Golpistas odeiam a palavra golpe

A UnB nasceu para formar cidadãs e cidadãos críticos, inquietos e engajados com a transformação da realidade social brasileira. Não calarão uma universidade que tem um compromisso histórico com a educação como prática de liberdade

Brasília - O presidente interino Michel Temer e o ministro da Educação, Mendonça Filho durante ato de assinatura do edital expansão do Fundo de Financiamento Estudantil - Fies 2016 (Valter Campanato/Agência Brasil)
Brasília - O presidente interino Michel Temer e o ministro da Educação, Mendonça Filho durante ato de assinatura do edital expansão do Fundo de Financiamento Estudantil - Fies 2016 (Valter Campanato/Agência Brasil) (Foto: Erika Kokay)

Os golpes nunca se autoproclamam golpes e os golpistas nunca se autointitulam golpistas. Há sempre tentativas de esconder seus verdadeiros nomes. Em 1964, os militares batizaram o golpe de "revolução". Em 2016, o conluio jurídico-parlamentar e midiático que arrancou do poder uma presidenta legitimamente eleita o classificou de "impeachment".

Mas a história registrará, para desespero dos golpistas do passado e do presente, a real nomenclatura desses tristes e abjetos episódios de ruptura democrática.

Não é por acaso que o ministro da Educação do governo ilegítimo de Michel Temer, Mendonça Filho, resolveu estabelecer uma verdadeira cruzada institucional para ameaçar a Universidade de Brasília (UNB) por ofertar a disciplina "o golpe de 2016 e o futuro da democracia".

Isso porque o curso de Ciências Políticas da universidade faz uma opção clara por denominar o impeachment, sem crime de responsabilidade, contra a presidenta Dilma Rousseff como um "golpe de Estado".

Contra a iniciativa, o ministro disse que irá acionar o Ministério Público Federal (MPF), a Advocacia-Geral da União (AGU), a Controladoria-Geral da União e o Tribunal de Contas da União (TCU). Tal atitude é uma agressão à autonomia universitária e vai na contramão de princípios mundial e secularmente reconhecidos como a liberdade docente, de expressão e de pensamento.

Ações desse tipo só acontecem por estarmos vivendo uma ruptura democrática, um golpe continuado que vai esgarçando o tecido dos direitos.

A tentativa de amordaçar a universidade para impedi-la de refletir sobre o tenebroso momento que o país atravessa é absolutamente inaceitável e nos lembra que não fizemos o luto dos anos de chumbo, quando estudantes, servidores e educadores foram perseguidos, punidos e sumariamente expulsos dessas instituições, pelo simples fato de levantarem-se em defesa dos valores democráticos.

Ao contrário do que o ministro possa imaginar, a censura reforça ainda mais a narrativa de que a quebra da legalidade democrática em 2016, é, sim, fruto de um estado de exceção.

A cada dia que passa estamos vendo de forma mais contundente e nítida a face autoritária e repressora daqueles que ocuparam ilegitimamente o Palácio do Planalto e a Esplanada dos Ministérios. Ou alguém tem alguma dúvida de que o golpe que começou vestindo togas e paletós não poderá também vestir fardas?

Mendonça tentou justificar seu arbítrio dizendo que o curso não tem base científica, nem coaduna com o que ele chamou de "boas práticas" da educação. Pergunto se boas práticas na educação seriam, por acaso, as propostas defendidas por seu "consultor", Alexandre Frota. Seria cômico se não fosse trágico.

Ainda na raia de explicar o inexplicável disse que é um absurdo aparelhar a estrutura da universidade para defender ideias do PT e de seus aliados.

Os que bradam contra o "aparelhismo" e se auto intitulam "neutros e imparciais" são na verdade defensores contumazes do liberalismo econômico, do individualismo, do machismo, da LGBTfobia e do racismo. Fazem apologia de um modelo de educação tecnicista, de formação de mão de obra acrítica voltada para satisfazer, exclusivamente, aos interesses do mercado.

Lembro Paulo Freire quando ele diz não existir educação neutra e que toda a neutralidade afirmada é uma opção escondida. Acrescento que é uma opção covarde e cínica por parte daqueles que não têm a honestidade intelectual de assumirem que o que eles chamam de neutralidade não passa de ideologia.

Uma universidade que nasceu do sonho de mentes brilhantes como Darcy Ribeiro e Anízio Teixeira e protagonizou uma das maiores greves estudantis contra a ditadura militar não irá se curvar diante de golpistas de ocasião.

A UNB nasceu para formar cidadãs e cidadãos críticos, inquietos e engajados com a transformação da realidade social brasileira. Não calarão uma universidade que tem um compromisso histórico com a educação como prática de liberdade.

Concluo com Darcy Ribeiro quando nos diz que só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E nós não vamos nos resignar nunca!

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