Gaza, Irã, Cuba e Brasil: a normalização da barbárie
Multiplicam-se os sinais de um mundo em que a violência começa a se tornar rotina política
O ponto de partida do pensamento de nossa época
Há momentos na história em que a humanidade é obrigada a olhar para si mesma e reconhecer que algo fundamental começou a se romper. Gaza tornou-se um desses momentos.
Não apenas pela devastação material ou pelo sofrimento humano que ali se acumula, mas porque o que acontece naquele território revela algo mais profundo: uma transformação inquietante na forma como o mundo reage à violência, à guerra e à destruição de vidas humanas.
Mas Gaza não está sozinha nesse espelho perturbador do nosso tempo. O endurecimento do embargo que há mais de seis décadas pesa sobre Cuba, o assassinato de crianças iranianas soterradas por mísseis e a crescente militarização no entorno do Brasil revelam um fenômeno mais amplo: a progressiva normalização da barbárie na política internacional.
Para o filósofo Vladimir Safatle, Gaza tornou-se o ponto de partida do pensamento político de nossa época.
Safatle sintetiza essa percepção com uma formulação contundente:
“Na verdade, o que faz de Gaza esse ponto de partida do pensamento de nossa época é a conjunção entre quatro processos: repetição, dessensibilização, des-historização e vazio legal.”
Essa síntese ajuda a compreender por que Gaza deixou de ser apenas um território devastado pela guerra. Ela se tornou um espelho do funcionamento político do mundo contemporâneo.
A repetição da violência
O primeiro elemento destacado por Safatle é a repetição.
Gaza tornou-se o cenário de ciclos sucessivos de destruição que se repetem ao longo de décadas. Bombardeios, destruição de infraestrutura civil, deslocamentos massivos de população e crises humanitárias voltam a ocorrer em intervalos cada vez menores.
Quando a violência se repete continuamente, ela deixa de ser percebida como ruptura extraordinária e passa a ser assimilada como parte do funcionamento normal do conflito.
Quando massacres se repetem por tempo suficiente, a barbárie deixa de causar espanto — e começa a ser tratada como parte da ordem do mundo.
É assim que a violência deixa de ser exceção e começa a operar como método.
A dessensibilização moral
O segundo processo apontado por Safatle é a dessensibilização.
A repetição constante da violência produz uma erosão progressiva da capacidade coletiva de indignação.
Imagens de cidades devastadas, hospitais destruídos e crianças mortas passam a circular diariamente no fluxo informativo global. Com o tempo, essa exposição contínua gera um efeito paradoxal: em vez de provocar mobilização moral crescente, muitas vezes produz anestesia.
O horror transforma-se em paisagem informativa.
Essa dessensibilização não se limita a Gaza.
Ela aparece também em outros episódios recentes da política internacional.
O assassinato de cerca de 180 crianças iranianas entre sete e doze anos, soterradas por bombardeios no contexto das tensões envolvendo o Irã, produziu uma reação internacional incomparavelmente menor do que tragédias semelhantes em outras partes do mundo.
O mesmo fenômeno pode ser observado na política de sanções que há mais de seis décadas pesa sobre Cuba. O embargo imposto pelos Estados Unidos — endurecido em diferentes momentos, inclusive durante o governo de Donald Trump — continua a produzir impactos profundos sobre a economia e o cotidiano da população cubana.
A duração extrema desse bloqueio criou um efeito perverso: o sofrimento prolongado de um país inteiro deixou de provocar escândalo internacional.
Quando a violência dura tempo suficiente, ela passa a ser tratada como parte natural da paisagem política.
A des-historização do conflito
O terceiro elemento identificado por Safatle é a des-historização. Grande parte das narrativas dominantes trata Gaza como um episódio isolado, desconectado de sua história.
Apagam-se décadas de ocupação, bloqueios econômicos, deslocamentos populacionais e ciclos sucessivos de violência que moldaram a realidade atual.
Ao retirar o conflito de seu contexto histórico, cria-se a impressão de que a violência surge de forma repentina.
A história desaparece — e com ela desaparece também a compreensão das estruturas políticas que tornaram possível o cenário atual.
O vazio legal
O quarto processo apontado por Safatle é o vazio legal.
Gaza tornou-se um espaço onde os limites do direito internacional parecem perder eficácia prática.
Bombardeios contra áreas densamente povoadas, destruição de infraestruturas civis e crises humanitárias prolongadas ocorrem diante de um sistema internacional incapaz de impor restrições efetivas.
Quando o direito deixa de funcionar como limite real ao exercício da violência, instala-se um espaço de exceção.
Nesse espaço, decisões militares passam a operar acima das estruturas jurídicas que deveriam proteger populações civis.
América Latina: o novo cenário da disputa
A América Latina volta a ocupar posição central na disputa geopolítica global.
Nas últimas duas décadas, a região passou por transformações profundas com a expansão da presença econômica da China e o surgimento de novas formas de cooperação entre países do Sul Global.
Hoje, Pequim tornou-se um dos principais parceiros comerciais de vários países latino-americanos, incluindo o Brasil.
Essa mudança reconfigura o equilíbrio geopolítico hemisférico.
Para Washington, a crescente presença chinesa no continente representa um desafio estratégico direto à sua tradicional primazia regional.
É nesse contexto que se intensificam pressões políticas, disputas narrativas e iniciativas de segurança que buscam reafirmar a influência norte-americana na região.
Brasil: a nova fronteira da disputa estratégica
Nesse cenário, o Brasil começa a aparecer de forma cada vez mais clara no tabuleiro geopolítico continental.
Reportagem do jornalista Jamil Chade revelou que um acordo militar firmado entre o governo de Donald Trump e o Paraguai prevê amplo acesso de tropas norte-americanas ao território paraguaio — incluindo autorização para portar armas, transportar equipamentos militares e operar sistemas próprios de comunicação.
O tratado, aprovado pelo Senado paraguaio, permitiria a presença permanente de militares dos Estados Unidos em uma região que faz fronteira direta com o Brasil.
Especialistas ouvidos na reportagem apontam que essa movimentação faz parte de uma estratégia mais ampla de expansão da presença militar norte-americana na América do Sul.
Ao mesmo tempo, Washington avalia classificar organizações criminosas brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas — medida que poderia abrir caminho para operações extraterritoriais sob a justificativa de combate ao terrorismo.
Em um contexto de crescente disputa geopolítica global, o Brasil deixa de ser apenas um ator regional e passa a ocupar posição sensível na reorganização estratégica do continente.
O século XXI diante do espelho
Talvez seja justamente essa pergunta que retorna agora com força diante de Gaza.
O massacre que se abateu sobre Gaza, o recrudescimento do embargo contra Cuba, o assassinato de crianças iranianas soterradas por mísseis e a crescente militarização no entorno do Brasil já começam a entrar no terreno perigoso do esquecimento — e, pior ainda, da normalidade.
Esses episódios parecem distintos, espalhados por regiões diferentes do mundo.
Mas todos revelam um mesmo processo: a repetição da violência, a dessensibilização moral, o apagamento da história e o enfraquecimento das estruturas jurídicas internacionais que deveriam limitar o exercício da força.
Foi isso que Primo Levi tentou compreender ao refletir sobre os campos de extermínio do século XX em É Isto um Homem?.
E é isso que Vladimir Safatle nos obriga a confrontar ao olhar para Gaza.
O verdadeiro perigo do nosso tempo não é apenas a existência da barbárie — é o momento em que ela começa a ser aceita como parte da ordem do mundo.
Talvez seja esse o ponto em que nos encontramos agora.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
