Globo, PT, perdão e desdobramentos

Basicamente, três são os motivos pelos quais a Globo deseja uma conciliação com o PT, que combateu desde sua origem

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Para além das reações fidagais de parte de nossa militância, a melhor notícia dos últimos tempos foi, sem dúvida alguma, o artigo do jornal O Globo, no qual a família Marinho pede perdão ao PT (sempre devemos ler os enunciados globais com sinais trocados), em razão do golpe contra Dilma, da prisão injusta de Lula, da eleição de Bolsonaro e, finalmente, da destruição do Brasil, que, por óbvio, atingiu em cheio os interesses comerciais da própria Globo. 

Sim, com esse artigo, é a Globo que pede perdão ao PT, e não o contrário, o que, doravante, deverá refletir-se numa mudança gradual de postura da empresa em relação aos seus líderes, sobretudo Fernando Haddad, na medida em que, cada vez mais, o mesmo vem ocupando uma posição de centro-esquerda moderada no espectro político-ideológico brasileiro (restará algum espaço de centro-esquerda para candidatos e pré-candidatos à Presidência, tais como Dino e Ciro?). Essa posição ocupada por Haddad não é uma mera coincidência. 

Ao que parece, trata-se de uma estratégia elaborada pelo próprio Lula, cujo objetivo é o de criar dois movimentos opostos, simultâneas e complementares, a saber, enquanto ele, Lula, puxa a militância, o PT e o campo progressista para a esquerda, Haddad puxa essas mesmas forças em sentindo contrario, isto é,  para o centro, a fim de dialogar com o eleitorado de centro-direita, que inclui diversos segmentos sociais (pobres, trabalhadores precarizados, remediados, funcionários públicos, profissionais liberais, empresários, evangélicos, parcelas da elite etc.), eleitorado sem o qual não é possível vencer as eleições &agrave ; Presidência da República e reconquistar o poder central. 

Essa estratégia elaborada por Lula é, sem dúvida alguma, facilitada pelo próprio Haddad, que sempre se apresentou como um social-democrata dentro de um Partido socialista. A excelência dessa estratégia não é outra senão a de fazer com que o PT se pinte com todas as cores e matizes possíveis da esquerda, desde a extrema-esquerda até a social-democracia. 

A rigor, essa palheta de cores e matizes não é uma novidade intramuros enquanto vida partidária petista, mas o é extramuros enquanto instrumento político-eleitoral. Isso significa que, diante do pedido de desculpas da Globo, que vocaliza a vontade e os interesses sempre objetivos e pragmáticos das elites brasileiras, o PT adotará dois comportamentos diametralmente opostos, e, no entanto, não-contraditórios: por um lado, com Lula, não aceitará as escusas da Globo, mas, por outro, com Haddad, irá aceitá-las, embora sob certas condições, que ainda não estão claras, talvez nem mesmo para o próprio PT. 

Basicamente, três são os motivos pelos quais a Globo deseja uma conciliação com o PT, que combateu desde sua origem: 

1. as enormes perdas econômicas impostas por Bolsonaro; 2. a percepção de que não conseguirá levar um de seus candidatos ao segundo turno das eleições (Moro, Huck, Dória e, ainda, Ciro); 3. a constatação de que o PT possui, ao menos, 30% do eleitorado brasileiro, de tal modo que, muito provavelmente, mais uma vez colocará seu candidato no segundo turno das eleições à Presidência, tal como deixa entrever em seu próprio artigo. 

Portanto, cabe a nós, militantes e simpatizantes do PT, duas tarefas, que exigem inteligência e resiliência: continuar a pressão à esquerda sob o comando de Lula, mas, ao mesmo tempo, dialogar com os eleitores de centro-direita, que, por um lado, já votaram em Lula e Dilma, e, por outro, decepcionaram-se com Bolsonaro, sob a liderança de Haddad. 

Eis por que o verdadeiro título do referido artigo é "É HORA DE PEDIR PERDÃO AO PT".

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