Germinal Século XXI

Passam-se os séculos, mas o sistema do capital sobrevive, se renova e se preocupa tão somente em mudar sua maquiagem a fim de aglutinar aceitação e noção de normalidade; a exploração, o desrespeito à dignidade humana e a vergonhosa concentração de renda

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Deparei-me, durante o confinamento francês, com o clássico romance histórico de Émile Zola. A obra, com suas mais de 700 páginas, é um amálgama preciso do que foi o processo de luta de classes que se deu no norte da França no século XIX. 

A trama trata do contexto do trabalho nas minas e de suas condições terríveis, gerando a superexploração dos empregados, com seus salários irrisórios e moradias precárias, sem mencionar a luta contra a fome e as doenças dela advindas. As consequências nefastas deste modus operandi burguês, em suma, criaram uma forma de labor que se assemelhava à escravização.

Sublimemente tratado pelo autor, o germe decisivo que serve como contraponto a este terrorismo capitalista é justamente o princípio da organização política e sindical da classe operária (contando já àquela época com as divisões existentes entre marxistas e anarquistas). A noção da greve como arma transformadora está presente nas mentes e ações das personagens, mas também de forma explícita através das ideias narradas pelo autor – para escrever a obra, Zola trabalhou como mineiro e acompanhou de perto um dos movimentos grevistas.

Nesse sentido, ao longo da difícil e densa leitura, não me saía da mente o paralelo que é possível vislumbrar ao se analisar o levante grevista de Germinal, encabeçado por Etienne, o personagem central da trama, e o movimento liderado pelo entregador Galo, que ajudou a desencadear a greve dos superexplorados do mundo uberizado.

Os mineiros e os uberizados, pois, são atores centrais para entender que o capitalismo é uma engrenagem incrustada em todos os signos sociais ao longo dos tempos. Passam-se os séculos, mas o sistema do capital sobrevive, se renova e se preocupa tão somente em mudar sua maquiagem a fim de aglutinar aceitação e noção de normalidade; a exploração, o desrespeito à dignidade humana e a vergonhosa concentração de renda na mão de uns poucos desalmados, porém, continuam a todo vapor, como o ar onipresente, denso e sufocante que pairava dentro das minas.

O desejo que teima em se manifestar na vereda da justiça social, apesar de toda a defasagem humana escancarada neste ano indefinível, é o de que os uberizados concluam o trabalho iniciado pelos mineiros superexplorados: que dessa vez, através de muita greve, mobilização e conscientização política, criem uma nova história em que humanos são realmente humanos, em que, finalmente, não existam mais “cidadãos de primeira e segunda classes em qualquer nação”, pois senão haverá sempre guerra.

Etienne, ao longo da história de Germinal, se interessa paulatinamente pelos escritos marxistas e anárquicos, lendo incessantemente para construir os seus discursos visando à reunião de mais e mais apoiadores na contestação do status quo. O galo, numa entrevista, citou algumas leituras que formaram e formam seu intelecto político, mencionando Malcom X. 

A brecha é essa: conscientização política da favela, das palafitas e dos escombros entregues pelo delivery capitalista - só a base, rememorando Marighella, tem potencial para transformar o caos sócio-político-econômico em que estamos inseridos nestes tempos de monopólio neoliberal. 

As flores também nascem nos lixões, e lá elas são mais resistentes.  

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