Governantes homofóbicos, governantes mixofóbicos

Pelo histórico homofóbico do atual presidente, não parece ser inverossímil a versão que se difundiu na semana passada, quando da reunião para a formação da nova sigla bolsonarista segundo a qual o nome do “príncipe” teria sido vetado não por uma questão de “governabilidade”, mas sim pelo fato do trineto de Pedro II ser gay

(Foto: Antonio Cruz - ABR)

“Resistência LGBT em tempos de obscurantismo” foi o tema do Trilhas da Democracia do domingo, 17 de novembro, que recebeu como convidados Luciana Vieira – professora do Departamento de Psicologia e gestora da Diretoria LGBT da Universidade Federal de Pernambuco – e Felipe Souza – estudante do curso de Comunicação da UFPE e diretor do programa de rádio LGBT no ar.

Ainda estava fresco na memória dos debatedores a determinação dada, no mês de setembro, pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, de recolher a história em quadrinhos “Vingadores: a cruzada das crianças” na Bienal do Livro, no Riocentro.

A alegação do bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus foide que a HQ de super-heróis teria “conteúdo sexual para menores”, explicitado no caloroso beijo dado por dois dos seus personagens, após inúmeras batalhas travadas. Nas palavras do alcaide carioca, a ordem de apreensão dos gibis da Marvel estaria “protegendo os menores da nossa cidade”.

Tudo leva a crer que tenha sido da mesma natureza a motivação quelevou Jair Bolsonaro a vetar o nome do atual deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança na composição da chapa presidencial do PSL, em meados de 2018.

Pelo histórico homofóbico do atual presidente, não parece ser inverossímil a versão que se difundiu na semana passada, quando da reunião para a formação da nova sigla bolsonarista (Aliança pelo Brasil), segundo a qual o nome do “príncipe” teria sido vetado não por uma questão de “governabilidade”, mas sim pelo fato do trineto de Pedro II ser gay e aparecer em fotos mantendo relações homossexuais.

Os dois episódios acima citados não fazem mais que atestar a existênciade governantes que fazem da homofobia um elemento não menos central de um projeto de dominação absolutamente avesso a um dos princípios mais  fundamentais do significado contemporâneo dos direitos humanos – a ideia de diversidade.

Nesse sentido, o reacionarismo de cariz pré-iluminista que impregna acultura de governantes da estirpe de Crivella e Bolsonaro (e dos seus seguidores, é claro) vai muito além da fobia aos homossexuais, chegando àquilo que o sociólogo e filósofo polonês, Zigmunt Bauman, chamou de “mixofobia”, isto é, “a fobia de misturar-se com outras pessoas”.

O autor de Modernidade Líquida afirmava que, na atualidade, o conceitode tolerância inventado pelos liberais e universalizado no decorrer da história da modernidade ocidental era necessário, mas não suficiente, já que, em sociedades cada vez mais multiculturais, o horizonte da utopia havia se deslocado para o ideal de integração entre as pessoas, com toda a sua ampla gama de diversidade.

Porém, para o nosso infortúnio, não é apenas o ideal de integração queparece estar se tornando uma realidade cada vez mais distante, pois, nesse Brasil de governantes mixofóbicos como Crivella e Bolsonaro, a própria tolerância vem sendo atingida dia após dia no seu coração.

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