, uma reunião do Hegêmona com suas hienas, chacais e chiuauas, será também muito divertido assistir aos jogos semânticos. Qual grau de "ameaça existencial" será imputado a Pequim - principalmente porque, para os interesses por trás do holograma  "Biden", a verdadeira prioridade é o Indo-Pacífico?

Esses interesses estão se lixando para o desejo da União Europeia por mais autonomia estratégica. Washington sempre anuncia seus ditames sem sequer se dar ao trabalho de consultar previamente Bruxelas.

Portanto, é disso que vai tratar esse Triplo X de cúpulas – G7, OTAN e Estados Unidos-União Europeia: o Hegêmona pisando em todos os freios para conter/atacar o surgimento de uma potência em ascensão, alistando suas satrapias para "lutar" pela preservação da "ordem internacional baseada em regras" formulada por ele mesmo  há mais de sete décadas.

A história nos diz que isso não vai funcionar. Apenas dois exemplos: os impérios francês e britânico não conseguiram conter a ascensão dos Estados Unidos no século XIX; e, melhor ainda, o eixo anglo--americano só conseguiu estancar a ascensão simultânea da Alemanha e do Japão pagando o preço de duas guerras mundiais, onde o Império Britânico foi destruído e a Alemanha agora retorna como a principal potência europeia. 

Esses fato devem conferir ao encontro da "A América está de Volta" com a "Grã-Bretanha Global" o status de uma bizarra nota de rodapé da história contemporânea.

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