Globalização reconfigurada ou mundo à deriva?
Entre o otimismo chinês e a crise estrutural da ordem internacional
A ideia de que a globalização não acabou, apenas se “reconfigura”, tornou-se um dos mantras mais repetidos nos círculos acadêmicos e institucionais ligados ao comércio internacional. Em recente entrevista ao China Daily, Zhao Zhongxiu, presidente da Universidade de Economia e Administração Internacional, afirma com segurança que não vivemos um processo de desglobalização, mas de reorganização das cadeias globais de valor, agora orientadas por resiliência, sustentabilidade e segurança estratégica. Para ele, a China segue como nó central dessa nova arquitetura produtiva, ascendendo na cadeia de valor ao mesmo tempo em que mantém sua integração global.
A leitura é consistente, empiricamente sustentada e coerente com a trajetória chinesa recente. Mas ela não esgota o diagnóstico do momento histórico. Quando confrontada com a realidade política, geopolítica e institucional do sistema internacional em 2026, essa visão otimista revela limites importantes. A globalização pode até estar sendo “reconfigurada” do ponto de vista técnico-produtivo, mas o mundo, como ordem política e civilizatória, segue perigosamente à deriva.
Cadeias globais mais complexas, política global mais frágil
Os dados citados por Zhao são relevantes: cerca de 46,3% do comércio mundial ainda ocorre no interior das cadeias globais de valor; serviços já superam bens em valor agregado; economias intermediárias como Vietnã, México, Polônia e Turquia emergem como conectores; e proliferam acordos setoriais focados em dados, minerais críticos e transição energética. Tudo isso aponta para adaptação, não colapso.
Contudo, essa reorganização econômica ocorre em um ambiente político radicalmente deteriorado. A governança global que sustentou a expansão das cadeias produtivas desde os anos 1990 encontra-se fragmentada. A Organização Mundial do Comércio (OMC) está paralisada, o sistema multilateral sofre bloqueios recorrentes, e a cooperação internacional é substituída por acordos ad hoc, seletivos e frequentemente assimétricos. A chamada “reconfiguração” acontece, portanto, sem um centro normativo legítimo e sem mecanismos eficazes de coordenação coletiva.
É aí que emerge a divergência fundamental entre a leitura tecnocrática e a leitura histórico-política. Cadeias produtivas podem se adaptar; ordens internacionais, não necessariamente.
A ascensão chinesa: sucesso econômico, tensão sistêmica
O caso chinês é emblemático. Zhao tem razão ao afirmar que a China combina abertura com fortalecimento das capacidades domésticas. O avanço em veículos elétricos, semicondutores intermediários, logística, plataformas digitais e infraestrutura verde é inegável. A produção de cerca de 77% dos veículos elétricos do mundo em 2023 simboliza uma mudança estrutural profunda, apoiada por política industrial ativa, financiamento público e planejamento de longo prazo.
Mas justamente esse sucesso aprofunda tensões geopolíticas. A ascensão chinesa ocorre num sistema ainda hegemonizado — política e militarmente — pelos Estados Unidos, que passaram a tratar interdependência como risco estratégico. O resultado não é apenas “reconfiguração”, mas securitização da economia, militarização do comércio e politização das cadeias produtivas.
Sanções, controles de exportação, restrições tecnológicas, guerra comercial, subsídios defensivos e friend-shoring tornaram-se instrumentos centrais da política internacional. A racionalidade econômica cede espaço à lógica do poder. A globalização deixa de ser um projeto compartilhado e passa a operar sob desconfiança permanente.
Industrialização estratégica: virtude econômica, risco sistêmico
Zhao reconhece que as políticas industriais retornaram com força e que podem gerar efeitos transfronteiriços positivos — ou conflitos distributivos. Aqui reside um ponto decisivo. A política industrial chinesa é coerente, planejada e integrada. Já no Ocidente, ela aparece frequentemente como reação defensiva, fragmentada e capturada por disputas internas.
O resultado é uma corrida por subsídios, especialmente nos setores verde, digital e militar, sem coordenação internacional. Essa dinâmica tende a aprofundar assimetrias, excluir países periféricos e corroer regras multilaterais. A chamada “boa governança da política industrial”, defendida por Zhao, esbarra na realidade de um mundo em que confiança estratégica praticamente não existe.
Assim, a reconfiguração das cadeias globais ocorre sem um pacto político capaz de torná-la estável, previsível ou inclusiva.
Globalização funcional, mundo disfuncional
É nesse ponto que se impõe a diferença central entre a visão do acadêmico chinês e a leitura crítica apresentada em “A crise como método: o mundo entra em 2026 sem rumo nem consenso” , de minha autoria, publicada em primeiro de janeiro no Brasil 247.
A economia global pode continuar funcionando — e até se sofisticando — enquanto a política internacional se degrada. Cadeias produtivas podem se digitalizar, descarbonizar e ganhar eficiência ao mesmo tempo em que aumentam conflitos, guerras regionais, crises migratórias e colapsos institucionais.
A reconfiguração não elimina o fato de que vivemos:
- uma crise climática sem governança efetiva;
- um sistema multilateral esvaziado;
- lideranças políticas crescentemente nacionalistas, autoritárias ou erráticas;
- conflitos armados prolongados e sem mediação eficaz;
- competição entre grandes potências sem regras compartilhadas;
- financeirização extrema e volatilidade sistêmica.
Nesse contexto, falar apenas em “resiliência das cadeias” é insuficiente. A economia pode se adaptar, mas a política global está em regressão.
Entre a racionalidade chinesa e o vazio ocidental
Há, portanto, um contraste nítido entre a racionalidade estratégica chinesa — planejadora, gradual, orientada ao longo prazo — e o vazio político que domina grande parte do Ocidente.
Enquanto Pequim articula industrialização, inovação e inserção internacional, Estados Unidos e Europa oscilam entre protecionismo defensivo, disputas internas e crises de legitimidade.
Isso não significa idealizar o modelo chinês, mas reconhecer que ele opera com uma coerência ausente em outras regiões. A globalização “reconfigurada” descrita por Zhao depende de capacidades estatais, coordenação institucional e visão estratégica — elementos cada vez mais raros no sistema internacional contemporâneo.
O Sul Global entre oportunidade e vulnerabilidade
Para países em desenvolvimento, inclusive o Brasil, esse cenário é ambíguo. A fragmentação abre espaços: novas cadeias, novos parceiros, maior margem de manobra. Mas também amplia riscos. Sem política industrial consistente, financiamento adequado e capacidade estatal, a reconfiguração pode significar apenas nova dependência, agora mais fragmentada e tecnologicamente assimétrica.
A experiência chinesa mostra que integração bem-sucedida exige estratégia nacional, investimento público, planejamento e soberania decisória. Sem isso, a “reconfiguração” tende a reproduzir hierarquias, não superá-las.
Globalização sem rumo comum
Zhao Zhongxiu está correto ao afirmar que a globalização não acabou. Mas talvez subestime o essencial: ela perdeu seu horizonte político compartilhado. O mundo não vive apenas uma transição produtiva; vive uma crise de sentido, coordenação e liderança.
O que emerge não é uma nova ordem estável, mas um sistema funcionalmente integrado e politicamente fragmentado — eficiente em partes, perigoso no todo. A economia segue em movimento, mas a governança patina. As cadeias se adaptam, mas os conflitos se acumulam. A técnica avança, enquanto o consenso retrocede.
É por isso que, mais do que reconfigurada, a globalização de 2026 parece à deriva: navegando sem bússola política comum, sustentada por ilhas de racionalidade econômica em meio a um oceano de incertezas geopolíticas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

