Golpe à vista

À maquina golpista posta em marcha pelo bando errante acoitado na Alvorada, opõe-se agora a centro-direita rediviva, a aliança tucano-demista com posições fortes no legislativo (Alcolumbre-Maia), nos governos estaduais (destacando-se Dória, o neófito Witzel e o nosso novo Toninho Malvadeza, o ruralista Caiado que acaba de gritar “Laços fora” aos Décios Lima da vez), o judiciário e na mídia

(Foto: Carolina Antunes/PR)
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Poderia ser atribuída ao general Heleno, que abandonou a quarentena  e já combate no Planalto, a figura de linguagem usada por um militar anônimo ao Estadão: “se alguém leva um tiro na perna em uma guerra, não pode ficar deitado esperando ser atendido para tirar a bala, precisa continuar atacando, reagindo, para garantir sua sobrevivência”. Essa imagem reflete o pensamento de ao menos dez oficiais ouvidos por aquele jornal: temerosos do caos social, apoiam a posição trumpista de relativização da vida em favor do laissez-faire economico. Suas ressalvas a Bolsonaro, por hora,  limitam-se ao seu modo de agir errático e emocionalmente desequilibrado. Podem, mesmo assim, encerrar de vez nosso último respiro democrático usando uma carta tipo Mourão.

À maquina golpista posta em marcha pelo bando errante acoitado na Alvorada, opõe-se agora a centro-direita rediviva, a aliança tucano-demista com posições fortes no legislativo (Alcolumbre-Maia), nos governos estaduais (destacando-se Dória, o neófito Witzel e o nosso novo Toninho Malvadeza, o ruralista Caiado que acaba de gritar “Laços fora” aos Décios Lima da vez), o judiciário e na mídia.

Um desenlace favorável à centro-direita nessa pororoca golpista depende entretanto de um movimento difícil para esse bloco: aceitar a extemporaneidade do fundamentalismo de mercado. Os milicos estão certos em temer a explosão social derivada do prolongado confinamento de milhões de brasileiros a moradias indecentes,  onde já faltava tudo,  sem qualquer perspectiva de emprego e renda. Gotardo, secretario executivo do Ministérios da Saúde, é pouco. Alguém como seu antigo chefe, José Serra, teria de liderar esse Centro redivivo para as especificidades econômicas dessa crise épica: renda de ao menos 350 reais por membro de família sem renda, apoio a pequenos e médios empregados, garantia de emprego e renda aos trabalhadores formais...em resumo, todo empenho, mesmo que com endividamento de 10% do PIB, para impedir o empilhamento de mortos país. 

Unir-se-iam em favor de um grande mutirão de saneamento, desinfecção e limpeza das cidades e suas comunidades carentes? Converteriam de indústrias e investiriam o necessário para o restaurar e dinamizar o SUS, as pesquisas...Propostas claras que pudessem desqualificar o cínico lema trumpista de que só o mercado salva e atrair os militares preocupados com o futuro do país.

Vencer o golpe miliciano-bolsonarista ficaria entretanto bem mais fácil se ao invés de um estreito bloco de centro-direita tivéssemos redivivo um bloco mais amplo de salvação nacional do miliciano-bolsonarismo como o que uniu pelas diretas o MDB de Ulisses e Montoro, o PDT de Brizola, o PT de Lula...

Doria não é Montoro, Rodrigo Garcia não é Claudio Lembo, Witzel está a anos luz de Brizola. É o que temos. Como evitar que um bloco anti-petista não saia vencedor na pororoca golpista em curso, e mantenha o país numa dinâmica perversa de estagnação e aprofundamento das desigualdades? Uma frente que incluísse os ex-presidentes FHC e Lula abriria caminhos alternativos?  A esperança tem de vencer o medo. Trocar o miliciano-bolsonarismo pela esquisitice ultra liberal de Mourão é tudo que o país não precisa para enfrentar essa guerra, agora recrudescida, contra a doença, a pobreza e a desigualdade.

*Luiz Antonio Carvalho é jornalista, licenciado em filosofia pela Universidade de Paris X – Nanterre, não é atleta e está no grupo de risco do Coronavírus. 

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