Geopolítica: EUA e Brasil juntos na Tirania dos Valores

O que Bolsonaro faz com suas aparentes bizarrices e vergonhosa atuação como presidente é parte da estratégia de impor a Tirania dos Valores Morais no Brasil e, para tal, alinhar-se com os EUA de Trump é algo necessário

Geopolítica: EUA e Brasil juntos na Tirania dos Valores
Geopolítica: EUA e Brasil juntos na Tirania dos Valores (Foto: Carlos Barria - Reuters)

Quem senta no topo da pirâmide?

A teoria jurídica brasileira segue os padrões dos EUA há séculos e, em 1988, estabeleceu na Constituição Federal que “compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição” (Art. 102). Esta conduta se deve à estratégia defendida pelo jurista liberal austro-húngaro, Hans Kelsen, que em 1931 debateu com seu opositor alemão, o jurista e filósofo político, Carl Schmitt.

Schmitt defendia que a guarda da Constituição era uma função de natureza política, e não jurídica. Isto é, tinha que estar na mão do governo e não de juízes. Seu pensamento baseava-se na instauração de guerras, e quem decidiria pelo povo seria o governante, pois os tribunais demorariam nas decisões e colocariam o povo em risco.

Na época este argumento foi interpretado por um líder político alemão que alçou seu país à guerras contra os vizinhos, declarou-se como o soberano para tomar as decisões pelo povo alemão, e instituiu o Estado de Exceção. Seu nome era Adolf Hitler, do Partido Nacional Socialista, ou Nazista. Depois da Segunda Guerra Mundial e derrota do Nazismo, vários países passaram a defender a posição de Kelsen, contra a de Schmitt, e estabelecer os juristas como Guardiões da Constituição, como o Brasil em 1988

Vazio acima do topo da pirâmide

Em 1960 Carl Schmitt voltou à cena jurídica reformulando sua teoria e avisando que havia ainda um buraco no sistema que poderia atrair tiranos, como Hitler. Schmitt se preocupava com os Valores Morais das sociedades humanas, que poderiam entrar em conflitos jurídicos. Caso não houvessem leis, ou artigos na constituição, que resolvessem os conflitos, a sociedade ficaria nas mãos das elites que poderiam impor seus Valores como sendo maiores do que os Valores dos mais pobres ou das minorias.

O buraco que Schmitt avisou existir, nos parece ter sido ocupado por Trump e sua elite branca e racista nos EUA; e por Bolsonaro, Generais Heleno, Mourão e Villas Bôas, e a elite evangélica neopentecostal no Brasil. Como isso está sendo possível?

General Eduardo Villas Bôas em 2014 estava insatisfeito com a reeleição de Dilma Rousseff, apesar de manter o respeito à hierarquia da presidente eleita. Sua insatisfação, presumimos, veio do receio de que as Forças Armadas fossem afetadas pelo crescimento educacional no povo brasileiro, pois quanto mais informações sobre história, economia, religião, etc, o povo tivesse acesso, menos controle e garantia de que as ordens dos militares seriam cumpridas pelos soldados. Os militares no Brasil temiam o surgimento de novos Carlos Lamarca, que desertou em 1969 para somar-se à guerrilha contra a ditadura militar.

Villas Bôas também vivia sob a pressão dos fantasmas de militares que torturaram durante a ditadura, e temiam ser presos devido às atividades da Comissão da Verdade. O limite parece ter ocorrido quando Dilma Rousseff nomeou o comunista Aldo Rebelo (PCdoB) para ministro da Defesa em 2015. Então o General desrespeitou a hierarquia e montou seu plano secreto para não deixar que Valores Morais socialistas, comunistas ou anarquistas penetrassem em suas tropas.

Para isto, os Generais tiveram que desestabilizar o judiciário brasileiro, desrespeitando a Constituição e alçando um líder político que impusesse os Valores Morais militares. Foram então dialogar com a elite nacional, apoiar a Lava-Jato para prender Luis Inácio Lula da Silva (PT) para que não ganhasse a eleição em 2018, e escolheram um papagaio para ser o porta-voz dos Valores da elite.

Bolsonaro foi o escolhido por Villas Bôas para o poder político, dentro da estratégia dos Generais. E desde então propaga aos quatro ventos suas convicções morais em frases como “Brasil acima de tudo e deus acima de todos”, “o povo começou a se libertar da inversão de valores e do politicamente correto”.

Imposição de Valores ao topo da pirâmide

O que Bolsonaro faz com suas aparentes bizarrices e vergonhosa atuação como presidente é parte da estratégia de impor a Tirania dos Valores Morais no Brasil e, para tal, alinhar-se com os EUA de Trump é algo necessário. Trump foi eleito com apoio de Steve Bannon, um paranoico da extrema direita dos EUA, responsável pela estratégia de deixar seu candidato inverter os Valores consolidados pelos Democratas e Republicanos nos EUA, e puxar a sociedade para pensar igual aos brancos e fascistas da elite. Para alcançar tal façanha bastou construir inimigos (China, Índia e Rússia), afirmar que eles não seguem a “moral estadunidense”, e dizer os defendem são inimigos dos EUA.

O que Bolsonaro faz é seguir os mesmo padrões, também com assessoria de Bannon e com apoio dos Generais brasileiros. Ele impõe, seja via tuitadas ou pela imprensa, a figura do inimigo (Chinês, Russo ou Venezuelano), acusa o PT de ser amigo dos “inimigos do Brasil”, e afirma que os tais “Valores Morais tradicionais brasileiros” foram invertidos, cabendo à ele como presidente retomar por imposição os tais Valores Morais da elite.

Uma vez feito o jogo de anunciar quais são os Valores Morais, ele os repete de todas formas possíveis e tenta colocá-los numa posição acima da Constituição. O alvo destes ataques é a cabeça do povo brasileiro, mas a mira laser está apontada para os Guardiões da Constituição no Supremo Tribunal Federal.

Para garantir seu plano, Villas Bôas conta com apoio de alguns ministros do STF como Luís Roberto Barroso, Luís Fux, Rosa Weber, Edson Fachin, Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia. Estes têm tido posturas contra a Constituição em seus votos. O principal exemplo foi a manutenção da prisão de Lula com julgamento em segunda instância. Ainda, para garantir que nada saísse do controle dos Generais, eles exigiram de Dias Tóffoli que, ao assumir a presidência do STF, nomeasse como seu assessor o general da reserva Fernando Azevedo e Silva.

O próximo passo do plano parece que será garantir que votações importantes no STF criem precedentes, desrespeitando a Constituição de 1988 e instituindo no sistema judiciário os tais “Valores Morais militares”, sem precisar do desgaste de uma nova constituinte ou fechamento do Supremo Tribunal Federal.

Nenhuma pirâmide resiste ao Carnaval

Porém, Bolsonaro age como um (Re)Programador Neurolinguística (PNL) tentando alterar o comportamento dos brasileiros, mas a estratégia de Villas Bôas naufraga a cada dia. Os militares esquecem que no Brasil não basta repetir três vezes uma mentira para ela virar verdade, como fazem com seus soldados, pois já estamos acostumados a pular de “verdade” em “verdade” noticiada pelas elites.

No Brasil sabemos o que realmente convence o povo: emprego, segurança de uma aposentadoria digna e garantia de que ano que vem teremos o melhor Carnaval do planeta. Este sim, o Carnaval, mostrará nas avenidas os reais Valores Morais do país.

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