Gasolina nas alturas e outros prodígios

A paciência do povo tem limites. Tomemos como exemplo os caminhoneiros. Tão combativos contra a Dilma, corações transbordantes de ódio que lhes fora inoculado, agora atormentados pelos preços da dupla Temer/Parente saem de novo às ruas, desta feita movidos pela razão – sabem que foram enganados e usados como massa de manobra

Paralisação dos caminhoneiros na Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro.Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil
Paralisação dos caminhoneiros na Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro.Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil (Foto: Décio Lima)

O Mercado, que funcionaria como "uma mão invisível" de acordo com a visão deísta de Adam Smith, baseia-se na racionalidade que Weber designou como wertrationalität (racionalidade instrumental, objetiva ou ainda calculista) que fundamenta o individualismo possessivo, o liberalismo econômico e outros tantos ismos. Trata-se de uma lógica que deveria ser contida, mas infelizmente não o foi, por um raciocínio lastreado em valores (éticos, religiosos e até estéticos), correspondendo à racionalidade substantiva (vertrationalität no original em alemão de Max Weber).

Daí que a economia, na modernidade, abandonou seu sentido original de oikos nomos, dimensão que tratava das "normas do lar" ou, em outras palavras, que se relacionava com o atendimento das necessidades básicas e das pequenas alegrias da vida, passando a ser a economia de mercado, onde tudo tem preço, tudo é reduzido à mercadoria e onde o "bom funcionamento da economia" seria o grande desiderato.

Com a lógica excludente do Mercado prevalecendo, o equilíbrio econômico vem preponderando sobre a justiça social e passou a ser o grande objetivo mundo afora. Consequentemente alcançamos grande desenvolvimento econômico, científico e tecnológico, especialmente nos países centrais, em paralelo com a miséria e a pobreza afligindo um terço da população mundial, além de extraordinária agressão à natureza.

Como não poderia deixar de ser o Brasil do pós-golpe "funciona" sob essa perspectiva. Estamos sob um governo neoliberal (caminhando para o anarcoliberalismo) que vem alcançado resultados assombrosos: congelamento indiscriminado de gastos, salário mínimo abaixo da inflação, privatizações, reforma trabalhista, desemprego crescente, aumento da desigualdade, aumento da pobreza e da miséria etc.

Nesse cenário angustiante há um dado merecedor de registro especial, porque afeta o cotidiano da população, impactando diretamente no custo de vida (e da morte) – o preço dos combustíveis reajustado com frequência alarmante. Nos últimos 17 dias foram 11 aumentos.

Mas, indiferente às consequências perversas da sua política de preços dos derivados do petróleo, o Presidente usurpador veio a público explicar:

"Agora, a política de preços realmente, o Pedro Parente, há tempos me disse que é melhor acompanhar os preços internacionais porque isso dá muita segurança jurídica para aqueles que investem na Petrobras e nessa atividade. E este acompanhamento dos preços internacionais, ora tem um aumento, ora uma diminuição. Mas também dá muita credibilidade e segurança jurídica aos investidores".

Para quem o Temer governa? Resta alguma dúvida?

Muito bem (ou muito mal), com essa política de preços o Brasil se destaca com a segunda gasolina mais cara entre os 15 países que mais produzem petróleo no mundo, segundo levantamento da consultoria Air-Inc. Isso apesar do pré-sal, a maior descoberta recente de petróleo.

E o absurdo é tamanho que enquanto castigam a população, fazem a Petrobrás pagar uma indenização de US$ 2,95 bilhões, sem ter sido condenada judicialmente, aos investidores americanos. Esse valor é 6,5 vezes maior do que o dinheiro recuperado pela Operação Lava Jato e devolvido aos cofres da petroleira. Segurança jurídica ou entreguismo vil?

O fato é que, tempos estranhos, grande parte da população submetida a um bombardeio diário e hipnotizador pela grande mídia, permanece como que anestesiada diante dos absurdos patrocinados pela sanha golpista. Nem mesmo a iminência da Copa do Mundo, outrora tão importante para a nossa gente, consegue desmanchar o torpor em que fomos lançados.

Às vezes, contudo, uns poucos flashes trazem à tona alguns fatos recentes. Na questão do preço da gasolina, por exemplo, como um relâmpago perpassando em nossas mentes lembramos que os reajustes nos preços do combustível, em percentuais muito menores que os atuais, foram um dos motores da campanha das mídias conservadoras e dos estamentos apoiadores do golpe.

Entendo que épocas de crise como a brasileira atual representam, por outro lado, uma oportunidade. Como muito bem afirmou o pensador Jessé de Souza, na crise toda legitimação perde "naturalidade" e nesse sentido a figura do brasileiro como homem cordial, nos termos colocados por Sérgio Buarque de Holanda, começa a ser negada.

A paciência do povo tem limites. Tomemos como exemplo os caminhoneiros. Tão combativos contra a Dilma, corações transbordantes de ódio que lhes fora inoculado, agora atormentados pelos preços da dupla Temer/Parente saem de novo às ruas, desta feita movidos pela razão – sabem que foram enganados e usados como massa de manobra.

Ou, em outro flagrante de repulsa popular ao ilegítimo Temer, quando demagogicamente ele tentou emprestar solidariedade às pessoas atingidas por incêndio no Edifício Antônio Godoy, no centro de São Paulo, o povo se manifestou de forma veemente. Temer mal havia decido do carro e foi imediatamente expulso do local sob vaias e protestos.

Mas, além dos aspectos práticos que impactam a vida da Nação, há um outro prejuízo gravíssimo – o golpe fez com que a população descresse, perdesse a confiança não somente nos atores políticos, mas na dimensão da Política.

Por tudo isso, além de desfazer as perversidades concretas do golpe, o grande desafio à nossa frente é recolocar a dimensão política como fundamental (e não a economia) reconhecendo que somos antes de tudo "anthropos physei politikon zoon", na perspectiva de Aristóteles.

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