Gestão Doria: perdendo oportunidade

Um bom gestor deve saber o seu real papel. Deve ir para rua quando há necessidade, não para dar espetáculo e aparecer na mídia. Sua hora de trabalho é muito cara. Que Doria governe como gestor, pois foi para isso que ele foi eleito

João Doria 
João Doria  (Foto: Coltri Junior)

É impressionante como políticos perdem facilmente o senso de oportunidade, acreditando que uma vitória nas urnas é garantia de sucesso eterno (como dizia Engenheiros do Hawaii: "e hoje eu pago os meus pecados por ter acreditado que só se vive uma vez"). João Dória rapidamente se enquadrou nesse grupo.

Um dos fortes motivos de sua eleição foi a ideia vendida (e aceita por muitos) de que ele não era político, que era um grande gestor.

Ele, seu staff e seu partido, deitaram em berço esplêndido, acreditando na falsa ideia de que o Brasil "se endireitou", o que não é verdade. Inclui-se, aí, a cidade de São Paulo. Pelo que parece, não fizeram a leitura de que ele perdeu, sozinho, para a soma de votos nulos, brancos e abstenções (fora os votos dos outros candidatos). Está longe de ter apoio da maioria da população da cidade. Mesmo assim, está governando apenas para os seus eleitores, fazendo política de modo circense, descaracterizando totalmente a imagem que tentou vender. É fato que seus eleitores estão felizes, mas logo começarão a se decepcionar, pois 4 anos de exposição é muito tempo para que se possa comparar falas e resultados. É fato, também, que quem está assistindo de fora (tantos os eleitores rivais, quanto os indiferentes), já estão, com um mês de governo, enxergando claramente quem ele é e o descompasso de suas ações com sua imagem.

Tudo começa na questão de que um bom gestor deve saber o seu real papel. Deve ir para rua quando há necessidade, não para dar espetáculo e aparecer na mídia. Sua hora de trabalho é muito cara. Saudade do Mário Covas, que não era gestor, mas que presenciei com "botas 7 léguas", no meio da enchente, em pleno 25 de janeiro. Essa, sim, é a hora de sair do gabinete.

Um bom gestor não faz piada com seu antecessor, nem com ninguém. Quer chamar um ex-presidente de cara de pau, faça-o com seriedade, frente a frente. Denuncie-o. Leve provas. O Ministério Público está processando o Haddad por "brincar" com a agenda. Deveria fazer o mesmo com as brincadeiras de mau gosto do atual prefeito. Bom humor é importante, deboche não.

Por fim, as marginais. Se você perguntar se sou a favor do aumento da velocidade? Não sei, não tenho os dados. Segundo o que se veiculou até agora, a diminuição foi muito positiva, em termos da redução do número de acidentes. Porém, comparar alguns dias, com o período anterior, tanto a favor, como contra, é total falta de bom senso. Não há estatística que dê conta. É preciso um período representativo maior. Para diminuir a velocidade, foi apresentado um estudo e, ao que parece, as projeções se confirmaram. Agora, para aumentar, deveria ter sido feito o mesmo. Testa-se e analisa-se o resultado.

Outro problema com o aumento da velocidade nesse momento (e provavelmente pela falta de estudo) é que só foram aumentadas nas marginais. Assim, quando o fluxo é em direção a elas, o "problema" da velocidade persiste nas ruas da cidade e o transito flui melhor quando se chega às vias expressas da marginal. Por outro lado, quando o fluxo é ao contrário, das marginais para as outras vias da cidade, há uma clara tendência de se aumentar os congestionamentos, pois a velocidade do fluxo de carros que chegam aos pontos de saída das vias expressas, também aumenta, piorando o trânsito nas vias não marginais (aliás, vindo de Guarulhos para a zona sul da cidade, via ponte das Bandeiras, já vivi isso, depois do aumento da velocidade). Assim, a velocidade nas outras vias também deveria ter aumentado. Por que não o fez? Respondo: porque, ao invés de aproveitar a confiança da população em ser realmente um gestor de qualidade, está optando por medidas políticas.

Por fim, nesses dias, rodei mais de 2.000Km pelas estradas de São Paulo (coitado do meu bolso quando chegar o "sem parar!!!!") e o que vi me causou profunda estranheza. O prefeito da capital aumentando a velocidade de vias urbanas para 90Km e vários trechos de estrada, incluindo os com pista dupla, com velocidade de 60 km. Outras, na região de Campo Limpo Paulista, até com quebra-molas no meio da rodovia. Anhanguera e Washington Luiz com longos trechos de 90km (e, obviamente, cheios de radar) com a desculpa de trecho urbano. Trecho urbano é a BR 364 em Jangada/MT. O resto é piada de mau gosto.

Assim, muita briga me parece partidária. Precisamos, enquanto sociedade, enxergar os fatos como eles são e analisá-los a nosso favor. Desse modo, ao ganhar a eleição, o Dória passou a ser o prefeito de todos que moram na cidade (assim como a Dilma, quando ganhou para a presidência, passou a ser presidenta de todos; os caciques do PSDB não entenderam isso até agora; espero que o Dória entenda). Como ex-morador e amante dessa cidade, desejo que o prefeito se assente e assuma a prefeitura.

Que Dória governe como gestor, pois foi para isso que ele foi eleito. Que trabalhe com dados, que aumente velocidade se tiver que aumentar (e que o Alckmin faça o mesmo, pois está vergonhoso e medonho andar nas estradas do estado), que não aumente, se assim tiver que ser. Que faça o que tem que ser feito. Que apague as pichações que realmente enfeiam a cidade (porém, por causa das medidas "show business", as que realmente enfeiam, continuam). Que deixe a arte dos grafites. É preciso governar para frente. O gestor inteligente trabalha em cima de dados. Aproveita o que foi bem feito pelo anterior, muda o que foi mal feito e amplia o que tem de ser feito a partir do que já está construído. Que os deuses da gestão sacudam e iluminem o prefeito.

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