Globalização: fim de um sonho ou metamorfose do mundo?
Crises, guerras e pandemia enterram a versão ingênua do mercado global e revelam um mundo interligado, porém mais tenso, estratégico e multipolar
Houve um tempo - não faz tanto assim - em que se acreditou que a História tinha chegado ao seu ponto de repouso. O mercado reinaria soberano, as fronteiras se tornariam meras formalidades burocráticas e o planeta, finalmente, aprenderia a falar uma única língua: a do capital.
A globalização foi apresentada como destino inevitável. Não como escolha política, mas como lei da natureza. Resistir a ela significava o mesmo que resistir à força de gravidade.
A globalização - a intensificação das conexões entre sociedades – surgiu então nas últimas décadas como um processo estrutural que redefine, em nível mundial, poder, identidade e economia. Esse processo traria, como consequência imediata, uma grande troca e mistura de hábitos, valores e expressões culturais. Por exemplo, na globalização música, moda, cinema e programas de televisão circulam globalmente - séries coreanas e turcas fazem sucesso aqui no Brasil, do outro lado do mundo; ao mesmo tempo, o carnaval brasileiro é conhecido mundialmente – no Japão e em outros países já existem escolas de samba e cursos de batucada.
Isso, logo perceberam os historiadores e os sociólogos, pode gerar tanto riqueza cultural quanto preocupações com homogeneização cultural. Mas essas preocupações em boa parte foram logo deixadas de lado, pois a verdade é que a globalização não é boa nem má em si mesma. Ela é um processo histórico de integração crescente entre países, economias, culturas e pessoas, impulsionado pelo comércio, pelas tecnologias de comunicação - com destaque para a Internet, o grande motor recente do processo -, pelos fluxos financeiros e pelas migrações. Em termos simples: é quando o mundo passa a funcionar cada vez mais como um sistema interligado.
Muitos viram, outros ainda veem a globalização como a grande esperança de um futuro mais justo, mais pacífico e feliz para todos os que caminham sobre a superfície do planeta. Hoje, porém, sobretudo no que diz respeito aos aspectos econômico-financeiros e políticos, algo range e tenta emperrar as engrenagens da globalização.
A quebra do Lehman Brothers em 2008 não foi apenas uma crise financeira; foi uma crise metafísica. Descobriu-se que o sistema global era uma teia delicada demais, onde a queda de uma peça em Wall Street podia devastar trabalhadores em São Paulo ou Varsóvia. A interdependência, celebrada como virtude, revelava sua face de vulnerabilidade.
Em seguida, a ascensão da China deslocou o eixo do poder. O que parecia uma integração harmoniosa mostrou-se uma disputa silenciosa por hegemonia. A guerra comercial iniciada por Donald Trump contra boa parte dos países do mundo - e paradoxalmente contra seu próprio modelo anterior - simbolizou a ruptura do consenso liberal. A globalização deixou de ser projeto comum e passou a ser campo de batalha.
O Reino Unido abandonando a União Europeia no Brexit foi mais do que um gesto político. Foi um sintoma de regressão psíquica: o retorno do desejo de fronteira, de identidade, de controle. O mundo “sem fronteiras” começava a provocar vertigem.
Veio então a pandemia. Máscaras, respiradores, vacinas - itens banais tornaram-se símbolos de soberania. Países descobriram, tarde demais, que terceirizar tudo era abdicar de autonomia. A cadeia global de suprimentos, celebrada como obra-prima da eficiência, mostrou-se frágil como cristal.
E, por fim, a guerra entre Rússia e Ucrânia consolidou blocos, sanções, muros invisíveis. A interdependência econômica não impediu o conflito. Ao contrário: transformou-o em guerra energética, alimentar, financeira,
Então, a globalização morreu?
Talvez o que tenha morrido seja sua versão ingênua: A crença de que o mercado dissolveria conflitos. A ideia de que o comércio produziria democracia. A fantasia de que identidade nacional era um resíduo do passado.
O que emerge agora não é desglobalização, mas uma globalização mais tensa, estratégica, seletiva. Cadeias produtivas se reorganizam não apenas por custo, mas por lealdade geopolítica. Fala-se em “friend-shoring”, em regionalização, em multipolaridade. O mundo não se desconecta - ele se rearranja.
A globalização não entrou em colapso. Ela entrou em maturidade forçada.
Talvez estejamos assistindo ao fim de uma adolescência histórica marcada por euforia liberal e ao início de uma fase mais dura, mais consciente dos limites, mais atravessada por disputas abertas de poder.
O planeta continua interligado por cabos submarinos, fluxos financeiros e redes digitais. Mas a inocência acabou.
E toda vez que a inocência termina, começa a política real.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
