Governar para que, para quem?
Sem decifrar esse enigma e encontrar as formas de superá-lo, a reeleição de Lula segue em risco
A hostilidade a quem governa e às instituições que representam o poder se mantém sempre forte. Não importam os resultados ou quem governe.
O Brasil melhorou evidentemente nos últimos anos, que coincidem com o terceiro governo Lula. A economia cresce, os índices de inflação e de desemprego nunca foram tão baixos.
No entanto, o maior enigma é por que o apoio ao governo não é muito mais alto e por que os bolsonaristas, sem terem deixado nenhuma herança positiva, seguem tendo um apoio significativo.
A hostilidade ao Estado foi um dos elementos de força do neoliberalismo. Desqualificar o Estado, porque é quem produz inflação, quem cobra impostos, quem personifica a repressão, quem tem uma imensa máquina burocrática.
O Estado, segundo George Bush, teria deixado de ser solução para ser problema. Sobre ele se descarregaram todos os seus petardos nos grandes meios de comunicação, em boa parte do trabalho dos intelectuais, da produção editorial.
Mesmo depois do fracasso evidente do neoliberalismo, permanecem elementos ideológicos, como a repulsa ao Estado, entre outros. As pessoas estão sempre insatisfeitas, sempre reclamam da vida, e a culpa recai sempre sobre os governantes, sobre o governo, sobre o Estado.
A superação dessa visão alienada supõe uma consciência política, que não costuma ser característica da maioria da sociedade. Esse grupo é sempre minoritário, podendo crescer em momentos de maior força política da esquerda.
Lula, sem dúvida, faz um bom governo. Há evidente distribuição de renda no conjunto da sociedade, tudo isso é perceptível nos restaurantes, nas compras nas lojas, até mesmo se percebe o fenômeno nas condições de vida, de vestimenta, de acesso a outros bens mais sofisticados – a celulares, antes de tudo.
Mas os índices de apoio político ao governo não refletem isso, mesmo contando em Lula com o melhor comunicador. Para comparação, Claudia Sheinbaum faz um governo parecido com o de Lula, na prioridade das políticas sociais, no enfrentamento ao neoliberalismo, com mecanismos de mídia aparentemente similares aos existentes no Brasil. Mas Claudia tem um apoio de 70% da população, enquanto Lula – mesmo com toda a manipulação inerente às pesquisas – tem apoio menor do que 50%, com rejeição mais ou menos similar, segundo as pesquisas.
Fica claro que a questão das comunicações é central para decifrar esse fenômeno. Desde o tarifaço de Donald Trump, o prestígio de Lula subiu, porque passou a aparecer para setores mais amplos da sociedade como o defensor de todos, da sociedade no seu conjunto, diante dos ataques do governo norte-americano. Mesmo assim, as pesquisas apontam sempre um apoio menor do que 50% e, supostamente, um grau praticamente similar de rejeição, além do apoio mais ou menos alto do filho de Bolsonaro.
Sem decifrar esse enigma e encontrar as formas de superá-lo, a reeleição de Lula segue em risco.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
