Gladiadores e juninos

A semeadura da expansão dos evangélicos se deu nos anos FHC, de depressão social, alcançando os mais pobres e vulneráveis

A semeadura da expansão dos evangélicos se deu nos anos FHC, de depressão social, alcançando os mais pobres e vulneráveis
A semeadura da expansão dos evangélicos se deu nos anos FHC, de depressão social, alcançando os mais pobres e vulneráveis (Foto: Alberto Militanque)

Na semana que passou, o país ficou sabendo que a Igreja Universal do Reino de Deus, a mais moderada das Pentecostais, lançou seu exército, os Gladiadores do Altar. De Norte a Sul, jovens uniformizados e coordenados por um pastor/bispo, estariam dispostos a "abrir mão de suas vidas para que outras pessoas sejam ajudadas”, organizando-se em reuniões semanais.

A semeadura da expansão dos evangélicos se deu nos anos FHC, de depressão social, alcançando os mais pobres e vulneráveis  e, quando estes entraram em mobilidade social nos governos Lula e Dilma, trouxeram consigo aquelas visões de mundo. Isso é o que faz o Brasil expressar o contraste entre avanços sociais e uma consciência conservadora. A expansão evangélica, casada com um oligopólio midiático anti-nacional e anti-popular, "organizam" o povo, enquanto o pólo que promoveu tais mudanças sociais, a partir da insatisfação popular com as condições de vida de 12 anos atrás, não o faz.

Mais grave é que com emprego, salário e escolaridade, os jovens destas camadas sociais passam a ser influências decisivas nas comunidades em que habitam e em seus lares. Então, se já estava em jogo, do ponto de vista ideológico e da cultura, a disputa sobre se o Brasil, caso completasse sua saga, seria uma nação democrática, plural, diversa e desenvolvida ou desenvolvida, mas conservadora, agora o bicho pegou. Há tempos que se fala que a "nova base social" do projeto político capitaneado pelo PT, fruto do crescimento com inclusão e diversos programas sociais, estava "solta". Quando jovens destas camadas são postos em "marcha" para o lado de lá a situação fica bem mais grave. E foi só a economia reduzir sua “pegada”.

Os Gladiadores fecham a outra ponta de "Junho". Daquelas Jornadas, muito se pode dizer e analisar, contudo, pesquisa realizada pelo Ibope (http://www.zedirceu.com.br/o-perfil-dos-manifestantes-de-junho/) no calor dos acontecimentos revelaram um fato inconteste: estavam ali majoritariamente jovens, de alta renda e escolaridade. O perfil da juventude anti-petista, forjada pelo "samba de uma nota só" da mídia sobre a política e os políticos, corrupção, aparelhamento etc. E, claro, parte da turma de alta escolaridade, isto é, com nível superior completo ou incompleto, advinda das vagas abertas para negros e egressos da escola pública, possíveis pelas cotas, ProUni, ReUni, ampliação dos campi e tudo o mais.

O retrato em potencial de hoje é uma juventude que, em sua base mais popular, será capturada pelos Gladiadores, assegurando mais homofobia, machismo, apoio ao Direito Penal Máximo, prenhe da narrativa da "teologia da prosperidade" (o crescimento amparado em Deus e no esforço pessoal) ; e, em sua base mais elitista, o anti-petismo radical.

Parlamentares e intelectuais tentaram rascunhar sobre os tais Gladiadores, porém as análises se circunscreveram a paralelos com o nazismo ou ao chacoalhar o espantalho de que se trata de "milícias" das igrejas evangélicas. Na verdade, esses "gladiadores" são uma ideia fantástica do conservadorismo. Eles vão atrair milhões de jovens das classes C, D e E e o Brasil vai perder a batalha da transição geracional se não houver reação já. Os Gladiadores  não são paramilitares, são catequização em massa, o ir atrás do "fiel" e fazer trabalhos comunitários "caridosos". 

O ex-presidente Lula, em declaração recente, confessou-se preocupado com as eleições de 2018 no seguinte aspecto: estas últimas eleições presidenciais foram definidas por pouco mais de 3 milhões de votos. Em 2018, este mesmo quantitativo será só o de jovens com 18 anos. Se forem agregados aí os que terão o direito facultado de votar, o montante chegará a mais de 9 milhões. Onde estarão estes jovens no espectro político e ideológico? A se julgar pelo retrato do presente, a depender da classe social, estarão nas lides de "gladiadores" ou "juninos".

Um pouco mais atrás, o ex-presidente Lula também mencionou os jovens ao questionar as cotas geracionais nas instâncias dirigentes do PT, identificando um perfil burocrático destes meninos e meninas e conclamou ao PT sair dos gabinetes e ir para as ruas.

Bom, estas cotas, há 3 anos atrás, foram tidas e havidas como um dos grandes êxitos da reforma estatutária do PT. Se são ou estão lá de modo burocrático, retratam o partido de hoje, o mesmo que reflete sobre gabinetes x ruas, sem ir a campo organizar e discutir com aquela "nova base social" descrita parágrafos acima. As duas questões, portanto, são uma só. Milhares de jovens trabalhadores, com perfil destas camadas C, D e até E são filiados ao partido, mas alijados de uma Juventude partidária ensimesmada, do seminário que planeja seminário, da disputa tão de fundo que vira patrimônio de poucos. Se a estratégia é democrática,  estar nos gabinetes é fundamental e o "ir às ruas" tem que ser antecedido pela pergunta sobre o que fazer nas ruas.

Simplesmente pôr na pauta a reforma política ou a democratização da mídia não é garantia nem de vitória e nem de arrastar multidões. Inclusive, sem o devido cuidado, pode acirrar polarizações que interessam mais à direita e à Embaixada do que ao projeto governante. Alguém já disse que o diabo mora nos detalhes. É preciso explicar ao povo (e à juventude do povo) as medidas de governo, a conjuntura do país, os valores que são oferecidos pelo projeto governante. É preciso agir para melhorar a vida lá nos territórios e comunidades, não só pelas grandes iniciativas públicas governamentais, mas com ações simples e menores que produzam autoridade para chamar, lá neste chão pisado de senso comum, os jovens para discutir o desenvolvimento do país e construir narrativas verdadeiras e coletivas sobre por que a vida mudou, como pode mudar mais e quem se opõe, através de que meios, para isso seguir ocorrendo.

No mesmo sentido, pouco adianta o PT e sua ala jovem discutirem estas grandes agendas sem discutir como de fato viabilizá-las. Mesmo ampliando o debate para outros movimentos e partidos de esquerda, isso pode ser só uma fortaleza mais robusta, porém, sitiada. Esta é uma discussão para esta rede da nova burocracia (no bom sentido) do PT, estes cotistas geracionais de municípios, estados e de nível nacional, de preferência, em compasso com estes milhares de jovens filiados que, vez por outra, com maior ou menor clareza política, tomam o "lotação" dos PEDs. 

Juventudes sociais e partidárias de esquerda tentando se coordenar é um bom ponto de partida, mas tem que gerar algo muito maior, ousado e eficaz do que "jornadas de luta". Também o #ficaadica vale para outros partidos que não o PT. Agendas estudantis tradicionais ou turmas radicalizadas de esquerda em universidades pouco poderão decidir o jogo daqui em diante. Lembremos que o Comício da Central do Brasil terminou derrotado pela Marcha da Família.

Todavia, não se pode descuidar da dimensão "junina" do negócio. Um partido de esquerda tem que ter suporte dos setores médios. Para tal, é necessário ter uma plataforma e uma mensagem clara à juventude e à sociedade elaborada pelos próprios jovens. Quais as ideias e propostas para uma gestão do século XXI, quais e como aprovar reformas estruturais que o país necessita?  Este é um setor da sociedade que gosta de discutir política em alto nível e quanto mais a agenda for "petralhas x coxinhas", maiores a chances de se consagrar a derrota dos "primeiros". 

O futuro do Brasil não é necessariamente a manutenção do atual projeto governante ou um golpe, pode ser muito melhor ou muito pior do que isso. Sem dúvida, a chave da situação reside na juventude e já que estamos falando, a bem dizer, da "geração Harry Potter", o "chaveiro" será a capacidade de construir um "exército" de Aurores para iluminar os horizontes de gladiadores prontos a animar “festas juninas”.

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