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João Lister

Advogado, graduado pelo UNIUBE – Universidade de Uberaba, Pós Graduado MBA, em Direito Empresarial pela FGV e psicanalista

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Geni, o Barão e o Tarifaço: a ópera bufa da direita subalterna

Patriotismo usado para justificar vassalagem

Donald Trump, Flávio e Eduardo Bolsonaro (Foto: Daniel Torok/Casa Branca I Agência Brasil I Reuters)
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Há momentos em que a política deixa de ser disputa de projetos e se transforma em teatro de marionetes. No teatro no sentido nobre da tragédia grega, onde os personagens enfrentam o destino, a culpa e a grandeza moral de suas escolhas. Mas teatro menor, de feira, de farsantes, de homens públicos que confundem soberania nacional com senha de entrada no salão dos poderosos. É nesse palco estreito, iluminado por holofotes estrangeiros, que se arma a cena envolvendo Flávio Bolsonaro, Marco Rubio e Donald Trump.

O enredo, se não fosse grave, seria apenas ridículo. Os Estados Unidos anunciam ou ameaçam um tarifaço contra produtos brasileiros. O Brasil, país soberano, com governo eleito e interesses próprios, é tratado como província rebelde. A medida surge envolta em justificativas comerciais, jurídicas e diplomáticas, mas carrega o cheiro conhecido de chantagem política. Não se trata apenas de tarifa. Trata-se de disciplina imperial.

Então entra em cena Flávio Bolsonaro, não como representante altivo de um país ferido, mas como personagem ansioso por demonstrar utilidade ao senhor estrangeiro. Sua fala segue roteiro previsível: o Brasil estaria à beira do desastre porque Lula teria destruído a economia; as tarifas seriam ruins, é claro, mas a culpa não seria de quem as impõe, e sim do governo brasileiro; a solução não estaria na defesa institucional do país, mas na eleição de um aliado de Trump. Em outras palavras: primeiro se aceita a violência externa, depois se oferece a própria candidatura como remédio para a ferida aberta pelo agressor.

É a política como sequestro encenado. O sequestrador aponta a arma; o aliado local pede calma, diz conhecer o sequestrador, promete negociar, mas exige como condição que lhe entreguem as chaves da casa. A vítima, nesse caso, é o Brasil.

A dramaturgia é quase infantil. Trump baixa o tarifaço. Flávio corre ao palco e declara que o Brasil sofrerá muito, que os empregos estarão em risco, que as empresas perderão mercado, que tudo isso decorre da suposta ruína lulista. Em seguida, apresenta-se como ponte providencial entre Brasília e Washington. Eleito, promete uma parceria “ao gosto de Trump”: menos soberania, mais submissão; menos integração latino-americana, mais alinhamento automático; menos política externa altiva, mais continência servil diante da Casa Branca.

Trump, então, no segundo ato dessa ópera bufa, aparece sensibilizado. Diz que ouviu Flávio. Diz que seus argumentos foram fortes. Diz que acredita em sua eleição. E, como Barão magnânimo de opereta, suspende provisoriamente o tarifaço. Não revoga por respeito ao Brasil. Não recua por reconhecer erro. Não abandona a ameaça por aceitar a soberania de um povo. Suspende porque espera recompensa política. A revogação definitiva ficaria condicionada ao resultado eleitoral brasileiro. Até lá, o açoite permanece pendurado na parede.

Se essa cena fosse escrita por Chico Buarque, talvez não precisasse de retoque. O Zeppelin pairaria sobre a cidade, o Barão exigiria sacrifício, e a multidão, acovardada, procuraria uma Geni para entregar ao carrasco. Mas aqui a inversão é ainda mais grotesca: Flávio não é levado à força. Ele se oferece. Não é sacrificado pelo povo. Ele se apresenta voluntariamente ao poder estrangeiro como prova viva de fidelidade. Ajoelha-se antes de ser chamado. Agradece antes de apanhar. Promete obediência antes mesmo de receber a coleira.

A referência à Geni, evidentemente, não está na dignidade trágica da personagem de Chico. Geni é vítima, bode expiatório, corpo socialmente violentado por uma cidade hipócrita que a despreza quando não precisa dela e a glorifica quando dela depende. Flávio, ao contrário, não é vítima da engrenagem. É operador da engrenagem. Sua posição não é a da sacrificada, mas a do intermediário que aceita converter a humilhação nacional em ativo eleitoral.

A teatralização é esquizoide no sentido político do termo: dissocia causa e efeito, agressor e vítima, interesse nacional e ambição familiar. O país é atacado por uma medida estrangeira; a culpa, segundo o roteiro, é do presidente brasileiro. O tarifaço vem de Washington; a responsabilidade seria de Brasília. O prejuízo recairia sobre empresas e trabalhadores brasileiros; o benefício simbólico seria apropriado por quem se oferece como interlocutor preferencial do agressor. É uma cisão deliberada da realidade, uma montagem em que o patriotismo é invocado para justificar a vassalagem.

Marco Rubio, nesse cenário, cumpre o papel de chanceler ideológico do império. Sua função é dar verniz estratégico à truculência. Onde Trump atua como performer da força, Rubio fornece o vocabulário da pressão: democracia seletiva, liberdade econômica, combate a práticas desleais, defesa de empresas americanas, punição a governos indesejáveis. O discurso parece técnico, mas o subtexto é político: a América Latina deve saber quem manda.

O bolsonarismo, por sua vez, demonstra mais uma vez sua natureza contraditória. Grita “Brasil acima de tudo”, mas se curva quando o comando vem de fora. Fala em soberania, mas a compreende apenas como soberania contra pobres, indígenas, universidades, sindicatos, movimentos sociais e instituições democráticas. Diante dos Estados Unidos, a soberania desaparece. Resta a submissão afetiva, quase religiosa, a um poder externo fantasiado de civilização.

O mais grave não é Flávio conversar com Trump. Relações internacionais exigem diálogo, inclusive com adversários. O problema é transformar uma possível agressão comercial contra o Brasil em peça de campanha eleitoral. O problema é sugerir que o sofrimento econômico de setores produtivos brasileiros pode ser convertido em argumento para eleger um candidato alinhado ao agressor. O problema é naturalizar a ideia de que uma potência estrangeira pode condicionar o alívio de uma punição econômica ao resultado das urnas de outro país.

Isso não é diplomacia. É tutela.

Num país com memória histórica mais viva, tal enredo produziria indignação transversal. Industriais, agricultores, trabalhadores, governadores, parlamentares e imprensa deveriam reagir a uma só voz: divergências internas se resolvem internamente; eleição brasileira não se negocia em Washington; tarifa estrangeira não pode ser convertida em cabo eleitoral doméstico. Mas a direita brasileira, órfã de projeto nacional desde que trocou desenvolvimento por ressentimento, já não distingue oposição de sabotagem. Para ela, quanto pior para o Brasil, melhor para o palanque — desde que o prejuízo possa ser debitado em Lula.

A farsa revela uma patologia política antiga: a elite subalterna que só se sente autorizada a governar quando recebe bênção externa. Antes era Paris, depois Londres, depois Washington. Muda o centro imperial; permanece o complexo colonial. O bolsonarismo apenas radicalizou essa tradição, adicionando-lhe estética de quartel, religião de conveniência, guerra cultural de internet e bajulação explícita ao trumpismo.

A possível suspensão temporária do tarifaço, nesse roteiro, seria vendida como vitória de Flávio. Mas seria exatamente o contrário: a prova de que a ameaça nunca foi apenas comercial. Se Trump suspende porque Flávio pediu, e se condiciona a revogação definitiva à eleição de Flávio, então a tarifa deixa de ser instrumento econômico e se assume como arma eleitoral. O gesto “generoso” do Barão apenas confirmaria o mecanismo de chantagem.

A pergunta que resta é simples: que espécie de presidente um candidato promete ser quando sua primeira demonstração de força consiste em pedir clemência ao governante estrangeiro que ameaça seu próprio país?

A resposta também é simples: não promete ser presidente de uma nação soberana. Promete ser gerente local de uma dependência.

Por isso a imagem da Geni e do Zeppelin retorna com força. Lá, a cidade entrega uma travesti ao Barão para salvar-se. Aqui, parte da direita entrega o país ao Barão para tentar voltar ao poder. Lá, a hipocrisia coletiva canta, apedreja e depois súplica. Aqui, o bolsonarismo posa de patriota, estimula a pressão externa, culpa o governo brasileiro, pede suspensão ao agressor e tenta transformar a humilhação nacional em escada eleitoral.

No fim, a cena não é apenas grotesca. É pedagógica. Mostra que o nacionalismo bolsonarista nunca foi amor ao Brasil. Foi ódio aos brasileiros que não cabem em seu projeto de poder. Mostra que sua bandeira não é símbolo de soberania, mas figurino. Mostra que seu patriotismo termina na primeira ligação internacional atendida em inglês.

E mostra, sobretudo, que a democracia brasileira não enfrenta apenas uma disputa eleitoral. Enfrenta uma disputa sobre a própria dignidade nacional. De um lado, um país que pode divergir internamente, mas deve defender-se externamente. De outro, uma direita disposta a transformar tarifaço em palanque, chantagem em oportunidade e submissão em estratégia.

Se Trump é o Barão, e se o Zeppelin paira sobre nossas cabeças, a pergunta decisiva não é quem fará o papel de Geni. A pergunta é se o Brasil aceitará ser a cidade covarde que, para escapar momentaneamente da ameaça, entrega sua soberania aos pés do carrasco.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.